29 de jul. de 2009

A bordo do navio


Sem dúvida, na região sul, é onde temos a melhor documentação sobre a trajetória da sanfona de 8 baixos no Brasil. Na foto acima, extraída do sitehttp://www.projetoimigrantes.com.br/int.php?dest=fotos&pagina=2, podemos conferir a hipótese que parece cada vez mais acertada, sobre a relação intínseca entre a migração italiana e a história do acordeom em nosso país.

Há três músicos presentes nesta imagem: um homem tocando um instrumento não identificado, uma mulher tocando um tamburello basco e outra, tocando um organetto (sanfona). Pela fotografia, não podemos precisar detalhes sobre o instrumento (número de baixos de mão esquerda ou carreiras de mão direita). A data da fotografia remonta ao ano de 1880, o que nos leva a crer que estes músicos estão entre as primeiras levas de imigrantes. De fato, no Rio Grande do Sul, se concentraram não apenas praticantes do instrumento, bem como artesãos, através dos quais se originou uma prática e construção de grande expressividade.
Restam as perguntas: - quem serão estes músicos, de que região da Itália provinham e que músicas eles tocavam?

23 de jul. de 2009

Orquestra Sanfonica no Globo Comunidade


A Orquestra sanfônica de 8 baixos, organizado por sanfoneiros do municipio de Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste de Pernambuco, é um dos principais indícios do refortalecimento da prática do fole de 8 baixos na região nordeste.
Agradecimentos à excelente postagem de Gilgeraldo.

14 de jul. de 2009

além - fronteiras

Durante a etapa inicial de minha pesquisa sobre a sanfona de 8 baixos e suas expressões no Brasil, minha primeira constatação foi a incomunicabilidade entre as três fronteiras geográficas que havia delimitado, isto é, as regiões sul, nordeste e sudeste/centro-oeste.
Estas não são apenas regiões geográficas, mas sobretudo, territórios imaginários carregadas de sentido identitário. Os movimentos migratórios nordeste-sudeste constituem um exemplo vivo deste processo.
Notei também, certo "etnocentrismo", que se torna em impecílio para que uns vejam aos outros, e do mesmo modo, uns vejam-se nos outros. "Trata-se de um jogo sutil de toma-lá-dá-cá, uma supervalorização de sua cultura, dentro de uma aparente anomia"(1992:33). Entre os sanfoneiros de cada região, tenho observado uma generalizada falta de interesse na música produzida pelo "outro", entendendo aqui o outro, como aquele que é oriundo de outra região.Em alguns casos, este desinteresse conduz à depreciaçao da arte alheia, não só por ser a arte do "outro", como por estar-se alheio à ela. Claro que falo em termos gerais, deixando escapar honrosas exceções.
Se, por um aspecto, este isolacionismo permitiu a construção de músicas com fronteiras tão nitidas quanto são as fronteiras geográficas, por outro lado, observo, em muitos momentos, uma tendência epigonal, (como a cobra que morde o próprio rabo), não permitindo o diálogo potencializado pela revolução digital e a fluidez que poderia se estabelecer no descentramento inter-regional, possibilitando novos lugares, não mais delimitados por uma identidade, mas por várias identidades.
Talvez esta reflexão seja possível (ou impossível) mediante o lugar em que ocupo neste diálogo. Um lugar do "sujeito pós-moderno", "não tendo uma idetidade fixa, essencial ou permanente"(2006:12), ocupando este lugar "itinerante"onde a identidade torna-se uma força móvel, menos biológica e mais histórica. Como estudioso da sanfona e sanfoneiro, minha natividade é itinerante: não sou gaúcho da fronteira, nem nordestino, quanto menos mineiro. Transito entre estas identidades que travam lutas acirradas entre si.
Meu olhar ( e minha escuta) transitam entre fronteiras, e como tal, proponho uma trégua, um entreouvir-se, como nova possibilidade estética. E retomo a pergunta formulada há quas três décadas atrás pelo compositor Tom Zé: - Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?

Referências:

Hall, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP & A Editora, 2006.
Settl, Klza. Questões reltivas à autoctonia nas culturas musicais indígenas da atualidade, consideradas no exemplo Mbyá-guarani. Revista Brasileira de música. Rio de Jneiro, 20:33-41, 1992-93.

ABORDAGEM PRÁTICA NA GAITA PONTO


Daltro Vieira da Rosa, musico catarinense, leciona há cerca de dez anos a arte da gaita-ponto de 8 baixos. Lembrando que "gaita" é a denominação sulista para o instrumento que nas regiões sudeste, cantro-oeste e nordeste, é mais conhecida como sanfona.
Nesta pequena lição introdutória, Daltro ensina a escala de dó maior na afinação diatônica brasileira (afinação natural).

7 de jul. de 2009

Hermeto Pascoal toca no Showlivre.com/2004


A música interpretada por Hermeto Pascoal e Aline Morena neste vídeo, é "Garrote". Hermeto, teve a sanfona de 8 baixos como primeiro instrumento, embora ao longo de sua carreira tenha a utilizado raramente. A partir de "Festa dos Deuses"(Selo Radio MEC, 1999), é que Hermeto retoma a "pé-de-bode", que está entre as suas mais profundas raízes musicais.
A afinação utilizada por Hermeto, é a "natural", afinação diatônica típica do Rio Grande do Sul.É uma adaptação da afinação diatônica italiana. Em Alagoas, onde nasce Hermeto, é uma afinação muito difundida, a julgar por outros sanfoneiros alagoanos como Gerson Filho, Edgar dos 8 baixos e Robertinho dos 8 baixos.
No caso de Hermeto, é interessante notar o uso que faz do instrumento. Ainda que se apoie na técnica tradicional, Hermeto consegue, como sempre parece conseguir, sair pela tangente, encontrar uma brecha para algum lugar desconhecido, ou melhor, pouco conhecido. Aqui, parece que este "lugar" é o compasso de sete tempos, incomum na cultura musical brasileira de modo geral.

13 de jun. de 2009

Encontro de sanfoneiros de 8 baixos

1º Encontro de Sanfoneiro de Sanfona de 8 Baixos Os sanfoneiros Zé Calixto, Luizinho calixto, Rato Branco e Landinho Pé de Bode apresentam o melhor do forró pra não deixar ninguém parado. >> 20h, Gratuito, Largo Pedro Archanjo

Hoje ocorre mais um evento que marca a revalorização da sanfona de 8 baixos.Malogrado duas décadas em que o instrumento chegou ao limite de ser colocado como em vias de extinção, ressurge gradualmente o interesse na prática da sanfona de 8 baixos. Assim, criam-se novas possibilidades para os profissionais da sanfona na área de educação musical, transmitindo seus saberes, bem como, na área da prática, onde surgem novos espaços e projetos de formação de uma nova platéia e reintegração de uma platéia antiga, mas que andava carente de apresentações de sanfoneiros.
Este Encontro de sanfoneiros de 8 baixos, promovido pelo IPAC - Instituto de Patrimônio artistico e cultural da Bahia, é de suma importância, estando inserido neste contexto da revalorização. Estarão presentes, Zé Calixto e Luizinho Calixto, dois grandes mestres do fole de 8 baixos, oriundos de Lagoa Seca, Paraiba. Zé é um dos últimos remanescentes da "geração de ouro" dos 8 baixos, e soma 50 anos recém-completos de carreira profissional. Luzinho, seu irmão, inicialmente discipulo de Zé Calixto, tomou um rumo proprio, incorporando novas influ^encias como a Bossa-Nova.
Atrações inusitadas são Landinho pé-de-bode, que reside na histórica Canudos, e Rato Branco, um virtuose que andava sumido dos grandes palcos.
Parabéns à prefeitura da Bahia pelo valoroso acontecimento!

6 de jun. de 2009

Geraldo Correia

Geraldo Correa é um destacado sanfoneiro pernambucano. Iniciou sua carreira fonográfica no Rio de Janeiro, por intermédio de Jackson do Pandeiro, em 1964, pela gravadora Philips, que na ocasião investia em valores da sanfona como Zé Calixto. No entanto, sua carreira principia bem antes, nas feiras e cabarés de sua terra natal, Campina Grande. O depoimento acima é de grande importância, pois atualmente este músico octogenário vive distante dos palcos, sendo um dos ultimos remanescentes da "geração de ouro" dos 8 baixos.

23 de mai. de 2009

OS SANFONEIROS DE URUAÇU


Em meu primeiro ensaio dedicado à sanfona de 8 baixos, dado a escassez de artigos até então escritos sobre este instrumento, optei pelo perigoso formato 'macrocósmico', onde abarquei as regiões sul, (como ponto de origem e eclosão primeira da sanfona no Brasil), o sudeste, e o nordeste, onde o instrumento sempre me pareceu ter origem proporcionada mais por viajantes ingleses do que colonos italianos e alemães, embora esta teoria ainda não se sustente por provas.

Quanto à região centro-oeste, sempre foi para mim, uma região distante geograficamente e culturalmente, e preferi, na ausência de dados concretos, não avançar neste territorio, o que aliás, penso eu, foi uma solução acertada, pois quanto maior o ângulo, menor relevo na mira do alvo, nas miudezas, nas singelezas...
Como sempre afirmo, sou fã confesso do youtube, e numa navegação fortuita pela rede, me deparei casualmente com uma dança de Goiás, chamada 'ismite'(possivel corruptela de 'Smith', no me de uma marca de revólver(!). Nesta dança, a sanfona de 8 baixos tem papel de grande relevo como mostra este video, postado por wander cleyson, na performance de sanfoneiro e pandeirista não identificados, em Uruaçu, no Estado de Goiás.

19 de mai. de 2009

Zé Calixto na TV Cultura


O poeta da sanfona Zé Calixto é o convidado do Ensaio desta quarta-feira
Sanfoneiro completa 50 anos de carreira, relembra histórias com Luiz Gonzaga e transforma o programa num autêntico arrasta-pé nordestino
Conhecido como o ‘Rei dos Oito Baixos’ - tipo de sanfona que se difere por ter apenas botões -, o instrumentista, sanfoneiro e compositor Zé Calixto é o convidado de Fernando Faro no Ensaio desta quarta-feira (20/5), às 22h10, na TV Cultura.Nascido em Campina Grande, na Paraíba, Calixto completa 50 anos de carreira neste ano e conta toda a sua trajetória artística no programa, desde quando saiu da Paraíba deixando seu casamento recente, para fazer uma gravação no Rio e Janeiro. Calixto explica que deixou sua mulher e depois de três meses voltou para buscá-la, mudando-se definitivamente para a cidade maravilhosa, em 1959. Naquele ano, o sanfoneiro gravou seu primeiro disco pela Philips.Acompanhado dos músicos Valter (7 cordas), Chris Mourão (pandeiro), Durval Pereira (Zabumba) e Zezito Pereira (triângulo), Zé Calixto transforma o Ensaio num verdadeiro “arrasta pé nordestino” com as canções Forró do Mengo, Tô aqui pra isso, Eu quero é sossego, Forró em Camaratuba, Pé-de-serra, Homenagem a Velha Guarda, Meu Pai Toca isso, Cuco/Delicado, Tudo Azul e Escadaria. Calixto lembra ainda das parcerias com grandes músicos e amigos como Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga.

Sobre dois recentes filmes


Recentemente, estrearam dois filmes, tendo a sanfona e sanfoneiros como foco principal. Não vi os dois filmes, portanto não falarei sobre eles, mas sim, sobre o modo como eles estão sendo trabalhados quanto as formas de divulgação.
Tanto em "Paraiba meu amor" do diretor franco-suiço Bernand Robert-Charrue, como em "O Milagre de Santa Luzia"do brasileiro Sergio Roizemblit, o fio condutor é semelhante. Um destacável insider que conduz as câmeras dos diretores através das paisagens, revelando ao público alguns tesouros. Em "Paraiba, meu amor", o insider é Chico Cesar, compositor paraibano. Em "O milagre de Santa Luzia", é Dominguinhos. Se o primeiro filme trata do forró tradicional, e de atores sociais representantes desta modalidade, no segundo o foco é mais amplo: simplesmente, o acordeom no Brasil (!).
Antes que eu veja os filmes, e verei o quanto antes, e desejo que todos vejam, o que eu quero sublinhar são alguns "cacoetes" do mercado, que desprezam solenemente a pesquisa musical, em prol de generalizações, e amplos paineis que tentam dar conta de uma diversidade talvez impalpável.
Em "Paraíba, meu amor", o cartaz promocional do filme exibe a seguinte frase: "Um filme sobre o forró, a musica do nordeste brasileiro". Destaco o artigo "a", por definir o sujeito em torno de uma modalidade. Assim, a vasta experiência sonora nordestina, que compreende fenômenos como a banda cabaçal, a cantoria, as excelências, os maracatus e porque não a mangue beat e a musica armorial, fica circunscrita a uma faixa estreita, tida como "a" legitima representação, e não "uma" legitima representação. Este modelo de generalização , é mais comum que imaginamos, e deu-se ainda na primeira metade do século XX em torno do samba, eleito como a"musica nacional", por excelência. O mais dramático no filme de Robert-Carrue, é o fato de ser dirigido ao mercado europeu, onde o "canibalismo cultural"(utilizando a expressão do antropólogo José Jorge de Carvalho), tende a remodelar a imagem de uma música "étnica" quando esta ingressa no mercado multinacional da "world music".
Em "O milagre de Santa Luzia", o amplo painel do acordeom no Brasil, objetiva um campo extremamente "macrocósmico", onde muitas omissões podem ser cometidas, mesmo entre os nomes mais relevantes. Assim, a sanfona de 8 baixos nordestina representada por Arlindo dos 8 baixos, mas aonde estão Luizinho Calixto, Heleno dos 8 baixos, Geraldo Corrêa ou Zé Calixto?
O perigo da generalização é tentar confinar em 100 minutos, uma história ampla. Fechar o foco, buscar o "microcosmico" no campo de pesquisa, delimitar o campo ao minimo necessário pode ser algo tácito, e estimulante. Pois normalmente, as historias das artes em geral, ainda são contadas por nomes de autores e suas obras.
Para concluir este comentário, deixo com a palavra o etnomusicologo Bruno Nettl, sobre as dificuldades do campo de pesquisa macrocósmico: "Devido a necessidade de uma organização engenhosa e um controle de infinidade de dados, poucos investigadores tem tratado com algum êxito de realizar a aproximação compreensiva 'macro'".

Referências:

Nettl, Bruno. Reflexiones sobre el siglo XX. Revista Transcultural de música n.7, 2003.

13 de mai. de 2009

joão torquato


João Torquato (sanfona de oito baixos) e pandeirista não identificado. Roda de Calango, bairro Alto Taquara, Petropolis, Rio de Janeiro.

O calango e a sanfona de 8 baixos em Petrópolis



O calango e a sanfona de 8 baixos em Petropolis

Escrito por Léo Rugero em 2009

Hoje, 13 de maio, dia "oficial" da Abolição da escravatura, já não é mais o dia de comemorações de afro-descendentes, tendo sido escolhido, por razões óbvias,  o dia de Zumbi dos Palmares, legitimado historicamente como líder de movimentos emancipatorios (quilombos).

No entanto, para mim, o dia 13 de maio será sempre uma data importante, que marca o falecimento de um mestre e amigo,  João Torquato, que realizou sua passagem no ano de 2006. Portanto, é sempre um dia  que me traz a doce  lembrança deste saudoso amigo e sanfoneiro.
Meu primeiro encontro com João foi também o meu primeiro contato com a sanfona de 8 baixos, instrumento que, até então, eu desconhecia.Corria o ano de 1999, quando, por intermédio de João, pude assistir, no Bairro Alto Taquara, em Petropolis, a uma roda de calango. A partir desta noite, outros encontros musicais surgiriam, e acima disso, uma sólida amizade, que se refletiria em visitas semanais, devido a proximidade de nossa vizinhança.


João Torquato nasceu no Sitio Taquara em 20 de Outubro de 1947. Oriundo de uma familia de migrantes mineiros, herdou os saberes musicais de seu pai. Ainda menino, ganha de presente uma sanfona Hohner, instrumento que lhe acompanhou por toda a vida. Casando-se, foi pai de quatro filhos, três mulheres e um homem. Trabalhou em todo o tipo de oficios, desde caseiro à motorista. Segundo contava, nos anos 70 teve certa atividade profissional como músico, tocando em bailes.
A formação musical de João passava, indubitavelmente, por tradições musicais ligadas aos descendentes de escravos do Estado de Minas Gerais. Em consequência da maçiça migração de mineiros ao município de Petropolis, no Estado do Rio de Janeiro, para o trabalho braçal em residências de veraneio de familias abastadas. O bairro Taquara é um dos lugares onde houve, no passado, um dos maiores fluxos neste sentido. Práticas musicais tradicionais foram mantidas até meados dos anos 90, quando, por uma convergência de causas socioeconômicas conduziriam estas práticas musicais à extinção. Os bailes de calango seriam substituidos, com o advento da luz elétrica em locais até então isolados, como o bairro Alto Taquara, por musica reproduzida mecanicamente, ou pela televisão. Novas influências musicais decorrentes da musica massiva, também remodelam o gosto musical, sobretudo entre os jovens, seduzidos por novas influências midiáticas da musica afro-brasileira como o pagode e o funk. Também por volta desta época, as igrejas evangélicas, com certa profilaxia, inibem através da ação pastoral algumas práticas musicais tradicionais, frequentemente associadas ao paganismo, entre as quais, o calango, a umbanda e a folia de reis. No entanto, entre as práticas musicais que transcorrem atualmente no interior de templos evangelicos no Bairro Alto Taquara, pudemos observar um hibridismo entre o hinário evangélico tradicional, e ritmos do calango, umbanda e da folia de reis, demonstrando de alguma forma, uma linha de continuidade, seja na maneira de cantar, no uso de palmeado, e também em alguns instrumentos de percussão. Conforme observa Bruno Nettl, em processos onde há "mudança musical", "devemos procurar os elementos que mantém a unidade ao longo do tempo". Ainda que muitos jovens do Alto Taquara provavelmente não conheçam ou mesmo nunca tenham ouvido falar a respeito do calango ou da folia de reis, residuos destas musicas estão presentes em suas novas práticas, ainda que estas sejam muito distintas das praticas de seus pais ou avós. "Tenho a impressão de que quanto mais radicais forem as mudanças em um estilo musical, mais significativos são esses fatores, às vezes obscuros, que garantem a continuidade"(Nettl, 2006, 28).
No calango, a instrumentação básica é composta de sanfona de 8 baixos, como instrumento solista e acompanhador, e pandeiro. A estes podem ser acrescidos outros instrumentos, como viola de dez cordas, violão e outros instrumentos de percussão, dependendo dos recursos de cada comunidade.A improvisação é um elemento importante na música do calango, seja em sua forma cantada ( o calango de desafio), onde dois cantores se alternam em quadras rimadas e improvisadas, como no calango instrumental, solado em sanfona de 8 baixos. Os calangos ocorriam na forma de bailes organizados pelas comunidades nos finais de semana, ou de forma espontânea, no encontro fortuito de "calangueiros" (praticantes do calango) no final dos dias, em fundos de quintal ou na porta das "biroscas".


João Torquato era um sanfoneiro completo neste gênero musical, dominando tanto os padrões de acompanhamento, como temas instrumentais.
Atualmente, os calangueiros em Petropolis se situam dispersos, e decorrente deste fato, raramente há encontros entre eles, ainda que informalmente.A faixa etária dos calangueiros mais jovens está entre os 50 e 60 anos, o que denota a dissolução desta prática entre as novas gerações.


Referências:
Nettl, Bruno. O estudo comparativo da mudança musical: Estudos de caso de quatro culturas. Revista ANTROPOLOGICAS, ano 10, volume 17(1): 11-34 (2006)
Peres, Leonardo Rugero. Anotações de campo.1999 - 2009.

5 de mai. de 2009

zé do oito baixos.wmv


05/05/2009
Sanfona de 8 baixos - um instrumento em extinção?
A cada dia que passa, me parece menos verossímil a afirmação de que a sanfona de 8 baixos esteja em extinção. De um lado temos velhos mestres da primeira geração fonográfica do instrumento em plena atividade, como Zé Calixto e Geraldo Corrêa. Uma geração intermediária de mestres como Arlindo dos 8 baixos, sexagenário que vai se afirmando cada vez mais como representante deste instrumento. Alguns mais jovens como Luizinho Calixto e Heleno dos 8 baixos, trazendo inovações ao estilo nordestino, seja incorporando novas influências, seja criando novas técnicas ou ainda legitimando novos repertórios. Faltam novos valores, da juventude, isto sim. Mas o ingresso de Arlindo e Luizinho na área da educação musicacal parece algo muito promissor na formação de novos interpretes para este difícil instrumento.
E há ainda, aqueles sanfoneiros à margem das edições fonográficas, e das casas profissionais de forró, mas nem por isso, menos dotados em sua técnica e arte. Como este Zé do Oito Baixos, que ainda agora tive oportunidade de ouvir, graças a uma postagem de Rianlokura, que parece ser um devoto dos 8 baixos. Ouçam, e surpreendam-se com esta novidade, pois há ainda mestres intocados, longe dos refletores...http://www.youtube.com/watch?v=fYEDDk1cpN0

Sanfona de 8 baixos - um instrumento em extinção?

A cada dia que passa, me parece menos verossímil a afirmação de que a sanfona de 8 baixos esteja em extinção. De um lado temos velhos mestres da primeira geração fonográfica do instrumento em plena atividade, como Zé Calixto e Geraldo Corrêa. Uma geração intermediária de mestres como Arlindo dos 8 baixos, sexagenário que vai se afirmando cada vez mais como representante deste instrumento. Alguns mais jovens como Luizinho Calixto e Heleno dos 8 baixos, trazendo inovações ao estilo nordestino, seja incorporando novas influências, seja criando novas técnicas ou ainda legitimando novos repertórios. Faltam novos valores, da juventude, isto sim. Mas o ingresso de Arlindo e Luizinho na área da educação musicacal parece algo muito promissor na formação de novos interpretes para este difícil instrumento.
E há ainda, aqueles sanfoneiros à margem das edições fonográficas, e das casas profissionais de forró, mas nem por isso, menos dotados em sua técnica e arte. Como este Zé do Oito Baixos, que ainda agora tive oportunidade de ouvir, graças a uma postagem de Rianlokura, que parece ser um devoto dos 8 baixos. Ouçam, e surpreendam-se com esta novidade, pois há ainda mestres intocados, longe dos refletores...http://www.youtube.com/watch?v=fYEDDk1cpN0

4 de mai. de 2009

Parabéns Arlindo


Arlindo dos 8 baixos, recém sexagenário em 19 de Abril último, recebeu um grande presente de aniversário. Por intermédio da Fundação do patrimônio artistico de Pernambuco (Fundarpe), Arlindo receberá uma verba anual de R$ 114 mil reais para manter a sua casa, já tradicional, o forró do Arlindo.

A importância do Forró do Arlindo não se restringe ao fato de ser uma casa mantenedora do forró pé-de-serra. Também deve sua importância por ter sido idealizada por um sanfoneiro, o mestre Arlindo, que inicialmente, de forma espontânea, queria apenas reinvindicar um espaço à uma modalidade de forró que estava fora dos grandes espaços de representação da midia. Desde então, dez anos se passaram, e o Forró do Arlindo se torna uma atração indispensável a quem estiver de passagem por Recife. Não podemos esquecer que a sanfona de 8 baixos na região Nordeste esteve desde sempre indissociável do forró pé-de-serra, outrora escola de grandes músicos que despontaram desta região como Hermeto Pascoal e Dominguinhos, e a continuidade desta tradição quiçá, poderá revivificar a bela arte da sanfona de 8 baixos nordestina.


Forró de Arlindo dos 8 BaixosRua Hildebrando de Vasconcelos, 2900, Dois Unidos – Recife/PE

14 de abr. de 2009

Sanfona de 8 baixos na web - Leonardo Rugero Peres

Fazendo um balanço atual da presença da sanfona de 8 baixos na internet, podemos constatar que o interesse por este instrumento é crescente. Senão vejamos.
Websites
Ainda são raros os sites. Destaco o site de luizinho calixto http://www.luizinhocalixto.com.br/ Neste site, pode-se encontrar dados biográficos, fotografias e novidades sobre este talentoso artista.
No site musicosdobrasil.com.br, na seção "ensaios", se encontra disponível para download o meu ensaio "A sanfona de 8 baixos na música instrumental".http://ensaios.musicodobrasil.com.br/leorugero-asanfonadeoitobaixos.pdf
blogs
Há uma quantidade expressiva de blogs na internet. Além do já clássico forró em vinil, a cada dia que passa surgem novos blogs dedicados sobretudo à postagem de antigos discos de vinil, mas também contendo postagens sobre informações gerais, tendo eventualmente destaque a sanfona de 8 baixos. A grande questão ética que se coloca neste momento é evitar a disponibilização de CDs em catálogo para download, pois isso inibe as vendagens de artistas que normalmente trabalham com tiragens limitadas. como o caso do próprio Luizinho Calixto. Um concenso ético entre os blogs seria a postagem de vinis ou CDs esgotados, fora de catálogo.
http://oxentenordeste.blogspot.com/

http://raizesdonordeste.blogspot.com/

http://acervoorigens.blogspot.com/

Ainda entre os blogs, vale conferir o blog do etnomusicólogo John Murphy, que escreveu em 2006 o livro Music in Brazil, editado pela Oxford, New York. Neste livro, há um breve capitulo dedicado à sanfona de 8 baixos da região nordeste, tendo como principal musico focado, Arlindo dos 8 baixos.
http://web3.unt.edu/murphy/brazil/?q=blog/1&page=4

youtube

No youtube, embora ainda discreta, a filmografia disponível sobre sanfona de 8 baixos já se faz notável. Algumas dicas para pesquisa:

Arlindo dos 8 baixos
http://www.youtube.com/watch?v=qh0B1Y7ipo8&feature=rec-HM-fresh+div

Heleno dos 8 baixos
http://www.youtube.com/watch?v=XtzvgY4At8A&feature=related

Hermeto Pascoal
http://www.youtube.com/watch?v=jxh6gbohJLs

Luizinho Calixto (com Zé Calixto & Abdias)
http://www.youtube.com/watch?v=rIsvJn7Zqsw

Bem, estas são apenas algumas sugestões. O interessante no Youtube é que o sistema de palavras-chave, consegue estabelecer links entre videos relacionados, o que facilita a pesquisa.

Concluindo, podemos constatar que não cessam de expandir os acervos da internet, possibilitando desde o leigo curioso ao aficcionado, passando pelo pesquisador, prósperas pesquisas. No entanto, uma dúvida ainda se coloca. Como trabalhar em parceria com os próprias artistas?

11 de abr. de 2009

Com quantos nomes se faz uma sanfona? - Leo Rugero


Com quantos nomes se faz uma sanfona?


Leonardo Rugero Peres

No Brasil, a sanfona de 8 baixos nunca foi chamada pelo nome original do instrumento: acordeon diatônico de 8 baixos, ao contrário de países americanos de colonização espanhola onde a sanfona também foi muito difundida, como a Colômbia e Republica Dominicana. Isto se deve ao fato que os espanhóis, desde cedo, se referem aos pequenos acordeões compostos unicamente de botões, como acordeon diatònico. Tal nominação também foi adotada em outros paises como a França (acordeon diatonique) e Alemanha (diatonische handharmonika). A diferença do termo alemão está em considerar a sanfona, uma harmônica (gaita) manuseada com os dedos (manual). Provavelmente esta definição está relacionada a própria origem do instrumento, tal como foi concebido pelo seu inventor, Cyrill Demian, ou seja, uma espécie de harmônica (gaita) inserida em uma caixa.
Entre nós, a sanfona de 8 baixos também não recebeu seu batismo pela descrição técnica do instrumento: acordeon de botões de 8 baixos, tal como ocorreu em países como a Inglaterra e Estados Unidos (eight basses button accordion).
Ao contrário, num processo que poderíamos chamar de "camaleônico”, este instrumento foi recebendo diferentes nomes nas diferentes áreas em que era inserido. Normalmente, os nomes eram apelidos criados pelas populações locais, o que constata o fato que este instrumento teve maior acolhida no Brasil entre as populações de baixa renda, sobretudo nas comunidades rurais e periferia urbana.
Entre estes "apelidos", a palavra sanfona se tornou a mais usual entre todas, pois foi adotada pela indústria fonográfica no eixo Rio - São Paulo, no final dos anos 50, quando são gravados os primeiros fonogramas de sanfoneiros de origem nordestina como Gerson Filho, Zé Calixto e Severino Januário. Em depoimento, Zé Calixto atesta que desconhecia a palavra sanfona em sua terra natal, Campina Grande - PB, onde o termo corrente para designar o instrumento era fole de 8 baixos. Assim, este instrumento passa a ser chamado metonimicamente por uma característica especifica do fole, que é o fato de ser sanfonado.
No sul do Brasil, até os dias de hoje a expressão gaita-ponto é reconhecidamente a mais utilizada para nomear o acordeon de botões, enquanto gaita-piano ou gaita-pianada, quando se refere aos acordeons de teclado. Mas, entre o povo, surgem alcunhas curiosas. Gaita de duas conversas é uma delas. Esta alcunha se refere ao fato que as sanfonas de 8 baixos são bissonoras, isto é, um mesmo botão ao abrir o fole produz uma nota (uma conversa), enquanto que ao fechar o fole, emite outra nota (outra conversa).
Entre os portugueses, sempre houve uma tendência a nomear um instrumento pertencente à determinada família, por outro instrumento, de outra família. Exemplo muito difundido são os termos viola e violão, para designar respectivamente, as guitarras de cinco e seis ordens, criando assim uma verdadeira confusão onomástica na língua portuguesa, onde temos a palavra viola designando tanto a viola-de-arco, pertencente à família das violas, bem como a viola "caipira" pertencente à família das guitarras. Do mesmo modo, a palavra concertina se consagrou como a maneira mais usual de denominação do acordeon diatônico em Portugal.
Em algumas localidades do Brasil, Concertina também é de uso corrente, o que se confirma pelo nome artístico de alguns instrumentistas como Manoel da Concertina. Talvez esta verificação tenha levado o etnomusicologo Thiago de Oliveira Pinto a aceitar este termo, inclusive, adotando-o em seus escritos sobre o forró. No entanto, em termos estritos, a concertina se trata de outro instrumento aerófono com características distintas de nossa sanfona, mais próximo ao bandoneon. Por sua vez, para confundir as coisas ainda mais um pouco, a palavra sanfona, em Portugal remete a outro instrumento, muito distinto de nossa sanfona, e pertencente à família das vielas-de-roda.
Algumas expressões de origem popular são muito curiosas. "Pé-de-bode" é uma delas, usada indistintamente nas regiões sul e sudeste. Um dos raros estudiosos do instrumento, John Murphy, faz uma interessante observação sobre esta alcunha, que conforme explica o autor "relembra os dias quando o instrumento tinha somente dois baixos; A analogia parece relacionada com as patas de bode serem divididas em duas partes"(2006,p104). Ainda hoje, sanfonas de dois baixos são utilizadas na Itália, sobretudo na interpretação de Tarantellas.
Testa-de-ferro é outro apelido curioso, comum, sobretudo no sul de Minas Gerais, e parece indicar os antigos modelos de sanfonas de 8 baixos (vide foto), que não eram abauladas na frente ou nas extremidades. Estes modelos também são conhecidos por caixotinhos.
Também curiosos são os apelidos botuada ou botoadeira, devido ao instrumento ser construído sem teclado, unicamente com botões.
Afinal, como chamar este instrumento que se esconde atrás de tantas denominações? Sanfona, estatisticamente é a expressão mais utilizada nas regiões sul e sudeste. No entanto, para os sulistas, trata-se de uma gaita-ponto e ponto final. Abaixo, uma lista com alguns dos nomes mais comumente utilizados para a sanfona de 8 baixos:

acordeona de 8 baixos

botuada

botuadeira
cabeça de égua
caixotinho
concertina
cordeona de 8 baixos
fole-de-8 baixos
gaita-ponto
gaita de colher
gaita de duas conversas
harmônica
harmônio
pé de bode
pé de orelha
pescoço de cabra
realejo
testa de ferro
verduleira



referências:

livros:Murphy, John. Music in Brazil. New York: Oxford, 2006.
Oliveira, Ernesto Veiga de Instrumentos populares portugueses.

Internet


Peres, Leonardo Rugero.
A sanfona de 8 baixos e a musica instrumental, In Musicos do Brasil: Uma enciclopédia. Petrobrás,2008.

CDs:
Azevedo, Téo. In “Zé Calixto - 40 anos de forró”. Montes Claros: Pequizeiro,1999.
Pinto, Thiago de Oliveira. In: Pé de Serra forró band. Berlim: Wergo, 1992

8 de abr. de 2009

Zé Calixto e Zé Ramos

Dia 09, quinta-feira, o poeta da sanfona, Zé Calixto, realizará uma apresentação ao lado do cantor e compositor Zé Ramos. Os dois músicos já trabalham colaborativamente há alguns anos. Inclusive, já realizaram um CD juntos intitulado "ao vivo - vol.1". No repertório da dupla, se alternam músicas instrumentais e cantadas. Vale a pena conferir!
Abaixo, mais detalhes sobre o evento.
RIO ROOTS 2009 - DE 8 A 12 DE ABRILQUARTA 08/04 - TRIO SANHACO, TRIO CARUA, TRIO XIQUE XIQUE, 3X4, TRIO CABACEIRAS, MARIANA MELLO, DONA FLOR, FAMILIA VIRGULINO. - QUINTA 09/04 - GERALDO JUNIOR, ESTACAO LUNAR, TRIO JUREMA, TRIO LUA CHEIA, TRIO SO FORRO, ZE CALIXTO E ZE RAMOS, TRIO CANDIEIRO, TRIO POTIGUA, FUBA DE TAPEROA - SEXTA 10/04 - FORRO DE PONTA, PISAMANEIRO, RAIZES DO SERTAO, TRIO ALVORADA, TRIO JUAZEIRO, TRIO XAMEGO, TRIO ARACA, TRIO NORTISTA - SABADO 11/04 - FORROBODO, TRIO RAPACUIA, TRIO REMELEXO, PARAXAXAR, OS CABRAS, FILHOS DO NORDESTE, TRIO LAMPIAO, MESTRE ZINHOKATURA GARDEN - BARRA DE GUARATIBA - ESTRADA BURLE MAX 1245. Pegar a KOMBI ROOTS no Recreio Shopping. Infos.: (21) 8305-5847 ou arzeventos.com/rioroots

7 de abr. de 2009

Folia de Reis - Mato Dentro - S B do Suaçuí


Os instrumentos são: sanfona de oito baixos, viola caipira, violão, cavaquinho e a percussão (caixa e tambor); O cortejo percorre as cercanias, até que eles param em frente a uma casa, e começam a cantar uma canção ancestral: - Ô de casa/Ô de fora, Maria vai ver quem é/são os cantadô de reis/são os cantadô de reis/ quem mandou foi São José.O dono da casa, acolhe a folia e seus foliões ofertando-lhes comida e bebida.
As folias-de-reis são uma antiga tradição. Os três reis magos que visitam o menino Jesus. Eles carregam ouro, incenso e mirra.E a história chega até os dias de hoje.
Todo ano, no calendário cristão, o dia 6 de Janeiro é o Dia de Reis.Com sua bandeira, seus trajes tipicos,seus instrumentos, cantando em terças e sextas paralelas, e lembrando o Menino Jesus e os três reis magos.Como a bela folia de reis de Mato Dentro - Minas Gerais. Nonô de Ciliaco toca a sanfona de oito baixos e entoa os cânticos, acompanhado por seus foliões.E, em meio a estes sons encantados, sentimos o coração de uma cultura que ainda bate fortemente.
The instruments: eight basses button accordion, viola (10 strings guitar), six strings guitar, cavaquinho and percussion (caixa - snare drum, and pandeiro - frame drum); The procession travel across the outskirsts until they stop in front of a house, and start to sing and old song: - Ô de casa. (Anabody's home?); Someone answer: - Ô de fora.Maria vai ver quem é ( Maria, go out see who are). And Maria says: São os cantadô de reis ( Are the King's singers), and comment: - quem mandô foi São José (Who order was Saint Joseph).The owner's home welcomw the folia ans the foliões, offering drink and food.
The folia-de-reis (companies of kings) are an old tradition.The three kings, who seek the infant Jesus. They take gold, incense and myrrh.And the history take us up to present day.
Every year, on the King's day (6 January), the foliões, with the ensign, with his special clothes, with his instruments, walk and sing in thirds and sixths intervals, and remembering the Infant Jesus and the three kings.Like the Compain of Kings from Mato Dentro, state of Minas Gerais.Nonô de Ciliaco plays the button accordion and sings with his foliões. And we hear that encanted sounds and fell the heart of a culture.


Leo Rugero
sobre um video postado no youtube por Flaviano Trindade
Postado por Leo Rugero às 00:20 0 comentários

4 de abr. de 2009

Algumas considerações sobre “O poeta da sanfona”.


Entre os lançamentos fonográficos de 2008, “O poeta da sanfona” de Zé Calixto, está entre os mais importantes no âmbito da música regional. Afinal, desde a retração mercadológica que sofreu o forró instrumental no princípio dos anos 80, que Zé Calixto não registrava seu trabalho com um aparato de produção à altura de sua expressão artística. Só a constatação deste fato já é suficiente para saudar-nos este lançamento tão oportuno.Aliado a isso, neste ano de 2009, Calixto completa 50 anos de carreira discográfica.Afinal foi há exatas cinco décadas, em 1959, que entrou no estúdio da gravadora Philips para gravar seu primeiro disco em 78 rotações com as músicas "Forró de Seu Dideu" e "Polquinha brejeira" onde já revelava ao público o talento incomum que seria definitivamente consagrado com a sua interpretação do choro "Escadaria" de Pedro Raimundo, em 1962.
Produzido pela Baluarte Agência de projetos culturais, e tendo a direção musical de Guilherme Maravilhas (ex-acordeonista do Forroçacana), este CD se caracteriza pela tendência moderna às antologias, contendo basicamente novas leituras para obras que já haviam sido gravadas anteriormente.A instrumentação é fiel ao regional que caracteriza a produção discográfica do fole de 8 baixos nordestino, destacando a participação de músicos que já podem ser chamados de escudeiros fiéis, por já atuarem há alguns anos ao lado de Zé Calixto, como Valter Silva (violão de 7 cordas), Carlinhos Calixto (percussão e co-produção musical) e Durval (zabumba), além de músicos que ainda não haviam atuado em trabalhos do sanfoneiro, como Ubyratan (cavaquinho) e Marcelo Bernardes (flauta e clarinete).
A faixa de abertura, "Forró mengão" (Dominguinhos/Anastácia) foi gravado originalmente por Zé Calixto com o titulo de "Forró do mengo" no disco "Forró pra toda gente", lançado em 1979 pela extinta Tapecar. A nova versão se difere pela escolha de uma tonalidade diferente da original, e mostra quase 30 anos depois que Calixto, na altura de seus 75 anos, ainda possui dedos ágeis o suficiente para tocar forrós em andamento acelerado em melodias construídas em semicolcheias. A participação de Nicolas Krassik ao violino não parece estabelecer um dialogo vivo com a sanfona.
O pot-pourri em ritmo de quadrilha, capitaneada pela voz de Dominguinhos, e costurada pelo clássico Sai do Sereno de Onildo Almeida, reapresenta o esquema formal de quadrilhas encadeadas, sob medida para embalar as festas de São João, já utilizado por Calixto nos álbuns Forró pra toda gente ( Tapecar, 1979) e Tocador do mundo (RCA – 1982).
A interpretação de choros sempre foi uma marca na carreira de Calixto. Neste álbum, o destaque para os choros é notável. Algumas regravações como a bela “Homenagem à velha guarda” de Sivuca, “Tudo Azul” de Orlando Silveira e Esmeraldino Salles e “Num bate papo”, parceria de Zé Calixto com Índio do Cavaquinho. Em “Eu quero é sossego” do inovador K-Chimbinho, um interessante achado é a introdução instrumental da sanfona sem acompanhamento que é realizada por Calixto. Nesta introdução, Calixto se utiliza de uma “variação”. As “variações” são cadências melódicas que de acordo com Calixto, consistem na base técnica do sanfoneiro. A interpretação, recheada por acordes de resposta e ornamentos melódicos, é um dos pontos altos deste CD.
Outro destaque do álbum é a presença do xote “Pé-de-serra” de Luiz Gonzaga. Este tema instrumental é da fase inicial da carreira do rei do baião, quando este ainda era solista de acordeon. Verdadeira raridade tirada do fundo do baú por Calixto e Guilherme Maravilhas.
A valsa sempre foi um gênero bissexto nos discos de forró instrumental, talvez em parte, pelo universo da dança nordestina nas últimas três decadas ser predominado por ritmos em compasso binário. Sendo assim, uma das grandes surpresas deste álbum é a releitura de “Rosa”, célebre valsa-choro de Pixinguinha. O andamento lento, outra raridade no universo da sanfona de 8 baixos, permite a Calixto realçar a interpretação do ponto-de-vista da expressão, atingindo dramaticidade poucas vezes ouvida neste contexto musical.Esta faixa é abrilhantada pela participação de Valter Silva, que além do violão de 7 cordas, se revela um autêntico cantor de serestas que talvez tenha sido eclipsado pelo violonista.
"Tô aqui pra isso" de Bastinho Calixto é um autêntico forró chorado, com enigmático motivo descendente e sincopado, consistindo em outra grata surpresa deste CD.
Saindo do plano sonoro, a capa e o encarte de muito bom gosto, tendo ao fundo a cor azul celeste do muro da casa de Calixto. As fotos de Marcelo Corrêa nos fazem viajar pela casa de Zé, no Morro da Pedreira. O passarinho na gaiola, os copos sobre a mesa rendada, a imagem da padroeira, se tornam simbolos que se comunicam visualmente com a música gravada.
Reiterando o que dissemos antes, “O poeta da sanfona” é um álbum fundamental, no sentido de reapresentar ao grande público a obra interpretativa e composicional de um dos mais influentes sanfoneiros de 8 baixos de todos os tempos, Zé Calixto, "o poeta da sanfona".
Leo Rugero

Para comprar este disco diretamente com Zé Calixto, escreva para sanfonerozecalixto@yahoo.com.br