4 de abr de 2009

Algumas considerações sobre “O poeta da sanfona”.


Entre os lançamentos fonográficos de 2008, “O poeta da sanfona” de Zé Calixto, está entre os mais importantes no âmbito da música regional. Afinal, desde a retração mercadológica que sofreu o forró instrumental no princípio dos anos 80, que Zé Calixto não registrava seu trabalho com um aparato de produção à altura de sua expressão artística. Só a constatação deste fato já é suficiente para saudar-nos este lançamento tão oportuno.Aliado a isso, neste ano de 2009, Calixto completa 50 anos de carreira discográfica.Afinal foi há exatas cinco décadas, em 1959, que entrou no estúdio da gravadora Philips para gravar seu primeiro disco em 78 rotações com as músicas "Forró de Seu Dideu" e "Polquinha brejeira" onde já revelava ao público o talento incomum que seria definitivamente consagrado com a sua interpretação do choro "Escadaria" de Pedro Raimundo, em 1962.
Produzido pela Baluarte Agência de projetos culturais, e tendo a direção musical de Guilherme Maravilhas (ex-acordeonista do Forroçacana), este CD se caracteriza pela tendência moderna às antologias, contendo basicamente novas leituras para obras que já haviam sido gravadas anteriormente.A instrumentação é fiel ao regional que caracteriza a produção discográfica do fole de 8 baixos nordestino, destacando a participação de músicos que já podem ser chamados de escudeiros fiéis, por já atuarem há alguns anos ao lado de Zé Calixto, como Valter Silva (violão de 7 cordas), Carlinhos Calixto (percussão e co-produção musical) e Durval (zabumba), além de músicos que ainda não haviam atuado em trabalhos do sanfoneiro, como Ubyratan (cavaquinho) e Marcelo Bernardes (flauta e clarinete).
A faixa de abertura, "Forró mengão" (Dominguinhos/Anastácia) foi gravado originalmente por Zé Calixto com o titulo de "Forró do mengo" no disco "Forró pra toda gente", lançado em 1979 pela extinta Tapecar. A nova versão se difere pela escolha de uma tonalidade diferente da original, e mostra quase 30 anos depois que Calixto, na altura de seus 75 anos, ainda possui dedos ágeis o suficiente para tocar forrós em andamento acelerado em melodias construídas em semicolcheias. A participação de Nicolas Krassik ao violino não parece estabelecer um dialogo vivo com a sanfona.
O pot-pourri em ritmo de quadrilha, capitaneada pela voz de Dominguinhos, e costurada pelo clássico Sai do Sereno de Onildo Almeida, reapresenta o esquema formal de quadrilhas encadeadas, sob medida para embalar as festas de São João, já utilizado por Calixto nos álbuns Forró pra toda gente ( Tapecar, 1979) e Tocador do mundo (RCA – 1982).
A interpretação de choros sempre foi uma marca na carreira de Calixto. Neste álbum, o destaque para os choros é notável. Algumas regravações como a bela “Homenagem à velha guarda” de Sivuca, “Tudo Azul” de Orlando Silveira e Esmeraldino Salles e “Num bate papo”, parceria de Zé Calixto com Índio do Cavaquinho. Em “Eu quero é sossego” do inovador K-Chimbinho, um interessante achado é a introdução instrumental da sanfona sem acompanhamento que é realizada por Calixto. Nesta introdução, Calixto se utiliza de uma “variação”. As “variações” são cadências melódicas que de acordo com Calixto, consistem na base técnica do sanfoneiro. A interpretação, recheada por acordes de resposta e ornamentos melódicos, é um dos pontos altos deste CD.
Outro destaque do álbum é a presença do xote “Pé-de-serra” de Luiz Gonzaga. Este tema instrumental é da fase inicial da carreira do rei do baião, quando este ainda era solista de acordeon. Verdadeira raridade tirada do fundo do baú por Calixto e Guilherme Maravilhas.
A valsa sempre foi um gênero bissexto nos discos de forró instrumental, talvez em parte, pelo universo da dança nordestina nas últimas três decadas ser predominado por ritmos em compasso binário. Sendo assim, uma das grandes surpresas deste álbum é a releitura de “Rosa”, célebre valsa-choro de Pixinguinha. O andamento lento, outra raridade no universo da sanfona de 8 baixos, permite a Calixto realçar a interpretação do ponto-de-vista da expressão, atingindo dramaticidade poucas vezes ouvida neste contexto musical.Esta faixa é abrilhantada pela participação de Valter Silva, que além do violão de 7 cordas, se revela um autêntico cantor de serestas que talvez tenha sido eclipsado pelo violonista.
"Tô aqui pra isso" de Bastinho Calixto é um autêntico forró chorado, com enigmático motivo descendente e sincopado, consistindo em outra grata surpresa deste CD.
Saindo do plano sonoro, a capa e o encarte de muito bom gosto, tendo ao fundo a cor azul celeste do muro da casa de Calixto. As fotos de Marcelo Corrêa nos fazem viajar pela casa de Zé, no Morro da Pedreira. O passarinho na gaiola, os copos sobre a mesa rendada, a imagem da padroeira, se tornam simbolos que se comunicam visualmente com a música gravada.
Reiterando o que dissemos antes, “O poeta da sanfona” é um álbum fundamental, no sentido de reapresentar ao grande público a obra interpretativa e composicional de um dos mais influentes sanfoneiros de 8 baixos de todos os tempos, Zé Calixto, "o poeta da sanfona".
Leo Rugero

Para comprar este disco diretamente com Zé Calixto, escreva para sanfonerozecalixto@yahoo.com.br

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