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21 de jul. de 2015

Em PE, famílias de Arlindo, Selma e Abelardo lutam para manter legado


21/07/2015 08h17 - Atualizado em 21/07/2015 08h17

Em PE, famílias de Arlindo, Selma e Abelardo lutam para manter legado

Arlindo dos 8 Baixos e Selma do Coco queriam preservar ritmos do estado.
Casa de Abelardo da Hora deve virar museu, segundo sonhos dos filhos.

Vitor Tavares Especial para o G1 PE
Familiares de Arlindo dos Oito Baixos, Abelardo da Hora e Selma do Coco idealizam projetos para manter legado artístico (Foto: Luna Markman / G1 - Katherine Coutinho/G1 - Rafael Passos/Secom-JP)Familiares de Arlindo dos Oito Baixos, Abelardo da Hora e Selma do Coco idealizam projetos para manter legado artístico (Foto: Luna Markman / G1 - Katherine Coutinho/G1 - Rafael Passos/Secom-JP)
Nos últimos anos, Pernambuco perdeu grandes ícones de sua cultura. Ariano Suassuna, Abelardo da Hora, Reginaldo Rossi, Selma do Coco, Dominguinhos, Arlindo dos Oito Baixos, Mestre Camarão. Nomes que consolidaram o estado como polo musical e artístico no cenário nacional e que fizeram de suas vidas patrimônio de uma época e de um povo. Após a morte, o que deveria ser permanente – a memória – acaba se enfraquecendo diante da falta de apoio e da presença de espaços e símbolos que honrem o legado que cada um deixou, depois de décadas de produção cultural.
Escutar a música e as histórias de Selma do Coco, contemplar as esculturas de Abelardo da Hora ou dançar um forró dominical aos moldes do que Arlindo dos Oito Baixos fazia. São ideias que familiares e produtores dos artistas tentam manter acesas, mesmo diante de um cenário não muito animador de crise e de pouco investimento no âmbito cultural. Em comum, os três projetos visam a valorização e perpetuação do legado desses artistas pernambucanos que morreram recentemente. Em diferentes estágios para se tornarem concretas, as propostas seguem no papel, mas se mostram essenciais para que a história não se perca na desinformação.
Abelardo da Hora Filho está a frente do instituto que preserva a memória de seu pai (Foto: Vitor Tavares / G1)Abelardo da Hora Filho está à frente do instituto que preserva a memória de seu pai (Foto: Vitor Tavares / G1)
Família de Abelardo quer casa-museu
Foi em 2006 que um dos maiores artistas plásticos do Brasil, Abelardo da Hora, adquiriu um terreno ao lado de sua casa, no bairro da Boa Vista, no Recife, para construir a sede do instituto que leva seu nome. A ideia era fazer uma construção arrojada, para abrigar salas dedicadas a diversos tipos de arte, além de expor permanentemente peças do seu acervo.
Hoje, o local entre as ruas do Sossego e Cardoso Ayres ainda é um grande vazio. Tem apenas duas cobertas e guarda algumas das obras de Abelardo. Em setembro de 2014, o então governador de Pernambuco, João Lyra Neto, compareceu ao velório do artista e prometeu ajudar no que fosse possível para consolidar o Instituto Abelardo da Hora. Quase um ano se passou e, frente à desesperança quanto ao apoio institucional, a família decidiu vender a área e se dedicar à casa onde Abelardo morava.
A ideia é fazer uma casa-museu, com pé-direito alto e onde os visitantes possam ver algumas obras originais, além de conferir o local em que o artista trabalhava e descansava. Lá, estão peças de temática social, como “Flagelo”, “Sem Terra e Sem Vez”, “A Fome e o Brado”, sem falar nas tradicionais esculturas de mulheres em poses sensuais. “Nos sete meses que se passaram, o entendimento da família foi em manter essas obras todas juntas, e não dividir para os filhos. A gente entende que arte de Abelardo é do Recife, de Pernambuco e do Brasil, não de uma família”, destacou Abelardo da Hora Filho.
Esculturas estão espalhadas pela casa de Abelardo, que deve se transformar num museu (Foto: Vitor Tavares / G1)Esculturas estão espalhadas pela casa de Abelardo, que deve se transformar num museu
(Foto: Vitor Tavares / G1)
Ao todo, no local há cerca de 1,5 mil obras, entre esculturas e desenhos. E novos trabalhos de Abelardo ainda aparecem, a cada procura pelos antigos móveis. Recentemente, o filho achou, nas gavetas do pai, 80 desenhos inéditos, todos sobre terreiros de umbanda e orixás. Nos corredores estão esculturas de todos os tipos, e casa está intocada, do jeito que o mestre deixou.
Espaço onde seria erguida a sede do Instituto Abelardo da Hora deve ser vendido (Foto: Vitor Tavares / G1)Espaço onde seria erguida a sede do Instituto
Abelardo da Hora deve ser vendido
(Foto: Vitor Tavares / G1)
O Instituto Abelardo da Hora, além de querer construir o museu, mantém atividades para a preservação da memória. No Recife, por exemplo, existem cerca de 600 obras de Abelardo espalhadas pela cidade, em espaços públicos e privados. Algumas dessas obras, através de uma manutenção malfeita, perdem as características originais. Antes de morrer, o artista ainda deixou alguns projetos em andamento, que devem ser levados adiante pela família, como a Torre Cinética na Praça da Torre, monumento derrubado na ditadura militar; o busto de Gregório Bezerra; e uma obra no Hospital da Mulher da Prefeitura do Recife.
“Impressionante como a memoria do povo é curta, por isso a gente realmente tem que lutar pela preservação da memória da grande figura que foi meu pai. Mas não há nenhum diálogo entre nós e poder público, até porque não há recursos para nada. Quando a gente tiver uma brecha, vamos buscar”, comentou Abelardo da Hora filho. Para agosto, está prevista uma exposição inédita do artista na Caixa Cultural do Recife, em celebração aos 90 anos de nascimento.
A casa de Abelardo da Hora segue aberta para visitação, mas de forma agendada. Os interessados devem entrar em contato através do número 3221-0773.
Dona Odete e o produtor Roberto Andrade lamentam não conseguir manter festas de forró em Dois Unidos (Foto: Vitor Tavares / G1)Dona Odete e o produtor Roberto Andrade lamentam não conseguir manter festas de forró em Dois Unidos (Foto: Vitor Tavares / G1)
Casa arrumada, mas sem Forró do Arlindo
Todos os dias, a viúva de Arlindo dos Oito Baixos, dona Odete Macedo, arruma o espaço destinado ao forró que o marido construiu nos fundos de sua casa, em Dois Unidos, Zona Norte do Recife. O espaço ganhou até uma placa nova, segundo dona Odete há cerca de dois meses, identificando como ponto de difusão da cultura nordestina. Só que, sem dinheiro e sem nenhum tipo de apoio, dona Odete e o produtor de Arlindo, Roberto Andrade, pararam as atividades do espaço no último mês de março.
O Forró do Arlindo foi criado em 2000, como um encontro de amigos. Foi crescendo e virou um espaço de efervescência do forró na Zona Norte, reunindo nomes como Marinês, Santanna e Dominguinhos. O espaço também preservava a sanfona dos oito baixos, modelo diferenciado usado por poucos forrozeiros. Organizar a festa em que batia ponto todos os domingos era a coisa que mais dava prazer em Arlindo, até quando a saúde dele permitiu. O pernambucano morreu em setembro de 2013, após problemas decorrentes de diabetes.
O cenário hoje no Forró do Arlindo é um misto de organização e abandono. As mesas estão organizadas, as toalhas floridas fazem a decoração, e o chão é varrido constantemente. A estrutura, entretanto, padece.  O maior problema é no telhado, que está solto em algumas partes, com goteiras e podendo causar até um acidente. “Eu venho aqui, arrumo, porque qualquer pessoa que pedir para ver como é o espaço, ele está todo ajeitadinho. Todo dia eu organizo, mas não posso mais me comprometer com as festas”, falou dona Odete.
Espaço do Forró de Arlindo sofre com falta de estrutura (Foto: Vitor Tavares / G1)Espaço do Forró de Arlindo sofre com falta de estrutura (Foto: Vitor Tavares / G1)
A vontade de manter o forró existe, além de criar um espaço de preservação para a sanfona dos oito baixos, com oficinas regulares. O problema é que, ganhando apenas uma aposentadoria, Odete não pode garantir a festa. Precisa ter capital de giro para alugar som, pagar artistas, bancar os bares e as comidas. “Arlindo sempre queria manter a tradição que ele ajudou a propagar até quando pôde, dá uma tristeza ver isso aqui sem movimento”, destacou Roberto Andrade.
Produtor de Arlindo nos últimos 15 nos de vida do forrozeiro, Roberto tem a ideia de transformar o espaço em um polo junino, além de ter uma programação anual de festas e também oficinas de sanfoneiros. Ele prepara uma maratona de reuniões com os governos estadual e municipal para tentar viabilizar algum projeto. Pensa, inclusive, em criar tours dedicados ao forró no Recife, com visitação no espaço. Para este ano, pelo menos uma grande festa deve acontecer: o 15º aniversário do local, em setembro.
Casa de Arlindo recebeu placa informativa da Prefeitura, mesmo sem ter mais programação (Foto: Vitor Tavares / G1)Casa de Arlindo tem placa informativa da Prefeitura,
mesmo sem ter mais programação
(Foto: Vitor Tavares / G1)
Desde que Arlindo morreu, dona Odete não foi procurada oficialmente por nenhum representante do governo para conversar. A época de São João passou e, com ela, a tristeza de não conseguir fazer as festas no período mais querido pelos forrozeiros. “Recebi muitas ligações, as pessoas pedindo que eu organizasse, que é uma pena não ter mais. O povo lembra muito ainda dele, sempre me procuram, mas o espaço não estou conseguindo manter. Mas se Deus quiser isso aqui vai voltar a ser o que era”, disse a viúva. Em 2012, Arlindo dos 8 Baixos ganhou o titulo de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

A Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Cultura, disse que, por se tratar de um espaço privado, a família precisa apresentar um projeto da Fundação de Cultura da cidade, com contrapartidas sociais, para receber apoio. Em relação à placa que dona Odete diz ter sido colocada este ano, a Secretaria de Turismo e Lazer informa que foi instalada no primeiro semestre de 2014, através de um projeto de sinalização turística.
Casa de Selma do Coco tem pintura no muro indicando espaço cultural (Foto: Vitor Tavares / G1)Casa de Selma do Coco tem pintura no muro indicando espaço cultural (Foto: Vitor Tavares / G1)
Briga de família e os sonhos de Selma
Enquanto estava viva, até o último mês de maio, Selma do Coco dizia aos netos que sonhava em ter espaço dedicado ao coco em Olinda. Ela, que ajudou a difundir o ritmo pelo Brasil, queria perpetuá-lo mesmo depois que partisse. A cantora também se tornou Patrimônio Vivo do estado em 2012.
O problema da família de Selma do Coco está em torno da casa onde ela morava, no bairro do Amparo, em Olinda. A cantora viveu no local até seus últimos dias, com um dos seus netos, Alexandre. O G1 foi ao imóvel, que tem o nome “Espaço Cultural” no muro, mas o neto se limitou a dizer que não poderia conversar com a reportagem por orientação de advogados. Informou, entretanto, que gostaria de manter viva a memória de Selma.
Outro grupo de netos e parentes de Selma, por sua vez, já tem um projeto na cabeça. Querem um ponto de cultura destinado ao ritmo pernambucano. “Ela sempre manifestou interesse em fazer algo, mas, por questão de idade e alguns problemas, preferiu deixar quietinho. A ideia é difundir o coco de roda, até o Japão, mostrar quem era Selma através do resgate das cantigas antigas. A gente quer mostrar quem foi Selma: negra, pobre, vendedora de tapioca e cerveja para manter a sobrevivência”, disse Jaqueline Leite, nora de Selma do Coco
Viúva aos 33 anos, a cantora só teve três filhos, todos falecidos, mas criou diversos sobrinhos e netos. Trabalhou com música para manter todos. De acordo com os parentes, a partir de julho, eles vão tentar organizar o projeto para tentar verba junto aos governos estadual e federal. Ainda não há definição sobre a casa onde ela morava, pois a briga está na Justiça. “Ela engrandeceu não só a família, mas Pernambuco, levando o coco de roda para mundo”, finalizou Jaqueline.
Em nota, a Prefeitura de Olinda informou que, até o momento, não existe projeto para preservação da memória de Selma do Coco, mas que realiza seminários e encontros destinados ao coco na cidade.
Procurada pelo G1, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) não deu retorno até a publicação desta reportagem.

28 de jan. de 2013

Arlindo dos 8 Baixos: "Eu me sinto um herói"


Arlindo dos 8 Baixos: "Eu me sinto um herói"

Patrimônio vivo de Pernambuco comemora 50 anos de carreira como referência no instrumento e lutando contra doença

por Felipe Mendes | sab, 26/01/2013 - 01:03
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Foto: Fernando da Hora/LeiaJáImagensMeus mestres... Um já foi embora, que era Luiz Gonzaga. O outro está bem doente, que é Dominguinhos

São cinquenta anos de carreira. Setenta anos de vida a ser completados no próximo dia 16 de abril. Um legado imensurável que ultrapassa o instrumentista e se concretiza em 18 discos, inúmeros shows, fotos, histórias e no Espaço Cultural Arlindo dos 8 Baixos, que fica no quintal da sua casa, no bairro de Dois Unidos. Pelo espaço, já passaram quase todos os forrozeiros da região, tocando para uma multidão de admiradores da música que encontrou sua síntese em Luiz Gonzaga.
Gonzaga, aliás, teve a companhia de Arlindo dos 8 Baixos no palco durante muitos anos. Foi o Rei do Baião que o estimulou a voltar ao seu instrumento original – a sanfona de 8 baixos – e a utilizá-lo como nome artístico. Admirado como instrumentista diferenciado, Arlindo abraçou os 8 baixos e com ele se destacou. No fim de 2012, o músico recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, um justo reconhecimento por sua contribuição à cultura e à música.
Apesar da história e das alegrias, Arlindo está doente. Já teve um AVC, está cego e sofre com a diabetes, que obrigou os médicos a amputarem suas pernas. O músico esteve internado mais de uma vez e voltou para casa recentemente da última estadia no hospital. Com o semblante triste, confessa: “Faz uns oito meses que não pego no instrumento. Fiquei internado, minha mão direita ficou com os dedos duros, cansados...”. Mas a força do menino criado em um engenho, que virou um jovem barbeiro e se transformou em músico respeitado não o deixou. Arlindo fala em voltar a treinar para recuperar a fluência na sanfona e até em fazer fisioterapia para resgatar alguns movimentos das mãos.
Hoje, bisavô de uma menina, casado há 42 anos com Dona Odete, Arlindo é definitivo: “A música é tudo para mim. Tudo o que tenho hoje foi através da minha música”. Em entrevista exclusiva ao LeiaJá, o mestre da sanfona de 8 baixos conta um pouco da sua história. Fala de seus mestres e alunos, do forró despretensioso em seu quintal que virou lugar obrigatório para músicos e apreciadores, das alegrias de sua caminhada e da sua música.
E qual foi a primeira sanfona que você tocou?
A do meu pai. Eu comecei a pegar a sanfona de 8 baixos com dez anos de idade. Meu pai tocava um pouquinho, umas besteirinhas. E eu aprendi a afinar com meu padrinho, eu levava a minha sanfona para ele afinar. Com poucos dias aprendi e fiquei consertando a minha e a dos outros.
Você teve uma infância musical? Havia bailes, instrumentos musicais?
Não. O que tinha na minha casa era uma estrovenga, uma foice e uma enxada. Meu pai plantava na roça e eu ia mais ele para o roçado. Ele nem queria que eu tocasse. Quando chegava do roçado e eu estava tocando, ele reclamava, dizia que não tinha futuro. Aí eu guardava o instrumento, mas quando ele saía, pegava a sanfona de novo. Um dia ele deixou de reclamar e até comprou um 8 baixos pra mim. Depois troquei numa sanfona grande (de 120 baixos) e com ela conheci um bocado de artistas, fiz shows por Pernambuco todo com a caravana da Rádio Clube, com a caravana da Rádio Jornal. Silveirinha, locutor da Rádio Clube e Jota Austregésilo, me chamavam. Passei quatro anos tocando com Coruja e os Tangarás.
Quando eu viajei com Gonzaga, foi com a sanfona grande. Eu disse a ele que queria gravar, e ele me aconselhou a trocar de instrumento, porque as gravadoras estavam cheias de sanfoneiros e não queriam mais. Queriam a de 8 baixos, que estava resumida demais. Então fui à Caruaru, comprei um 8 baixos e fiquei treinando. Um ano e pouco depois, Gonzaga perguntou como estava e pediu para eu tocar uma coisa para ele ver. Então, ele disse que ia me levar para a (gravadora) RCA, e eu estou gravando até hoje.
Com o que mais você trabalhou antes de se profissionalizar como músico?

Na minha infância eu trabalhava na agricultura. Eu nasci em um engenho, na Usina Trapiche, limpava cana, meu serviço era esse. Depois, fui morar em Santo Amaro de Sirinhaém fazendo o mesmo serviço mais meu pai, nos engenhos. Um dia chegou um barbeiro lá e disse para meu pai comprar as ferramentas para eu aprender a cortar cabelo e ele comprou. Terminei aprendendo a cortar cabelo, montei uma barbearia e fiquei cortando cabelo. Botei um salão em Ponte dos Carvalhos e depois vim ao Recife, para Beberibe, onde cortei cabelo ainda por mais de dois anos.
É verdade que tocar a sanfona de 8 baixos é mais difícil do que a de 120?

É mais difícil. Cada botão desses tem duas notas: uma abrindo o fole e outra fechando. A sanfona é uma coisa só, é mais fácil. Quem toca sanfona não toca oito baixos, e quem toca oito baixos não toca sanfona, tem que aprender nos dois.
No final do ano passado você finalmente reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco. Como recebeu a notícia?

Fiquei muito feliz quando soube da notícia. Muita gente pediu que eu me inscrevesse. Eu me inscrevi três anos e não fui sorteado. Esse ano, fui. Deu uma alegria boa. Ligaram para mim, saiu no jornal com minha foto. Fiquei muito satisfeito. Isso vai me ajudar, a gente tem direito a um salário.
Você é um mestre do instrumento. Quem são seus aprendizes? E quem são seus mestres?

Meus mestres... Um já foi embora, que era Luiz Gonzaga. O outro está bem doente, que é Dominguinhos. Eu adoro as músicas de Dominguinhos e acho muito bonito ele tocar. E eu tenho vários seguidores, porque tenho uma escola aqui onde ensino os oito baixos e a sanfona. Tenho essa escola há mais de quinze anos. Tenho aluno aqui que começou do zero, não sabia tocar nada e hoje já está tocando em palco, gravando, viajando para fazer show. Um deles é Raimundo Santos, e tem outros que já tocam bem. Recife tem muito sanfoneiro novo e bom, tocando muito, e uns tempos atrás a gente não encontrava. De uns dez anos para cá é que se voltou a dar valor à sanfona.
Como surgiu o Espaço Cultural Forró de Arlindo?

Comecei aqui, por que não tinha forró no Recife na época. Aí chamei os colegas para fazer forró no meu quintal, mostrar música um para o outro todo domingo de tarde. Chamei Gennaro, Camarão, um bocado de sanfoneiro. A gente foi começando e todo domingo dava mais gente que o anterior. Isso foi em 1980. Nessa época, quando a gente dizia que tocava sanfona, o povo mangava da gente. Tinha umas fruteiras no meu quintal que eu fui derrubando, fui murando o quintal. Chegou uma quantidade de gente que eu tive que cimentar tudo, cobrir, foi melhorando. Ficou de um jeito que, se eu quiser parar agora, não consigo mais. Só está parado agora por conta do carnaval e da minha doença. Mas, dia 3 de março vamos recomeçar a programação com Alcymar Monteiro.
Durante seus 50 anos de caminhada musical, quais foram as suas maiores alegrias?

Muitas. Quando viajava com Gonzaga, saía para lugares que não conhecia... Tocar um instrumento, seja ele qual for, é muito bom. Faz bem. Eu nunca mais peguei na sanfona por causa desse meu problema de saúde. Os dedos não atendem, tenho que treinar muito.
Depois de tanta vivência e de ser uma referência como músico, como você se sente?

Muito bem. Eu me sinto um herói, porque quando me lembro que trabalhava nos engenhos cortando cana, pastorando boi, e hoje estou como estou, me sinto muito bem. Não dá nem para acreditar.
Com a sua vasta experiência, qual recado você daria para quem está começando a tocar?

Peço a eles que não desistam. Enfrentem, porque eu comecei assim também. Teve hora que pensei: “será que não saio disso, não vou aprender?”. Mas, eu aprendi, não fiquei conhecido pelos músicos e artistas? Então digo que não desistam, sigam em frente. E os instrumentos ruins joguem fora e comprem instrumentos bons. Continuem a treinar, cantar e tocar.
Casa de Arlindo dos 8 Baixos virou Espaço Cultural Arlindo dos 8 Baixos

24 de mai. de 2012

São João pode ficar sem a sanfona de Arlindo dos Oito Baixos


Esta notícia me deixou um bocado triste... Outro dia desses eu falei com Arlindo por telefone. Ele estava bem. Mas fico feliz sabendo de sua melhora, convocando toda a comunidade da sanfona de oito baixos a orar pela reabilitação do mestre Arlindo.
São João pode ficar sem a sanfona de Arlindo dos Oito Baixos
Redação do DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR 
24/05/2012 | 11h36 | Forró


São João pode ficar sem a sanfona de Arlindo dos Oito Baixos. Imagem: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press/Arquivo
Blenda Souto Maior/DP/D.A Press/Arquivo

Assista ao vídeo
Confira Arlindo dos Oito Baixos tocando `Buliçoso` na sanfona de oito baixos. Imagens: Carolina Santos/DP/D.A Press

O São João deste ano não vai contar com a maestria da sanfona de Arlindo dos Oito Baixos. É a primeira vez, em mais de 50 anos de carreira, que ele não vai participar dos festejos juninos. O músico de 71 anos está com a saúde debilitada, internado desde o dia 12 de março no Insituto Materno Infantil de Pernambuco - Imip. Hipertenso e diabético há mais de 40 anos, doença que já o deixou cego, Arlindos dos Oito Baixos foi internado por conta de uma unha encravada, que infeccionou. Por conta da diabetes, a infecção foi tão grave que os médicos tiveram que amputar parte da perna esquerda de Arlindo, abaixo do joelho.

Seguindo recomendação dos médicos, Arlindo está sem receber visitas, para evitar o risco de novas infecções. Apesar do estado delicado, a sensação é de que o pior já passou. “Estou melhor. A perna ainda está cicatrizando, mas estou me sentindo bem. O médico diz que devo ter alta até o próximo sábado”, diz o sanfoneiro, por telefone. “Quero sair daqui logo. Tudo em hospital é ruim. Para dormir é ruim, para comer é ruim. Agora tem esse isolamento, ninguém pode me visitar”, diz Arlindo, que recebe no hospital apenas os familiares e já sabe o que fazer quando voltar para casa. “Tô com uma saudade danada do fole!”, conta. “Mas não vou conseguir tocar logo, vou ter que esperar uns dias”, completa.

Arlindos dos Oito Baixos está sendo acompanhado no Imip pela esposa, dona Odete, e pela filha Érica, além de dois dos seus três filhos homens, Raminho da Zabumba e Adilson. Com a saída do hospital, os custos para a família devem aumentar bastante. “Arlindo vive do trabalho dele, se ele está sem tocar, ele não tem dinheiro. Nesses últimos meses, está vivendo do pouco que tinha guardado”, diz o produtor Roberto Andrade, que cuida da carreira do músico há 13 anos. “Por enquanto, está tudo bem, mas não sabemos como vai ser depois”, reforça Érica Macedo, filha de Arlindo.

A cadeira de rodas que o músico vai usar quando deixar o hospital foi doada por um deputado. “Os shows de junho foram cancelados e o único cachê que Arlindo tem para receber é R$700 de uma apresentação que seria feita na abertura das comemorações dos cem anos da Assembleia Legislativa de Pernambuco. Ele já estava internado na data do show, mas a Alepe disse que ia pagar o cachê mesmo assim, para ajudá-lo. Esse dinheiro já está reservado para pagar uma cuidadora quando ele voltar para casa”, conta Roberto. “Arlindo precisa de ajuda”, diz o produtor, que bateu na porta da Fundarpe essa semana para pedir ajuda, e ainda aguarda uma resposta.

De renda fixa, Arlindo só conta com o dinheiro dos direitos autorais de suas músicas, que chega trimestralmente, em cheques que raramente passam dos R$200. Para conseguir dinheiro para Arlindo se manter até ter condições de voltar a a trabalhar - além de tocar, ele é um exímio afinador de sanfonas e também dá aulas - está sendo organizado para o dia nove de junho um grande arraial no Forró de Arlindo, que funciona na casa do músico no bairro de Dois Unidos.
“Conseguimos um pequeno apoio da Prefeitura do Recife, que se comprometeu a pagar os músicos da banda base. Vamos chamar os amigos de Arlindo para cantar”, adianta Roberto. A última festa no Forró de Arlindo foi no dia quatro de março, quando Dominguinhos pediu para ir cantar lá, para ajudar o amigo. Naquele dia, uma semana antes de se internar, o sanfoneiro se sentiu mal e não tocou. A torcida agora é para que Arlindo esteja bem para participar da sua próxima festa.
Saiba mais//

Nascido em Sirinhaém, Arlindo morou até a adolescência no Engenho Trapiche. Saiu da cana-de-açucar para cortar cabelos no Cabo de Santo Agostinho. Foi lá que começou a tocar sanfona em bailes, instrumento que aprendeu vendo o pai tocar os Oito Baixos.

Desde 2007, o produtor Roberto Andrade tentou por três vezes incluir, sem sucesso, Arlindo dos Oito Baixos na lista dos Patrimônios Vivos da Fundarpe, que concede uma verba vitalícia de R$750 para pessoas físicas. Apenas três títulos são concedidos por ano.

Foi em um show no Parque de Exposição do Cordeiro que Arlindo conheceu Luiz Gonzaga. Passou 22 anos tocando com o Rei do Baião. “Ele que me fez voltar aos oito baixos. Disse que já tinha sanfoneiro demais, mas ninguém tocava oito baixos. Gravei e na hora de assinar os créditos ele pediu para trocar Arlindo do Acordeom por Arlindo dos Oito Baixos”, lembrou, em entrevista ao Diario no ano passado.

Estão nos planos do produtor de Arlindo o lançamento ainda neste ano de uma coletânea ao vivo, em CD e DVD, para marcar os 50 anos de carreira do sanfoneiro, completados no ano passado.
Por Carolina Santos, do Diario de Pernambuco

12 de mar. de 2012

Arlindo dos oito baixos


12/03/2012 06h57 - Atualizado em 12/03/2012 07h19

'Só tenho coisa boa para falar', diz Arlindo dos 8 Baixos sobre o Recife

No aniversário da capital, sanfoneiro recorda como a cidade o acolheu.
Nascido no Litoral Sul do estado, ele completa 70 anos de idade, em abril.

Do G1 PE
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Arlindo dos 8 Baixos fez fama no Recife (Foto: Luna Markman/G1)Nascido em Sirinhaém, Arlindo dos 8 Baixos
adotou o Recife para viver (Foto: Luna Markman/G1)
Nesta segunda-feira (12), o Recife completa 475 anos. Reconhecida como um dos berços da cultura musical do Brasil, onde muitas pessoas encontram o espaço ideal para dar vazão à sua arte, a homenagem à capital pernambucana chega por meio de um instrumentista que escolheu esta cidade para morar. Há quase 50 anos, o sanfoneiro Arlindo dos 8 Baixos deu uma virada na vida ao aceitar trabalhar cortando cabelo em uma barbearia no bairro de Água Fria, na Zona Norte. Depois desse passo, muita coisa aconteceu e até turnês com Luiz Gonzaga fazem parte dessa história - que é longa, vai fazer 70 anos em abril e começa com outro tipo de corte: o da cana-de-açúcar.


Nascido Arlindo Ramos Pereira, no dia 16 de abril de 1942, no povoado de Santo Amaro, em Sirinhaém, Mata Sul de Pernambuco, logo criança sentiu nas mãos as dores da enxada, plantando e cortando cana-de-açúcar em um engenho da região. Mas também descobriu com elas outra habilidade: tocar sanfona. Aos dez anos, teve o primeiro contanto com a de 8 baixos, que pertencia ao pai - mas ele não incentivava o filho. Pelo contrário, escondia o instrumento do menino, que levava bronca se fosse encontrado mexendo na sanfona.
Não teve jeito. Arlindo apredeu a tocar sozinho, vendo os outros executarem as notas, e tomou gosto pela sanfona, até que ganhou uma do pai, que não se opunha mais ao talento do filho. No entanto, a música era apenas diversão. A vida era dura no campo. Quando Arlindo aprendeu a cortar cabelo, deixou o arado. Mas a sorte dele só começou a mudar na adolescência, quando um tio o convidou para morar em Ponte dos Carvalhos, no Cabo, cidade do Grande Recife. Lá, trabalhava em uma barbearia e, entre um cliente e outro, pegava a sanfona para treinar. No repertório, forró, tango, chorinho, xote, marchinha e cumbia.
E, assim, foi atraindo a atenção de quem passava, até surgirem convites para tocar em pequenas festas. Pouco tempo depois, um amigo disse que, no Recife, ele conseguiria um emprego semelhante. Aos 23 anos, estava empregado em um salão na Avenida Beberibe, em Água Fria, e morando no Fundão, bairro vizinho. Lá, as “tocadas” nos intervalos do serviço e em eventos continuaram. O que mudou foi a plateia. “Aqui, comecei a abrir meu círculo de amizades. Conheci outros artistas, radialistas. Fui chamado para dar entrevistas na rádio. Até que me convidaram para entrar na banda Coruja e seus Tangarás”, contou.
Na sala onde afina acordeom, a foto do mestre Luiz Gonzaga (Foto: Luna Markman/G1)Na sala onde afina os acordeons, a foto do mestre
Luiz Gonzaga (Foto: Luna Markman/G1)
Gonzaga
Arlindo integrou o grupo, que imitava os cangaceiros de Lampião, por apenas quatro anos. Porém, o tempo foi suficiente para viajar por todo o Brasil fazendo shows. Mas foi no Recife que ele conheceu o homem que daria uma guinada na carreira dele: Luiz Gonzaga. A banda abriu a apresentação do Rei do Baião, no Parque de Exposições do Cordeiro. “Eu nunca tinha visto ele pessoalmente. Fiquei na frente do palco para ver bem de pertinho. Quando a cantora Marinês foi fazer uma participação especial, Gonzaga disse que não estava acostumado a acompanhar ninguém. Ai, Coruja me ofereceu”, disse.
O sanfoneiro tocou três músicas. Depois, mais duas, na participação de Waldick Soriano. “No fim do show. Gonzaga chegou para mim e falou: ‘não pare de tocar, você tem jeito para o negócio’. Coruja, ‘enxerido’ que era, ainda comentou com Gonzaga que eu sabia afinar sanfona. No dia seguinte, ele apareceu na minha casa. Eu nem acreditei quando o vi. Afinei o instrumento e não quis cobrar, mas ele queria me ajudar e deu para minha mulher, no valor de hoje, cerca de R$ 1 mil, dinheiro que eu não ganharia em um mês."
Arlindo dos 8 Baixos, apelido dado por Gonzagão que carrega até hoje (Foto: Reprodução)Arlindo dos 8 Baixos, apelido dado por Gonzagão
que carrega até hoje (Foto: Reprodução)
A partir de então a amizade só fez crescer. Arlindo começou a acompanhar Luiz Gonzaga em turnês pelo país. Um dia comentou com o mestre Lua a vontade de gravar um disco. “Disse a ele que via a ‘cara’ dos meus amigos todos nas capas de álbuns. Foi quando ele me aconselhou a trocar a sanfona pelo fole de 8 baixos, porque sabia que as gravadoras já estavam cheias de sanfoneiros.” Assim, em 1981, surgiu o disco “Arlindo dos 8 Baixos, Mestre do Beberibe”, com o apelido que o artista carrega até hoje.
Aos domingos, o Forró do Arlindo recebe até 200 pessoas (Foto: Luna Markman/G1)Aos domingos, o Forró do Arlindo recebe até 200
pessoas (Foto: Luna Markman/G1)
Foram 22 anos de parceria com Gonzagão até construir uma carreira própria, que, em 2012, completa 50 anos. O caminho é recheado com 18 discos e mais de 200 músicas gravadas – a maioria instrumental. O último trabalho foi lançado ano passado, o álbum “Oito Baixos no Frevo”. Há dez anos, o artista também mantém no quintal de sua casa, em Dois Unidos, periferia do Recife, o Forró do Arlindo. A festa ocorre todos os domingos. “Naquela época, não tinha um forró na cidade. Então, resolvi fazer um aqui mesmo. O chão era de terra, não tinha coberta, mas o povo gostou. Se eu quiser parar agora, não consigo mais. Hoje, todo mundo diz que eu mudei a cara do bairro, que era tido como muito violento”, comentou.
AdmiraçãoO que impressiona em Arlindo é a disposição de continuar tocando e animando os finais de semana do Recife. Há cerca de anos, ele perdeu a visão por causa da diabetes. A doença o leva três vezes por semana ao Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira (IMIP) para um tratamento que inclui sessões de hemodiálise. O artista também sofre com uma alergia nas mãos, logo elas. A causa do mal ainda não foi descoberta. Em época de crise, a pele coça e ele não resiste. Chegar a sangra e ficar inchada. E a sanfona sente saudade.
Dominiguinhos e Arlindo 8 Baixos em cena do filme 'O milgare de Santa Luzia'. (Foto: Divulgação)Dominiguinhos e Arlindo 8 Baixos em cena do filme
'O milgare de Santa Luzia'. (Foto: Divulgação)
“Ele é um dos melhores tocadores de 8 baixos do país. Mesmo com suas dificuldades, ele continua trabalhando. É um excelente afinador de sanfona, que é uma coisa muito difícil. Ele também vem mantendo uma regularidade grande com esse instrumento, que as pessoas não querem aprender, ajudando a manter viva essa tradição”, elogia o instrumentista e cantor pernambucano Dominguinhos.


No âmbito familiar, também só há elogios para Arlindo, que três filhos. “Ele é um pai maravilhoso, amigo, não tem defeito”, diz a filha Érika Macêdo, 29 anos. Os outros dois, Adílson e Arlindo, 40 e 41 anos, respectivamente, também se tornaram músicos e tocam bateria e contrabaixo, respectivamente. A esposa Odete Macêdo, 64 anos, não esconde o jogo e aponta, sim, um defeito do marido, com o qual está casado há mais de 40 anos. “Ele era muito namorador, boa vida, mas a gente supera. Tudo que temos na vida foi por causa da luta dele”, falou.


E a luta de Arlindo dos 8 Baixos foi vencida no Recife. “Desde que eu vim para cá, tudo mudou na minha vida. Lá, onde eu nasci, cortava cana. Não era ninguém. Aqui todo mundo me respeita muito. Só tenho coisas boas para falar daqui. Só sinto falta de ver os circos, os mamulengos, os caboclinhos, as cores do carnaval. As pessoas têm que valorizar isso", finalizou.


Serviço
Forró do Arlindo
Avenida Hidelbrando de Vasconcelos, 2900, Dois Unidos.
Aos domingos, a partir das 17h
Preço: R$ 10 - policial, músico e imprensa entra de graça
Telefone: (81) 3443-9147.