25 de jul de 2011

Cirano Dias, Um mestre da pé de bode




20//07/11 - CIRANO DIAS (Mestre da pé-de-bode)

por Marcos Damasceno



CIRANO DIAS

(Mestre da pé-de-bode)



(Cirano Dias)

Tenho falado muito e escrito bastante sobre Dom Inocêncio-PI, minha terra natal. 
Nem sempre sou bem compreendido, muitas vezes até injustiçado. 
Mas o fato é que sou persistente, enfrentando as vozes correntes que defendem 
a ignorância e o atraso. Max Lener, pensador, disse:
 “A voz dos livros pode ser ouvida por muitos anos.”

O fato de sermos conhecidos nacionalmente como “A TERRA DOS SANFONEIROS” 
já me deixa satisfeito. O livro “Júlio Dias: memória de um grande homem”, 
uma biografia do primeiro sanfoneiro da minha terra, precursor dessa tradição 
já com idade centenária, e todas as gerações dessa história, deu uma dignidade 
a esse legado.

Um sacrifício de grande valia, pois saímos da fase da tradição oral, ter a
 história somente na boca das pessoas, sofrendo por vezes algumas distorções 
através de investidas de algumas pessoas, com versões nojentas e até injustas 
que não condizem com a verdade dos fatos. Até então, nossa história era 
mal contada. Tenho orgulho dessa parcela de contribuição dada. 
Um dia a compreensão será geral na mente dos nossos conterrâneos, 
alguns ainda encaretados pela cortina do atraso e da ignorância.

Mais uma vez faço constar aqui singelas palavras sobre minha terra e minha gente. 
Desta vez venho ainda mais entusiasmado, pois será falado aqui sobre um homem 
que abriu portas, que deu uma das maiores contribuições para o forró regional.
Refiro-me ao CIRANO DIAS, filho do extraordinário Júlio Dias. Ele foi um mestre 
na sanfona de 8 baixos. Um dos maiores da história brasileira. Tocava até chorinhos.

Primeiro vou fazer uma visitação à história nacional do instrumento. Também à história internacional. Leonardo Rugero Peres (Leo Rugero), estudioso de música, no seu artigo “Asanfona de oito baixos na música instrumental brasileira”, apresenta a história do instrumento:

- No Sul do Brasil é conhecida como “gaita-ponto”, “gaita de duas conversas” 
ou “cordeona de oito baixos”. Já no Nordeste, atende por “fole de oito baixos”, 
“concertina”, ou “pé-de-bode”. No Sudeste, sobretudo em Minas Gerais, 
é popularmente conhecida como “cabeça-de-égua”. Enfim, tantas denominações 
diferentes para um mesmo instrumento, o acordeom diatônico, que no Brasil é 
mais popularmente conhecido por sanfona.



- Na Europa, onde surgiu no século XIX, a sanfona de 8 baixos também atende 
por muitos nomes. Na Itália, é a “fisiarmônica diatônica”, popularmente conhecida 
como “Organetto”. No país Basco, “trikitixa”. Tanto na Inglaterra, como Irlanda 
e Escócia, é chamada de “melodeon”. Em Portugal, atende pelo nome de “concertina”. 
Mas entre tantos nomes que foi adquirindo com a sua inserção em vários países, 
a sanfona recebe seu nome de batismo: “Acordeom”. Em 1829, pelo construtor 
vienense Cyrill Demian.



- Este inventor teve a ideia de colocar uma gaita dentro de uma caixa, 
impulsionada por um fole, concretizando um longo estágio de aperfeiçoamento desta ideia. Mais tarde, em 1831, Isoard Mathieu, desenvolveria o instrumento. Seria o nascimento do “acordeom diatônico”, nome este pelo qual a sanfona ainda é conhecida em muitos países do mundo, como a França (accordeon diatonique), Alemanha (diatonische handharmonika) e Espanha (acordeon diatonico).



- A característica marcante da sanfona de 8 baixos é a bi-sonoridade: abrindo o fole, o botão corresponde a uma nota; fechando, à outra. Ou, como dizem os sulistas, a sanfona de oito baixos funciona pelo sistema chamado de “voz trocada” ou “gaita de duas conversas”. É isto que, basicamente, diferencia a sanfona em relação ao acordeom de teclado, onde cada tecla ou botão corresponde a uma única nota, independentemente do movimento do fole.



Leo Rugero relata também a chegada do instrumento ao Brasil:



- A sanfona desembarcou em terras brasileiras pelas mãos dos imigrantes europeus, sobretudo italianos e alemães, em meados do século XIX. Segundo o maestro Tasso Bangel em seu livro “O estilo gaúcho na música brasileira” foi em 1875 que a gaita-ponto (sanfona) de 8 baixos foi introduzida no Sul do Brasil pelos então recém-chegados colonos italianos. Segundo outras fontes, a sanfona teria desembarcado um pouco antes, junto com os imigrantes alemães, que chegaram ao Sul a partir de 1845.



- A sanfona de 8 baixos, desde que desembarcou no Brasil, passou por grandes transformações, adquirindo ao longo do tempo, características próprias de afinação e técnicas peculiares de interpretação. Desenvolve-se em um repertório tipicamente brasileiro, ganhando estilos e recursos novos, sobretudo na região Sul, que lhe acolheu; nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, por onde se espalhou, e no Nordeste, onde adquiriu características peculiares de afinação e interpretação.

Ainda uma citação do mestre Oswaldinho do Acordeon:

- A verdadeira sanfona é aquele instrumento menor, de oito baixos, onde abrindo o fole é uma nota e fechando é outra, ensinada de pai para filho, conhecido no interior do Nordeste como pé-de-bode ou concertina, e no Sul como gaita-ponto.



A referência nacional da tradição nordestina da sanfona é Seu Januário, pai de Luiz Gonzaga. A música que deu notoriedade e dignidade ao instrumento de 8 baixos foi “Respeita Januário” (de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), gravada em 1952. Inspiração na origem musical do forró, na pessoa do Seu Januário. Os irmãos do rei do Baião (Severino Januário, Zé Gonzaga e Chiquinha Gonzaga) são ilustres representantes da sanfona de 8 baixos.

Outros notáveis do instrumento:

- Gerson Filho;

- Zé Moreno;

- Mestre Aureliano (pai de Pedro Sertanejo);

- Pedro Sertanejo (pai de Oswaldinho);

- Manoel Mauricio;

Abdias;

- Geraldo Correia;

- Camarão;

- Zé Calixto;

- Luizinho (irmão de Zé Calixto);

- Zé Cupido;

- Antenogénes Silva;

- Tio Bilia;

- Hermeto Pascoal;

- Betinho;

- Baianinho dos Oito Baixos;

- Renato Borghetti;

- Dentre outros;



O pioneiro no instrumento na nossa região, em que se tem notícia, foi Júlio Dias. Do povoado Curral Novo, hoje sede de Dom Inocêncio-PI.





Citarei algumas lendas, antigos sanfoneiros do Distrito-Freguesia de São Raimundo Nonato:



- Manoel Bodeiro, do Distrito-Freguesia de São
Raimundo Nonato;



- Mané Vicente, da região de Canto do Buriti, atualmente do município de Canto do Buriti-PI. Foi quem ensinou
Pedro Macaquinho que ainda toca até hoje, sendo uma lenda naquela região;



- Aurino, do Distrito-Freguesia de São
Raimundo Nonato;



- Zé Laranjo, do Distrito-Freguesia de São
Raimundo Nonato;

Na tradição centenária da minha terra, quase a totalidade dos sanfoneiros tocaram e tocam o instrumento de 120 baixos. A arte de tocar a sanfona de 8 baixos sempre foi para poucos.Júlio Dias foi o pioneiro. Do tempo dele algumas referências:

- Paulo Velho, da família Oliveira;

- Major Tomazinho, fazendeiro e sanfoneiro;

- Luís do Paulo, filho de Paulo Velho, foi considerado um dos maiores tocadores de oito baixos do Piauí. Foi um astro;



- Pedro Ferreira, da localidade Moreira, pai dos sanfoneiros Joaõzinho e Adail;



- Mariano Querubine, da localidade Salgado;

- Catarino, da localidade Contador;

- Quido (Euclides), pai dos sanfoneiros Nilô, Beca, Iquido e Zome;

- Nilô, filha de Quido;

- Beca, filho de Quido;

- Iquido, filho de Quido;

- Zome (Tertulino), filho de Quido;

- Rafael, filho de Querubine;

- Cipriano, da localidade Boa Vista do Gabriel;

- Celerino, tocava 8 baixos e 120 baixos;

- Adão de Sousa, toca 8 baixos e 120 baixos;

- Renato do Lourenço, da localidade Barra do Anselmo;

- Clóvis Dias, toca 8 baixos e 120 baixos;

- Dentre outros;

O patriarca do forró regional, Júlio Dias, teve quatro filhos sanfoneiros: Vavá, Cirano, Rodolfo e Julinho. CIRANO DIAS se dedicou ao instrumento de 8 baixos, tornando-se uma lenda do forró brasileiro. Júlio Dias tem muitos netos, bisnetos e até trinetos sanfoneiros. É o caso de Jackson Dias, de 6 anos de idade. Ele é bisneto de Vavá Dias.



Adão de Sousa é da minha terra, mas mora no Estado de São Paulo. Um estudioso e mestre na sanfona de 8 baixos, e um dos maiores conhecedores da história do instrumento no nosso país. Sempre recorro a ele quando quero saber de alguma informação. Confira algumas palavras proferidas por ele, sobre CIRANO DIAS:

- Júlio Dias foi um mestre, de quem tenho eterna admiração. E no quesito forró ele é respeitado. A história do forró regional se confunde com a história dele.



- A sanfona de oito baixos é difícil de executar. Precisa habilidade. O ensino é oral, quase não existem métodos como para sanfona-piano. O sanfoneiro tem
de gostar do instrumento. Júlio Dias e seus filhos sempre foram vocacionados para a sanfona.



- Cirano Dias foi meu amigo. Tocava muito. Numa sanfona, em afinação natural, conseguia tirar chorinhos. Além dos forrós. Não sei como. Ele foi um dos maiores no segmento.





Mestre Adão de Sousa prossegue:



– Não se aprende tocar 8 baixos na escola de música. Não existe escola para ela. Existem sim mestres, que preservam a tradição. O ensino passa de pai para filho. Quem entende desse histórico instrumento musical sabe o quanto é difícil tocar nele. A sanfona de 8 baixos é mais difícil do que as outras. Muito diferente. Tem suas particularidades. Requer certas habilidades para manuseá-la.

- A sanfona de 8 baixos é histórica. Faz parte do princípio da história do forró brasileiro. E historicamente esteve ligada às tradições festivas e culturais. Especificamente na região Nordeste, nos últimos 120 anos ela fez parte da vida do nosso povo.

- Quando Velho Jacó, avô do vaqueiro Raimundo Jacó, bronqueou Luiz Gonzaga (“Luiz, respeita Januário!”), quis chamar atenção para a tradição da sanfona de 8 baixos. Para a importância de se respeitar a tradição.

Mestre Adão de Sousa lamenta:

– A situação atual me preocupa. A sanfona de 8 baixos perdeu muito seu destaque e sua importância nos concertos musicais. E nas apresentações de festivais de forró. Nas festas, nos eventos enfim. Isso é preocupante. Independente de existir a sanfona de 120 baixos, é importante revigorar a sanfona de 8 baixos e preservar sua história. São poucos os sanfoneiros de hoje que querem tocar esse instrumento. E o pior: os poucos que tocam são pessoas já idosas. Implica dizer, que o futuro da sanfona de 8 baixos é incerto.

- Falta valorização do instrumento. Valorizar sua história. E divulgar isso. Ele tem importância histórica e precisa sempre ser valorizado. Na região Sul do país é onde a tradição da sanfona de 8 baixos continua forte e com vigor.

Alguns estudiosos falam sobre o ensino da sanfona brasileira, dentre deles, Leo Rugero. Afirmam que o aprendizado é transmitido de pai para filho. A tradição também. E que na maioria dos casos, os sanfoneiros tocam “de ouvido”, isto é, sem nenhuma instrução teórica ou educação musical formal.

A História confirma isso. É o caso de CIRANO DIAS. Ele aprendeu com seu pai Júlio Dias, pioneiro na arte de tocar a sanfona, na região de São Raimundo Nonato-PI. Dessa forma, confirmando a tradição, passou para os filhos. Dois dos seus filhos seguiram a tradição: Vagner e Menezes (de saudosa memória).

Vagner deu continuidade à tradição da sanfona de 8 baixos. Até hoje tem o instrumento que era do seu pai, que para ele tem enorme valor sentimental. E histórico.





Menezes já é falecido. Foi um dos notáveis sanfoneiros da nossa região. Com o surgimento da sanfona de 120 baixos, adotou esse novo instrumento. Com ele fez história em festas e eventos culturais na nossa terra, e no Estado de São Paulo.



Conhecido pela sua significativa contribuição musical e cultural, CIRANO DIAS foi muito atuante como sanfoneiro, engajado em consolidar o forró regional. As lembranças de Júlio Dias, seu pai, o acompanharam em toda sua trajetória musical. Sua motivação, primeiro, foi em função disso.

CIRANO DIAS, por iniciativa própria, quis sempre fazer companhia ao seu pai, dando orgulho ao mestre Júlio Dias. Fala-se que era perfeccionista. A cada apresentação boa, comemorava e perguntava: “Está bom, pai?” Deu continuidade também ao “Sarau do Curral Novo” (povoado). Criado por Júlio Dias. Ensinou muita gente a tocar sanfona. De certa forma, ele se comunicava melhor com os jovens da sua idade. Tanto que, quando alguém procurava Júlio Dias para aprender tocar sanfona, ele de imediato recomendava CIRANO DIAS.

Seu irmão Vavá Dias, também sanfoneiro, contou-me:

- Cirano dormia com a sanfona. Tocava toda hora, todo dia. E tocou a vida toda. Foi ele um dos responsáveis pela abertura de olhares para a diversidade da música na nossa terra. Estudava repertórios, que ouvia no rádio. Aprendia e ensinava aos outros sanfoneiros. Onde quer que ele fosse, se apresentava com sua sanfona de 8 baixos.

Logo CIRANO DIAS veria os filhos, também sanfoneiros, Vagner e Menezes, embrenharem-se por movimentos culturais e musicais. Dois bons sanfoneiros. Vagner está metido no forró até hoje. É uma paixão. Menezes é de saudosa memória. Eles seguiram a tradição do pai e do avô. E passaram a herança para os descendentes.

Sua motivação também era social, ultrapassando a seara familiar. Além da referência do seu pai, irmãos, sobrinhos, filhos enfim, sua alegria partia das experiências sociais, ao ver pessoas se interessando pela música, pela sanfona, pelo forró.

Ele sempre se preocupou com o futuro dessa história e assumiu responsabilidades. Diga-se de passagem, enfrentou verdadeiros desafios. Quando nossa terra, “A TERRA DOS SANFONEIROS”, ainda galgava os primeiros passos da sua história centenária. Ele acreditou heroicamente no sucesso dessa história, e contribuiu significativamente para a tradição, já centenária.CIRANO DIAS sentiu o sabor amargo do grande desafio de consolidar uma longa caminhada do forró.

Se seu mérito de sanfoneiro é notável, o de cidadão não é diferente. Na prática, ensinou-nos que o maior nível de engajamento para o ser humano deve ser a cidadania. Foi um militante das causas populares. Muito do seu trabalho está ligado ao aperfeiçoamento do forró, sem sofisticação. Pela sua influência de sanfoneiro deixou uma herança musical enorme, uma safra de extraordinários sanfoneiros. Estou muito contente de ver hoje seu nome ser lembrado.

Sanfoneiro. Ele já nasceu assim. Nasceu num período em que o forró estava aflorando. CIRANO DIAS viu o surgimento do forró. Sua infância em contato com seu pai Júlio Dias lhe deu grande aprendizagem musical.

Foi um sanfoneiro obstinado, enfrentando as barreiras do atraso regional. Por suas convicções, por crer em ideais, ele se destacou. Como mestre cultural provou que Cultura é simplesmente a manifestação da experiência das pessoas. A tradição, a história e a visão de um povo.

CIRANO DIAS é um personagem muito importante da nossa história. Se olharmos para nossa tradição centenária, veremos quão grande ele foi. Extraordinário. Entretanto, há a necessidade de uma condução dessa história. Cabe a nós a responsabilidade de preservar a memória dessa história, e buscar sempre sua propagação.

Ficamos tão orgulhosos desse combatente conterrâneo. Ele fez muita coisa acontecer na nossa terra. Ficamos orgulhosos pelo fato de CIRANO DIAS ser da “TERRA DOS SANFONEIROS”. Mestre de tantas experiências vividas, histórias para contar e heranças musicais.

CIRANO DIAS não morreu. Ele é imortal. Está por toda parte; está nas apresentações musicais e culturais; está nas salas de rebocos; está nos concertos musicais; está na nossa memória, no nosso dia a dia, nas nossas vidas; está, principalmente, está na nossa “veia”, por onde passa o “sangue” do forró.



Marcos Oliveira Damasceno

Escritor, doutorando em Filosofia Política

Dom Inocêncio-PI, 20 de junho de 2011

MSN: marcosdamasceno23@yahoo.com.br

Um comentário:

  1. Parabéns Marcos Damasceno pela valorização dos sanfoneiros de oito baixos da nosso sertão piauiense. Valeu...

    Jonas Moraes

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