Afinação Transportada

Afinação Transportada

texto de Léo Rugero

A afinação transportada nordestina é um patrimônio cultural brasileiro. Pouco se conhece a respeito de suas origens históricas. O fato é que este sistema de afinação dos acordeões diatônicos se difundiu na região Nordeste paralelamente à influência do fole de oito baixos nos bailes rurais nordestinos, na virada do Séc.XX
A área de maior expansão deste sistema de afinação foi o Sertão do Araripe (provavelmente o berço da afinação transportada), localizado entre Ceará e Pernambuco, expandindo-se posteriormente pelos estados vizinhos, sobretudo agreste paraibano e sul da Bahia, de onde provém parte significativa de instrumentistas consagrados desta prática musical.
Semelhante à afinação cromática irlandesa (Irish Style), a afinação transportada parte do mesmo conceito básico, onde a obtenção do cromatismo se deve à duas carreiras de botões separadas por intervalo de semitom.

A afinação transportada foi a principal base da construção melódica do estilo nordestino da sanfona. Em 1912, foi o primeiro instrumento adquirido por Luiz Gonzaga, sob influência de seu pai, o velho Januário, afamado tocador e artesão.
A partir da década de 1950, houve interesse fonográfico e radiofônico sobre esta tradição musical, propiciando o surgimento de solistas que se consagraram artisticamente, tornando-se referências estéticas da arte deste instrumento, a exemplo de Pedro Sertanejo, Severino Januário (irmão de Luiz Gonzaga),Zé Calixto, Adolfinho, Abdias, Geraldo Correia, Zé do X e Luizinho Calixto.
Enquanto em certas áreas do Nordeste houve a utilização ambivalente da afinação cromática nordestina e da afinação natural gaúcha, na Paraíba, entretanto, se consolidaria o predomínio absoluto da afinação transportada.
Através deste modelo de afinação se desenvolveu uma técnica aprimorada, fruto de uma tradição austera de interpretação musical de um repertório que abarcava não apenas a família de ritmos do forró como também o choro proveniente do Rio de Janeiro e gêneros musicais que se dissolveram em meados do séc.XX como o "sambinha".
Em 1961, o reconhecimento artístico de Zé Calixto com a gravação do choro "Escadaria"de Pedro Raimundo, consagraria esse estilo de um "forró chorado" ou "chorobodó", que exemplifica um aspecto identitário da sonoridade do fole de oito baixos nordestino. Seu irmão mais novo, Luizinho Calixto, se destacaria a partir dos anos 80 como outro intérprete magistral neste gênero



Um aspecto peculiar desta tradição musical é a oralidade. Não tendo o Nordeste desenvolvido uma industrialização de acordeões no Séc.XX, os próprios instrumentistas se tornaram artesãos, improvisando suas próprias ferramentas e compartilhando saberes, esmerando-se na fina arte de customização de instrumentos. Por isso, para adquirir um bom instrumento em afinação transportada é necessário ter contato direto com um mestre artesão desta tradição musical, a exemplo do já citado Zé Calixto, poderíamos enumerar outros raros peritos nesta arte.

O aprendizado desta arte também não foi algo transmitido em escolas, tendo sido a tradição oral e aural o meio pelo qual a afinação transportada foi conduzida através das décadas. Por isso, para conhecer com profundidade as nuances desta prática musical é necessário o contato com um mestre desta prática. Na década de 2000, houve a aproximação privilegiada de discípulos com mestres, propiciando o surgimento de novos instrumentistas.

Saiba mais: Para conhecer mais sobre a história do fole de oito baixos nordestino

Um comentário:

  1. sanfona 8 baixos transportada fica um som muito autentico pra forró

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