24 de jun de 2011

Hermeto Pascoal 75 anos - Carta aberta a Hermeto Pascoal

Hermeto Pascoal, parabéns pelos seus setenta e cinco anos! Parabéns por sua inestimável contribuição à música brasileira. São setenta e cinco anos de música. Sim, pois já chegaste músico a este planeta, tu que és, utilizando as palavras de Theo de Barros, "o mais musical dos seres". E foi essa musicalidade esplêndida que desembarcou no Brasil, vindo, quem sabe, do Planeta Vênus, pois existem místicos que acreditam que tenha sido  deste planeta que veio a arte dos sons para a Terra...mas isso não importa. O que importa é que chegaste á Lagoa do Canoa, em Arapiraca, Alagoas. Para aprender a música das bandas de pífano, dos violeiros, da sanfona de oito baixos, das ladainhas das rezas de defunto, dos reisados. Para revelar a música dos ferrinhos de seu avô que era ferreiro e de outros instrumentos não-convencionais que descobriste ainda em seus primeiros anos na terra: o cano de mamona, o talo de abóbora e as folhinhas. Para conhecer os bichos, tal como a Capivara, os sons dos sapos, dos pássaros e dos grilos. Os patos e os gansos que lembram saxofones, clarinetes e clarones. O canto do galo Aruã e olha que "tem porco na festa". Trouxe o ensinamento do "som da aura", pois, quando ainda menino, percebia música no jeito de falar das pessoas.
Muita gente, até hoje, acredita que não existe música em tudo, e esta é outra lição que trouxeste contigo, a de que "tudo é som"! Até mesmo o som dos astros e das estrelas, e o coração da terra pulsando continuamente. Até as panelas de Dona Ilza viravam música e viravam do avesso.Aliás, como dizia Itamar Assumpção, "viver é virar o avesso".
Aportaste numa familia musical, com os oito baixos do papai Pascoal, o irmão Zé Neto, também sanfoneiro arretado, mamãe Divina, enfim, uma família sonora que já trazia parte do repertório que te consagraria, tal como "O Gaio da Roseira": "O Gaio da Roseira, o gaio da roseira, o gaio da roseira, bela menina, o gaio da roseira". O menino foi crescendo, com sua oito baixos e seu pandeiro, com o irmão Zé Neto, tocando nas festas de pé-de-pau. Eram "Os meninos de Seu Pascoal".
Depois, a vida levou-lhe para outros cantos, viramundo que és, foste para Recife, onde encontrou seu irmão de som, o também albino Sivuca. Lá tornou-se acordeonista destacado, e o ambiente da rádio proporcionou-lhe o contato com amplo repertório de choros, frevos, sambas-canções, e tudo aquilo que caísse em suas mãos.
Depois veio o Rio de Janeiro, na época uma cidade efervescente, os festivais de tevê, e o Quarteto Novo, um marco na música brasileira: Hermeto, Heraldo do Monte, Theo de Barros e Airto Moreira, que colocaram a música instrumental de pernas para o ar, numa mistura inusitada de música nordestina e samba-jazz.Você já havia descoberto ( e reinventado) o piano e a flauta que ensaiavas na igreja. A cúpula era um grande delay.
Daí para o mundo foi um pulo, e, através de Flora Purim, veio o primeiro álbum gravado nos Estados Unidos. Lá, despertou o interesse de músicos como o trompetista Miles Davies, que chamava-o carinhosamente de "albino louco".
A esta altura se consolidava o "bruxo dos sons", como certa vez escreveu a jornalista Ana Maria Baiana, utilizando esta expressão para denominar a alquimia sonora de Hermeto.
Poucos músicos atravessaram tantas fronteiras sonoras com uma proposta multi-cultural, que você batizou como "música universal".
Jamais me esqueceria de um certo dia de 1987, quando eu contava dezesseis anos, e fui, com uma turma de amigos, assisti-lo no Circo Voador. Era festa de aniversário do "bruxo". Ficamos estarrecidos com tudo aquilo e resolvemos ir ao camarim para saudá-lo. Ao chegar lá, recebi de alguám um buquê de flores - até hoje não entendi o porquê disso. A pessoa que me deu o buquê disse assim: - Leve isso ao Hermeto! Segui adiante, eu e o buquê, e quando me deparei com você,  soltei, timidamente, um sussurro: - Hermeto, estas flores são para você! Em troca, recebi um abraço afetuoso e o mapa para chegar ao Jabour, naquele centro da música planetária que foi durante os anos 80 e 90 tornaram o Jabour o coração da música no Rio de Janeiro.
Hermeto, obrigado por tudo que você tem ensinado e generosamente ofertado ao mundo. Termino esta carta, utilizando uma saudação com a qual você assina muitas de suas partituras: - Tudo de bom sempre!


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