1 de fev de 2012

Sanfoneiros do Ceará


CONTINUAÇÃO

No reino da sanfona

26.05.2003
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FRANCISCO SOUSA
CHICO PAES ainda agüenta tocar a noite toda, até de manhã. Às vezes, fazia três festas, “encarcadas” uma na outra e um pouco de cerveja ajudava a varar a noite
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ANTONIO BOA HORA “Só não toquei em dois lugares: no céu e no inferno”.
Chico Paes lamenta a invasão das bandas, que tem reduzido seu espaço, mas acredita na volta da tradição. Ele cobra em função da amizade, do lugar e das dimensões da festa, e de quem lhe contrata e “ajusta”, de trezentos a quinhentos reais por uma apresentação. Um amigo, no distrito de Flamengo, em Saboeiro, sempre manda buscá-lo, “porque acha que música velha é que é boa”.

Enumera suas preferências, “em primeiro lugar, Dominguinhos; em segundo, o que era sempre o primeiro, Luiz Gonzaga; Waldonys é terceiro lugar; e Chico Justino é um grande sanfoneiro”.

Às vezes, improvisa na hora da festa. “Outras vezes, me vêm as notas, e eu aproveito a noite, ou acordo bem cedinho, até fazer a música, sempre de cabeça”.

Recebe encomenda de gravação de fitas cassete, e atende às pessoas amigas: “não entrego minhas músicas para qualquer um, eles registram dizendo que é deles”.

Todos os cinco irmãos já tocaram, e o sobrinho, Antonio também resfolega no fole. O mais novo o acompanhava no pandeiro e cantava, adotou a “sanfona grande”, e se revezavam nas festas, até o caçula entrar para a polícia.

Seu “pé-de-bode” italiano, foi comprado em São Paulo, e diz que é “difícil um sanfoneiro dar conta das duas”, com o mesmo virtuoso.

Ainda agüenta tocar a noite toda, até de manhã. Às vezes, fazia três festas, “encarcadas” uma na outra, e um pouco de cerveja ajudava a varar a noite.

Tem recebido promessas de gravação, rapidamente esquecidas, mas gostaria de deixar “uma lembrança“, como ele diz.

ANTONIO BOA HORA

Nascido no Mucambo, pé da serra da Ibiapaba, em dezembro de 1927, Antonio é filho do tocador Manoel, “homem preguiçoso para trabalhar na roça” e de dona Arlinda.

Veio com a família para os Inhamuns, na seca de 1932, em lombo de jumento, trazidos pelo tio Cândido, que vendia rapadura da Ibiapaba no sertão. Foram para Nova Olinda, município de Independência, e depois se fixaram em Crateús.

Não sabe de onde veio o apelido Boa Hora, a família mesmo é Santiago.

O pai sempre “um sanfoneiro fraco, que tocava pouco e fazia zoada para o povo dançar”, mesmo assim era chamado para as festas, apesar de seu repertório acanhado, uma meia dúzia de forrós, se tanto.

O menino aprendeu a tocar “pegando a sanfona escondido, quando o pai não estava em casa” e, aos 12 anos, veio o convite para o primeiro forró. “Seu Manoel, ouvi falar que teu menino já toca...”. E veio a resposta: “faz um barulho aí”.

O pai achou que ele não daria conta, mas foi convencido pelo promotor da festa na fazenda Fidalgo, do finado Zacarias Martins, de que o menino, aos doze anos, já agüentava tocar a noite inteira, e ainda receberia 12 mil réis.

Voltou para casa com o dinheiro no bolso e, a partir daí, sua vida mudou. Pela segunda festa, na Graciosa, o ajustado foi vinte e cinco mil réis, e tomou a primeira cachaça de sua vida. Diz que a bebida atrapalha o tocador: “tem sanfoneiro que, devido ao álcool, não é chamado nem para tocar em dança de São Gonçalo”, ele remete a uma manifestação religiosa em que as pessoas rodopiam em louvor ao santo de Amarante.

Teve oito dias de escola, quando lhe ensinaram a “fazer” o nome. “Não aprendi, mas vontade tinha demais”. A experiência do professor Zé Rodrigues durou pouco: montou escola, reuniu os meninos das redondezas, mas desistiu quando soube que os caititus estavam comendo sua plantação de mandioca, na serra.

Dedicou-se à sanfona com afinco, e sua fama correu a região. Lembra de festas memoráveis, nas latadas cobertas de palha, onde vinha gente de longe ouvir o menino sanfoneiro, que não parou mais de tocar.

No repertório, Luiz Gonzaga, Noca do Acordeon, e, no matulão, uma arma “para se defender”. Aconteciam brigas nos forrós, ele diz que “tem muita gente reimosa no mundo”, mas todos respeitavam o sanfoneiro Boa Hora.

Casou, em 1955, com Gonçalina de Sousa, tiveram sete filhas mulheres, “trabalhei para os outros”, diz, machista, e um único filho, José Nilson, sanfoneiro em São Paulo, tendo gravado Cd, que atesta a continuidade de uma linhagem de tocadores.

Seu Antonio não se apresenta mais profissionalmente, mas não resiste à idéia de tocar para os amigos, abre o fole de sua Scandale, de 120 baixos, e dá um “show”, com Tiago na zabumba, e Robson no triângulo.

A primeira sanfona, uma Todeschini, foi comprada mesmo em Crateús, no armazém de Manoel Sales. Ao todo, foram mais de dez, pois como tocava muito, estragava logo o fole.

Muita gente andou “dezessete légua e meia” para ouvi-lo relembrar os tempos de tocador requisitado, a fama sertão adentro, e a certeza de uma vida bem vivida. “Só não toquei em dois lugares: no céu e no inferno”.

NELSON ARAÚJO

Nascido no Castro, sertão de Quixeramobim, em 1932, Nelson é de uma família de tocadores e, aos doze anos, foi mandado pelo pai para estudar em Água Verde, Guaiúba. Três meses depois, o meninote não suportou as saudades, e voltou para casa.

O pai, Irineu Castelo Branco de Araújo, cultivava a terra dos outros, e também tocava uma oito baixos, que ele não sabe que fim levou. A mãe, Maria das Dores, teve dezessete filhos, dos quais quinze se criaram, sendo 7 homens e 8 mulheres. Ou seria o contrário? Ele não tem certeza, e ri.

Trabalhou muito tempo na roça, até passar a tocar nos forrós com o irmão mais velho, Mário, em cuja sanfona se iniciou, “pegava, experimentava, e fui aprendendo”, e com quem passou a se revezar nas festas. Diz que o irmão, morto em 1980, era “sanfoneiro de verdade”.

Tocou muito, compôs alguns forrós, tendo inclusive alguns gravados, pelos parceiros Clementino Moura e Chico Justino, mas nunca se dedicou, com garra, a esta arte.

No repertório, “Asa Branca”, “Assum Preto”, os baiões de Luiz Gonzaga, além de Noca do Acordeon, e Jackson do Pandeiro.

Alternava o trabalho na roça com a música. Ia para as festas a cavalo, na companhia do irmão, com as sanfonas a tiracolo. Apresentavam-se em Capistrano, Boa Viagem, Pedra Branca, onde fossem convidados.

Casou em 1957, mas não conheceu dona Zeneida no forró. Tiveram doze filhos, dos quais dez se criaram, nenhum sanfoneiro.

Terminou vindo morar em Fortaleza, em 1974, na Granja Portugal, e depois construiu a casa em Maracanaú, onde vive.

Já maduro, veio a possuir uma sanfona cromática, com botões, ao invés do teclado, que dá melhores condições de interpretação, graças à ajuda do sobrinho Irineu, afinador deste instrumento.

No capítulo das relembranças, as latadas de palha, o forró “solado”, a lamparina, a quadra de chão batido a malho, e o “samba”, como se chamavam as festas de então, com poucas brigas, segundo ele.

Uma vez foi tocar no rádio, mas “faltaram os nervos”, e não tocou direito.

Parece viver em paz, com suas lembranças das festas “nos matos”, do forró a noite inteira, quando a sanfona, ganhou o auxílio da zabumba, depois do triângulo, e por fim vieram o pandeiro, e o banjo ou cavaquinho, dependendo da região.

Bebia um pouquinho porque “se beber demais, faz é ficar mais ruim”. De vez em quando “peleja por aqui” ou seja, compõe alguma coisa.

Trabalhou como zelador para uma destas empresas que terceirizam mão - de- obra, até se aposentar, por problemas cardíacos graves, o que o impede de tocar com freqüência uma sanfona que pesa dez quilos, e lhe causa um certo “enfado”.

“Não sou muito chegado às novas bandas de forró, é outro tipo, uma orquestra danada”, diz de modo diplomático, e complementa que não saberia tocar o que chamam de novo eletrônico.

Nelson parece conviver bem, sem mágoas, com o fato de ter ficado nos bastidores, enquanto o irmão Mário, de quem sente muitas saudades, brilhava, e atendia aos insistentes pedidos de bis.
Gilmar de Carvalho - Especial para o Caderno 3

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