10 de jul de 2011

Antônio da Mutuca e Pedro Manú



Em novembro de 2007, quando conheci o sanfoneiro paraibano Zé Calixto, ele me advertiu que “a desvantagem grande do músico hoje se dedicar à sanfoninha de oito baixos , é porque ela está em extinção. Praticamente eu não conheço nem cinco criaturas humanas aprendendo sanfona de oito baixos”. Porém, por volta desta mesma época, começou a se despertar o interesse pelo instrumento. O jornalista Anselmo Alves e a historiadora Lêda Dias foram responsáveis por algumas descobertas, entre as quais, o jovem Antônio da Mutuca, no Sertão Pernambucano. O surgimento da Orquestra Sanfônica de Oito Baixos, localizada no município de Santa Cruz do Capibaribe foi outra revelação, e, embora não trouxesse jovens instrumentistas, revelava uma determinada região onde a prática deste instrumento não havia sido vencida pelo tempo. As oficinas de sanfona de oito baixos ministradas por Luizinho Calixto, sem esquecermos o papel desempenhado por Arlindo dos Oito Baixos alguns anos antes, foram sementes lançadas no solo árido do agreste, que, em se tratando de sanfoneiros, é uma terra onde “tudo que se planta dá”...
Em 2009, a criação da Escola de Sanfona de Oito Baixos de Caruaru foi uma iniciativa importante do publicitário João Bento. A Escola, tendo como professor o sanfoneiro Heleno dos Oito Baixos, já revela alguns de seus frutos, como o jovem Ivison, e a implantação de um curso formal de um instrumento caracterizado pela transmissão oral se revela um desafio aos educadores. Algo não muito diferente do que ocorreu com o Choro no Rio de Janeiro, que já não é mais aprendido nas rodas e nos botequins e sim, em cursos de formação como a “Escola Portátil de Choro” abrigada pela UNI-RIO.
Enfim, o panorama atual da prática da sanfona de oito baixos não é mais aquele cenário desértico de 2007. O próprio Zé Calixto, em um de nosso encontros mais recentes, revelava seu otimismo em relação a sanfona de oito baixos, com o surgimento de jovens intérpretes e melhores perspectivas profissionais, decorrente do interesse do qual se cercava novamente o instrumento.
Dia 09 de junho de 2011, o destino de meu trajeto com a equipe do Globo Repórter foi o município de Salgueiro, no alto sertão pernambucano, mais precisamente no Sitio da Mutuca, para conhecermos Seu Pedro Manú e seu filho, Antônio da Mutuca.
O Sitio da Mutuca é localizado a cerca de dez minutos do centro de Salgueiro. Entre a cidade e o sitio, a estrada é de terra. Dos dois lados, o cenário sertanejo abriga cactus, mandacarus, e toda a variedade da vegetação da catinga. Mesmo em pleno inverno, o clima era quente e o céu de um azul celeste e límpido. Pela estrada, é notável a quantidade de motocicletas que substituem gradualmente o lombo dos jumentos e os carros de bois tanto na locomoção como no trabalho.
Enfim, chegamos por volta de meio-dia e pleno sol a pino. O sitio da Mutuca guarda uma paisagem que é cinematográfica, e, de tão real, torna-se irreal, na medida em que não acreditamos que ainda existam recantos como este. A cerca de madeira, e o pequeno caminho entre a cerca e a o centro do terreno, onde, de um lado temos uma casa de taipa fechada, e à esquerda, a casa mais moderna, de cor azulada, onde mora a família Mutuca. 





Há uma velocidade no mundo televisivo que atropela um pouco a naturalidade de uma aproximação normal. Deste modo, o contato inicial com os dois sanfoneiros foi rápido, pois havia muito a ser gravado naquela tarde. De repente, a varanda da casa tornou-se um “set” de filmagens. A pedido do jornalista José Raimundo, peguei minha sanfona que estava guardada no carro. O mesmo fizeram Seu Pedro e Antônio, pai e filho, duas gerações da sanfona de oito baixos.
Seu Pedro Manú tem uma velha sanfona Höhner que lhe acompanha desde sua mocidade. Ainda que sofrido, é um instrumento que guarda aquela história que só os instrumentos antigos possuem. Ali está a própria trajetória de Seu Manuel, com suas mãos calosas da labuta diária no roçado, e das madrugadas claras na varanda onde se ecoa a música de sua sanfona a música que nasceu ali, o baião que vem “debaixo do barro do chão”. Como ele explica, “ Eu só pegava de noite, quando eu chegava em casa. Trabalhava na roça, por aí, ganhando um troquinho para ajudar meu pai. Quando era de madrugadinha, antes de eu ir para o serviço, eu pegava ela e ficava ali pelejando(...)até que desenvolvi um pouco”.
Já o filho Antônio, segundo as palavras do pai, “teve mais oportunidade”. Desde menino, observando atentamente a performance de seu pai, foi descobrindo os intrincados caminhos do fole de oito baixos. Aos poucos, começou a desenvolver-se no instrumento, ao contrario da maior parte dos sanfoneiros de sua idade – Pedro está com 25 anos, que optaram pelo acordeom de 120 baixos. Em 2009, foi descoberto pelo jornalista Anselmo Alves, que presenteou-lhe com um instrumento em melhor estado: uma sanfona Hering Beija-Flor. No mesmo ano, teve contato com Luizinho Calixto, com quem aprendeu algumas técnicas e absorveu a influência do repertório deste sanfoneiro. Atualmente, segundo me disse, Pedro dedica –se quatro horas diárias a prática da sanfona de oito baixos. Sua destreza e habilidade evidenciam isso...
Tivemos a oportunidade de tocarmos juntos, eu e Mutuca. Como praticamos repertórios diferentes, achamos um denominador comum na música “Chorão” de Luiz Gonzaga. Ainda assim, nossas leituras da melodia desta música eram um pouco distintas, mas foi possível encontrar um caminho a ser traçado. Mutuca possui uma técnica invejável e também é dono de uma bela voz. Consegue realizar acompanhamentos no oito baixos, que é um instrumento difícil para esta finalidade, além dos solos instrumentais, que caracterizam a prática deste instrumento. Enfim, é esplêndido conhecer um jovem instrumentista, empunhando corajosamente um instrumento do qual, apesar de sua importância na cultura nordestina, seus representantes ainda lutam pela legitimação desta herança musical.

 Leo Rugero, Petrópolis, 09 de julho de 2011

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