19 de abr de 2014

A metodologia para o ensino da sanfona de oito baixos na Europa no Século XIX - texto de Léo Rugero

Neste momento em que se reanimam os esforços individuais de alguns instrumentistas na organização de material didático para o ensino da sanfona de oito baixos, devemos conduzir nosso olhar ao passado, a procura de referências que podem estar perdidas nas prateleiras empoeiradas de sebos ou bibliotecas.
Pois, se hoje o acordeon diatônico é um instrumento praticamente obsoleto - a exceção do Sul do Brasil, onde a tradição do instrumento se mantém viva, isto se deve ao fato de que, ao menos em nosso país, a prática do acordeon diatônico arrefeceu mediante as possibilidades técnicas e mecânicas do acordeon-piano e do acordeon cromático.
Uma das premissas que cercam a prática musical deste instrumento é a de que a sanfona de oito baixos não possui metodologia escrita. A transmissão oral de seus conteúdos teria gerado a impressão de que técnicas e repertórios foram transmitidos oralmente desde sempre. Se, em parte, isso constitui uma verdade, não nos parece necessariamente que este corpo repertorial tenha sido edificado pelas mãos de intrumentistas anônimos e pautados pela oralidade. Durante nossa pesquisa sobre os repertorios tradicionais do acordeon diatônico, nos deparamos com estruturas de recorrência - motivos, frases, técnicas e até mesmo melodias inteiras que haviam sido compartilhadas e recicladas no processo interpretativo e composicional de sanfoneiros, pressupondo a presença de fontes irradiadoras desta tradição sonora. Mediante este fato, não seria difícil imaginar a influência de alguns praticantes enquanto polos irradiadores deste corpo repertorial, como o caso do sanfoneiro paraibano João de Deus Calixto. Pai dos sanfoneiros Zé, João, Bastinho e Luizinho, João de Deus, mais conhecido como "Seu Dideus" foi uma figura exponencial na prática instrumental do fole de oito baixos na primeira metade do séc.XX. Seus filhos herdariam seus repertórios, que, por sua vez, haviam sido adaptações e estilizações de uma parte considerável dos repertórios tradicionais praticados no agreste e sertão paraibanos. O próprio João de Deus teria aprendido o ofício de sanfoneiro com o acordeonista paraibano Zé Tempero, considerado um dos precursores do estilo nordestino do acordeon diatônico de oito baixos.
Este caso ilustrativo de transmissão se torna ainda mais interessante quando nos deparamos com as "variações" - pequenas fórmulas introdutórias edificadas sobre motivos melódicos, arpejos e escalas, praticados pelos sanfoneiros como "aquecimento" e identificação de tonalidades. Parte considerável deste verdadeiro "tesouro" melódico e metodológico se encontra na pesquisa que edificou o documentário e o livro "Com Respeito aos Oito Baixos" de nossa autoria, editado em 2013 através do Prêmio Funarte de Produção Crítica em Música.
Porém, se o olhar para o passado e seus desdobramentos de repertórios e práticas no processo adaptacional possuem um alto valor para a compreensão de como teriam se edificado os repertórios tradicionais seja realmente um interessante objeto de estudo, devemos ressaltar, que no momento em que o acordeon diatônico de duas carreiras de botões para a mão direita e oito baixos para a mão esquerda desponta em solo europeu, a metodologia impressa em livros e transmitida através de notação musical (tablatura e/ou partitura) foi algo importante e que arrefeceria com o predomínio dos acordeões unissonoros na virada do séc XX e o consequente declínio do acordeon diatônico entre as camadas mais privilegiadas economicamente. Olhar para estes documentos pode ser o vislumbre de uma das principais fontes irradiadoras de repertórios, técnicas e estéticas musicais que se amoldariam no processo adaptacional no estilo gaúcho da gaita-ponto, no estilo mineiro do calango e no estilo nordestino da sanfona de oito baixos "transportada", as três principais vertentes que envolvem a prática deste instrumento no Brasil. 
Entre os métodos publicados na Europa na segunda metade do séc XIX, está o "Novo Método de Acordeon de Irineo Echevarria", editado pelo autor em Aragon, Espanha e publicado em 1878. O estudo deste método pode conduzir a reveladores "insights" acerca de repertórios e técnicas. A primeira curiosidade deste trabalho é a transcrição musical estruturada em sistema de tablatura, mostrando a longevidade da escrita "prática" para instrumentos, tal como podemos verificar em métodos de alaúde escritos no séc.XVII. Neste caso, vale apontar o interessante sistema de tablatura com sinais gráficos da escrita musical - compassos, figuras de tempo e ritornelos.

Outra característica do método é a metodologia essencialmente prática, edificada sobre os repertórios, e se dividindo no acordeon de uma fileira de botões e o de duas fileiras. Na época, o modelo mais utilizado era a afinação dó/fá, substituída historicamente pela afinação sol/dó, mais brilhante e aguda. Abaixo, a planta de afinação diatônica europeia transcrita por Mario Salvi, que se distingue da afinação diatônica mais difundida no Brasil, devido a presença de notas alteradas (sustenidos) nos primeiros botões de cada fileira e no quinto botão da carreira interna apresentar as notas sol/lá.
Por fim, a coleção de danças que compreende o método reforça a influência das danças praticadas nos salões nos bailes do final do séc.XIX, até hoje praticados nos repertórios europeus e das colônias. Entre essas danças, estão as polcas, valsas, habaneras e schotis, entre outras modalidades menos difundidas no Brasil, como a Redowa, muito praticada pelos acordeonistas de países hispano-americanos como o México, por exemplo.

Assim, concluímos que a influência dos conteúdos impressos nos métodos oitocentistas podem ter sido uma importante fonte irradiadora da prática  musical do acordeon diatônico em países europeus e em suas respectivas colônias, podendo ter norteado os conteúdos transmitidos posteriormente no processo de transmissão oral que delimitaria este instrumento no séc.XX.

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