25 de out de 2013

Arlindo dos Oito Baixos (1941 - 2013)



Arlindo dos Oito Baixos (1941 - 2013)
 Léo Rugero

Arlindo Ramos Pereira nasceu em Engenho Rubi, Pernambuco, no dia 16 de abril de 1941. Conhecido artisticamente como Arlindo dos oito baixos, se tornou uma das principais referências do instrumento.
Seu primeiro contato com a sanfona de oito baixos foi através de seu pai, José Ramos Pereira, um carpinteiro especializado na confecção de rodas e cangas de carroça. Com a idade de 10 anos, Arlindo começou “a mexer” no instrumento, contrariando seu pai.Conheci Arlindo dos Oito Baixos em agosto de 2009, durante a pesquisa de campo que engendrou minha dissertação de mestrado sobre a sanfona de oito baixos na região Nordeste. Foi Zé Calixto quem sugeriu que o procurasse. Então, chegando à Recife, a casa de Arlindo, no bairro de Dois Unidos, foi a primeira parada de viagem. Lembro de minha alegria ao chegar àquela casa, misto de residência, casa de forró, oficina e escola. A vida de Arlindo era o forró e a sanfona, tudo girava ao redor disso. Portanto, aquele ambiente era um verdadeiro centro desta irradiação sonora. O propósito inicial era gravar uma entrevista, o que acabou não funcionando...marinheiro de primeira viagem, não havia me atentado ao fato de que em Recife, as tomadas são ajustadas para 220 volts. Coloquei minha mesa de som na tomada e instantâneamente, Arlindo comentou: - estou sentindo um cheiro de queimado...Não deu outra...minha fonte, ajustada para os 110 volts utilizados no Rio de Janeiro foi carborizada. Porém, tive sorte. Não perdi a mesa de som que sobreviveu intacta e ainda ganhei a oportunidade de retornar à casa de Arlindo algumas vezes para refazer a entrevista e até mesmo fazer "negócio", pois acabei comprando uma de suas sanfonas, a velha Hohner em afinação transportada,  instrumento que desde então me acompanha em minha travessia sonora.
Lembrar de Arlindo Ramos Pereira é recordar de uma figura simples, afável, o "mestre do Beberibe" como Gonzaga o definiu, filho da zona da mata pernambucana, que conservou ao longo da existência de muitas lutas, conquistas e agruras, a calma e sabedoria de um menino dos canaviais, sempre aberto às descobertas e as diferenças.
Pensar em Arlindo é lembrar também da generosidade de Luiz Gonzaga, verdadeiro rei que sabia como ninguém reconhecer os talentos que sem a sua mão, poderiam estar imersos na poeira dos sertões. Pois lembro da história que Arlindo sempre contava de como e quando conheceu Gonzagão.  Foi numa das apresentações de “Coruja e seus tangarás”, que Arlindo teve a oportunidade de conhecer aquele que seria seu padrinho artístico, Luiz Gonzaga. Arlindo se lembra do impacto de ter conhecido o “Rei do baião”, quando o grupo realizou a abertura de uma apresentação de Gonzaga em Recife.

"Depois da nossa apresentação, eu fiquei defronte ao palco esperando o Luiz Gonzaga. Aí ele chegou com a sanfona e começou a tocar. Depois de trinta minutos, ele disse: “Eu vou chamar a Marinês.” Aí, Marinês subiu ao palco. Então, Gonzaga disse: “Cadê eu pra acompanhar Marinês? Eu só gosto de acompanhar as minhas músicas”. Aí, o Coruja disse: “Gonzaga, o meu sanfoneiro tá aí. Se você quiser, eu chamo ele”. Gonzaga então disse: “Chame ele”. Coruja me chamou, eu tava bem de frente pro palco, aí subi. Eu acompanhei Marines em três músicas".

Luiz Gonzaga, além de ter apreciado a performance de Arlindo, soube que o sanfoneiro era um bom artesão. De fato, Arlindo havia aprendido com seu padrinho o ofício de restauro e afinação de sanfonas. Sendo assim, Gonzagão tratou um conserto com Arlindo, para que fossem afinadas algumas notas. No dia seguinte, conforme o combinado, Luiz Gonzaga foi à casa de Arlindo, então localizada na Avenida Beberibe. Segundo Arlindo, “ele chegou lá às dez horas, eu nem acreditava que ele ia. Ele levou a sanfona para eu ajeitar a voz que estava ruim”. Concluído o conserto, Luiz Gonzaga aprovou a afinação e perguntou a Arlindo quanto era o serviço. Arlindo, então lhe respondeu: “Não é nada! O serviço foi muito pouco”. No mesmo instante, Gonzaga olhou para Arlindo, mirou os quatro cantos da casa e disse: “Você não está em condições de trabalhar de graça ainda não, e eu sou quem não quero. A minha intenção era lhe ajudar”. Prontamente, Gonzaga abriu a bolsa e deixou um pacote de dinheiro que Arlindo não ganharia em seis meses de trabalho. Como lembra o sanfoneiro, “eu fiquei abestalhado, aí disse: - Não, não, eu não quero esse dinheiro não!”. Então, Gonzaga respondeu a Arlindo: “Se você não quiser, eu vou dar à sua mulher, que sua mulher não é besta, não”.
Com o impulso de Gonzaga, Arlindo se estabilizou como artesão e sanfoneiro, De tal modo ele desenvolveria um equilíbrio entre as duas atividades, que foi condecorado como “O artesão da sanfona”.
Na década de 1970, a sanfona de teclado se tornou predominante em seu trabalho profissional e Arlindo se tornou muito requisitado como músico de estúdio em programas radiofônicos e gravações.
Certo dia, Arlindo conversou com Luiz Gonzaga, pedindo-lhe uma oportunidade para gravar um disco. Gonzaga aconselhou Arlindo a retomar o fole de oito baixos. Então, Arlindo adquiriu uma nova sanfona de oito baixos e começou a praticar. Depois de alguns meses, Gonzaga lhe perguntou: “Como é, Arlindo, você tá tocando alguma coisa?”, ao que Arlindo respondeu: “Tô tocando umas besteirinhas...” Na ocasião, Luiz Gonzaga era diretor do departamento de música nordestina da RCA. Em 1981, Arlindo, acompanhado do zabumbeiro Quartinha, se dirigia ao estúdio da gravadora RCA, em São Paulo, para as gravações de seu primeiro disco, que contou com a participação de Dominguinhos na produção e direção artística. O título do disco também foi sugestão de Luiz Gonzaga. Arlindo conta como isso ocorreu.

Quando foram fazer a ficha técnica do disco, eles escreveram “Arlindo do acordeon”.[1] Aí, mostraram à Gonzaga: “Gonzaga, olhe a ficha técnica do Arlindo”. Aí, ele olhou assim e disse: “Não, eu não quero isso não. Eu quero Arlindo dos oito baixos, pode tirar isso aí”.

Além do nome artístico, o titulo do álbum também foi obra de Gonzaga: “O mestre do Beberibe”. Desde então, Arlindo despontou como um dos mais respeitados solistas de sanfona de oito baixos, com expressiva atuação fonográfica, intensificando a influência do choro e do frevo em seu repertório. Também é um requisitado afinador e tornou-se uma figura proeminente na estruturação profissional do forró em Recife, à frente “Forró do Arlindo” no bairro Dois Unidos. Entre os seus filhos, estão dois destacados instrumentistas, o percussionista Raminho e o baixista Adilson. Ao lado da esposa, Odete Regina Macedo, compartilhou um caminho de cinco décadas de matrimônio, e uma vida dedicada à família, ao forró e à sanfona de oito baixos. Salve Arlindo e obrigado por tudo que nos deixou...


[1] Devemos lembrar que Arlindo do acordeon foi o nome artístico de Arlindo durante a década de 1970, que marca a fase de sua carreira em que era músico de estúdio, dedicando-se ao acordeon.


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