25 de jun de 2011

Trecho de Matéria do Globo Reporter sobre o São João


Edição do dia 24/06/2011
24/06/2011 23h00 - Atualizado em 24/06/2011 23h57
Herdeiros de Gonzagão mantém tradição do forró no Recôncavo Baiano

Fartura na roça e muita música: regada a milho, a festa junina no Recôncavo Baiano é reduto de herdeiros musicais de Luiz Gonzaga e o pífano vira parceiro da sanfona.

Jose RaimundoCruz das Almas, BA
 O caminho da roça já é uma festa. As cantigas elas aprenderam quando ainda eram meninas. A agricultora Antônia de Araújo e as amigas moram em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano.
Já a agricultora Maria Emília dos Santos mora em Laranjeiras, interior de Sergipe. O milharal que ela tem é pequeno, apenas três hectares, mas a alegria é enorme. “Sei que estou na grandeza. A grandeza de uma roça é boa demais", conta dona Maria.
E como é bom. Na Bahia, dona Antonia diz que rezou muito, fez promessa para o milharal crescer e produzir.
Fartura na roça, nessa época de São João, depende muito de São José. Se não chover no dia dedicado a ele, 19 de março, a colheita atrasa. Pode até não ter colheita. E, sem o milho, a festa junina não é a mesma coisa. Felizmente não foi o que aconteceu esse ano.
Choveu bem e no tempo certo. A colheita é das melhores: espigas bonitas, bem formadas, grãos graúdos. Dona Antonia conta que o milho é colhido para a feira livre e é vendido em Cruz das Almas. “E se for um milho desses, de primeira qualidade, melhor ainda".
Dona Maria mal consegue esperar. Não vê a hora de assar milho na fogueira e botar a canjica no fogo. “Ah, esse está ótimo”. A agricultora é viúva de três casamentos. Tem 76 anos, mas não parece.

De tão divertida, dona Maria é a própria festa de São João. E a dona Antonia? Será que ela guardou um pouquinho do milho que colheu?
O melhor lugar da casa, no Nordeste, no mês de junho, é a cozinha. E a cozinha de dona Antonia é uma maravilha. Fogão à lenha, milho cozido, amendoim cozido, mingau de milho verde. É o milho que vem da roça direto para a panela.
E nem precisa esperar pela noite de São João. Na casa de dona Antonia, mês de junho tem comida de milho todo dia. É uma farra gastronômica.

Lá vem dona Maria com a canjica. E, pelo cheiro, já deu para sentir. “A festa junina não é uma festa de excluir homens e mulheres. Nem o pobre nem o rico. Na casa que a gente chega para brincar, comes e bebes é para todo mundo", diz dona Maria.
E se levar a conversa para o lado das antigas músicas juninas, aí é que ela gosta. “Milho verde pendoou... Quero mostrar para essa gente o quanto vale o São João".
Esse repertório tão autêntico, que dona Maria não tira da cabeça, nasceu no Sertão do Nordeste.
E nordestinos como o tocador de pífano Lourival Neves e o seu José Raimundo podem se gabar de serem também os pais do forró. Estamos na fazenda Araripe, no berço de Luiz Gonzaga. Até hoje a fazenda é reduto do forró de raiz. É onde o pífano também vira parceiro da sanfona.
São muitos os herdeiros musicais de Luiz Gonzaga. Mas o único que é sanfoneiro e que carrega o sangue do rei do baião é o sanfoneiro Joquinha Gonzaga, sobrinho de Luiz Gonzaga. “Foi meu tio. Ele que me ensinou, me incentivou. Se não fosse ele, hoje eu não era sanfoneiro", revela.
O parentesco e a semelhança física ajudam muito, diz Joquinha. Mas, às vezes, atrapalham também. “Quem vai tocar aí? É o sobrinho de Luiz Gonzaga, Joquinha Gonzaga. Eita! Vou matar a saudade. Aí fica aquela ruma de gente na frente do palco esperando. Aí quando entro no palco, que dou uma puxada, que solto meu gogó, aí não é igual a Luiz Gonzaga, aí me lasco de novo", conta aos risos.
Exu, Pernambuco. Essa cidade guarda um importante patrimônio musical. É o que o pesquisador Leonardo Rugero, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), veio conhecer.
Há 12 anos, o professor se dedica ao estudo sobre a história da sanfona no Brasil. O museu do parque Asa Branca guarda fotos e instrumentos como a velha sanfona que Gonzaga tanto gostava.
A equipe do Globo Repórter entrou na casa do pai de Luiz Gonzaga, o seu Januário. Foi lá que ele morou até o fim da vida. É uma casa simples, mas guarda uma peça muito importante da história da música popular brasileira: uma das primeiras sanfonas do Brasil. E o mais impressionante: uma sanfona montada pelo próprio Januário.
“Isso é realmente um achado. Provavelmente ele deve ter observado cópias, juntado partes de instrumentos e construir uma linguagem única que é a sanfona de oito baixos nordestina", conta Leonardo Rugero.
Sanfona de oito baixos. Um dos símbolos do São João da roça. Até músicos experientes reconhecem que é um instrumento difícil de tocar: afinação exclusiva, teclado em forma de botão.
Mas seu Manoel, que é lavrador no município de Salgueiro, aprendeu sem ninguém ensinar, sozinho, só de ouvido. "Eu só pegava de noite, quando eu chegava em casa. Trabalhava na roça, por aí, ganhando um troquinho para ajudar meu pai. Quando era antes de eu ir para o serviço, de madrugadinha, eu pegava ela e ficava ali pelejando, ouvia o rádio, né? Até que desenvolvi um pouco", relata o lavrador Pedro Manoel da Silva.
Desenvolveu e ensinou ao filho Antonio Pedro da Silva, conhecido como ‘Antonio da Mutuca’. “Eu quebrei muito a cabeça para poder aprender a primeira música. Então, fui tomando gosto com os baixos e, hoje em dia, eu estou tocando já, fazendo festa”, fala o sanfoneiro.
E toca tão bem que o pai fica orgulhoso. E o pesquisador, admirado com o jovem sanfoneiro desconhecido.

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