Familiares
de Arlindo dos Oito Baixos, Abelardo da Hora e Selma do Coco idealizam
projetos para manter legado artístico (Foto: Luna Markman / G1 -
Katherine Coutinho/G1 - Rafael Passos/Secom-JP)
Nos últimos anos, Pernambuco perdeu grandes ícones de sua cultura.
Ariano Suassuna, Abelardo da Hora, Reginaldo Rossi, Selma do Coco,
Dominguinhos, Arlindo dos Oito Baixos, Mestre Camarão. Nomes que
consolidaram o estado como polo musical e artístico no cenário nacional e
que fizeram de suas vidas patrimônio de uma época e de um povo. Após a
morte, o que deveria ser permanente – a memória – acaba se enfraquecendo
diante da falta de apoio e da presença de espaços e símbolos que honrem
o legado que cada um deixou, depois de décadas de produção cultural.
Escutar a música e as histórias de Selma do Coco, contemplar as
esculturas de Abelardo da Hora ou dançar um forró dominical aos moldes
do que Arlindo dos Oito Baixos fazia. São ideias que familiares e
produtores dos artistas tentam manter acesas, mesmo diante de um cenário
não muito animador de crise e de pouco investimento no âmbito cultural.
Em comum, os três projetos visam a valorização e perpetuação do legado
desses artistas pernambucanos que morreram recentemente. Em diferentes
estágios para se tornarem concretas, as propostas seguem no papel, mas
se mostram essenciais para que a história não se perca na desinformação.
Abelardo da Hora Filho está à frente do instituto que preserva a memória de seu pai (Foto: Vitor Tavares / G1)
Família de Abelardo quer casa-museu
Foi em 2006 que um dos maiores artistas plásticos do Brasil, Abelardo
da Hora, adquiriu um terreno ao lado de sua casa, no bairro da Boa
Vista, no
Recife,
para construir a sede do instituto que leva seu nome. A ideia era fazer
uma construção arrojada, para abrigar salas dedicadas a diversos tipos
de arte, além de expor permanentemente peças do seu acervo.
Hoje, o local entre as ruas do Sossego e Cardoso Ayres ainda é um
grande vazio. Tem apenas duas cobertas e guarda algumas das obras de
Abelardo. Em setembro de 2014, o então governador de Pernambuco, João
Lyra Neto, compareceu ao velório do artista e prometeu ajudar no que
fosse possível para consolidar o Instituto Abelardo da Hora. Quase um
ano se passou e, frente à desesperança quanto ao apoio institucional, a
família decidiu vender a área e se dedicar à casa onde Abelardo morava.
A ideia é fazer uma casa-museu, com pé-direito alto e onde os
visitantes possam ver algumas obras originais, além de conferir o local
em que o artista trabalhava e descansava. Lá, estão peças de temática
social, como “Flagelo”, “Sem Terra e Sem Vez”, “A Fome e o Brado”, sem
falar nas tradicionais esculturas de mulheres em poses sensuais. “Nos
sete meses que se passaram, o entendimento da família foi em manter
essas obras todas juntas, e não dividir para os filhos. A gente entende
que arte de Abelardo é do Recife, de Pernambuco e do Brasil, não de uma
família”, destacou Abelardo da Hora Filho.
Esculturas estão espalhadas pela casa de Abelardo, que deve se transformar num museu
(Foto: Vitor Tavares / G1)
Ao todo, no local há cerca de 1,5 mil obras, entre esculturas e
desenhos. E novos trabalhos de Abelardo ainda aparecem, a cada procura
pelos antigos móveis. Recentemente, o filho achou, nas gavetas do pai,
80 desenhos inéditos, todos sobre terreiros de umbanda e orixás. Nos
corredores estão esculturas de todos os tipos, e casa está intocada, do
jeito que o mestre deixou.
Espaço onde seria erguida a sede do Instituto
Abelardo da Hora deve ser vendido
(Foto: Vitor Tavares / G1)
O Instituto Abelardo da Hora, além de querer construir o museu, mantém
atividades para a preservação da memória. No Recife, por exemplo,
existem cerca de 600 obras de Abelardo espalhadas pela cidade, em
espaços públicos e privados. Algumas dessas obras, através de uma
manutenção malfeita, perdem as características originais. Antes de
morrer, o artista ainda deixou alguns projetos em andamento, que devem
ser levados adiante pela família, como a Torre Cinética na Praça da
Torre, monumento derrubado na ditadura militar; o busto de Gregório
Bezerra; e uma obra no Hospital da Mulher da Prefeitura do Recife.
“Impressionante como a memoria do povo é curta, por isso a gente
realmente tem que lutar pela preservação da memória da grande figura que
foi meu pai. Mas não há nenhum diálogo entre nós e poder público, até
porque não há recursos para nada. Quando a gente tiver uma brecha, vamos
buscar”, comentou Abelardo da Hora filho. Para agosto, está prevista
uma exposição inédita do artista na Caixa Cultural do Recife, em
celebração aos 90 anos de nascimento.
A casa de Abelardo da Hora segue aberta para visitação, mas de forma
agendada. Os interessados devem entrar em contato através do número
3221-0773.
Dona Odete e o produtor Roberto Andrade lamentam não conseguir manter festas de forró em Dois Unidos (Foto: Vitor Tavares / G1)
Casa arrumada, mas sem Forró do Arlindo
Todos os dias, a viúva de Arlindo dos Oito Baixos, dona Odete Macedo,
arruma o espaço destinado ao forró que o marido construiu nos fundos de
sua casa, em Dois Unidos, Zona Norte do Recife. O espaço ganhou até uma
placa nova, segundo dona Odete há cerca de dois meses, identificando
como ponto de difusão da cultura nordestina. Só que, sem dinheiro e sem
nenhum tipo de apoio, dona Odete e o produtor de Arlindo, Roberto
Andrade, pararam as atividades do espaço no último mês de março.
O Forró do Arlindo foi criado em 2000, como um encontro de amigos. Foi
crescendo e virou um espaço de efervescência do forró na Zona Norte,
reunindo nomes como Marinês, Santanna e Dominguinhos. O espaço também
preservava a sanfona dos oito baixos, modelo diferenciado usado por
poucos forrozeiros. Organizar a festa em que batia ponto todos os
domingos era a coisa que mais dava prazer em Arlindo, até quando a saúde
dele permitiu. O pernambucano morreu em setembro de 2013, após
problemas decorrentes de diabetes.
O cenário hoje no Forró do Arlindo é um misto de organização e
abandono. As mesas estão organizadas, as toalhas floridas fazem a
decoração, e o chão é varrido constantemente. A estrutura, entretanto,
padece. O maior problema é no telhado, que está solto em algumas
partes, com goteiras e podendo causar até um acidente. “Eu venho aqui,
arrumo, porque qualquer pessoa que pedir para ver como é o espaço, ele
está todo ajeitadinho. Todo dia eu organizo, mas não posso mais me
comprometer com as festas”, falou dona Odete.
Espaço do Forró de Arlindo sofre com falta de estrutura (Foto: Vitor Tavares / G1)
A vontade de manter o forró existe, além de criar um espaço de
preservação para a sanfona dos oito baixos, com oficinas regulares. O
problema é que, ganhando apenas uma aposentadoria, Odete não pode
garantir a festa. Precisa ter capital de giro para alugar som, pagar
artistas, bancar os bares e as comidas. “Arlindo sempre queria manter a
tradição que ele ajudou a propagar até quando pôde, dá uma tristeza ver
isso aqui sem movimento”, destacou Roberto Andrade.
Produtor de Arlindo nos últimos 15 nos de vida do forrozeiro, Roberto
tem a ideia de transformar o espaço em um polo junino, além de ter uma
programação anual de festas e também oficinas de sanfoneiros. Ele
prepara uma maratona de reuniões com os governos estadual e municipal
para tentar viabilizar algum projeto. Pensa, inclusive, em criar tours
dedicados ao forró no Recife, com visitação no espaço. Para este ano,
pelo menos uma grande festa deve acontecer: o 15º aniversário do local,
em setembro.
Casa de Arlindo tem placa informativa da Prefeitura,
mesmo sem ter mais programação
(Foto: Vitor Tavares / G1)
Desde que Arlindo morreu, dona Odete não foi procurada oficialmente por
nenhum representante do governo para conversar. A época de São João
passou e, com ela, a tristeza de não conseguir fazer as festas no
período mais querido pelos forrozeiros. “Recebi muitas ligações, as
pessoas pedindo que eu organizasse, que é uma pena não ter mais. O povo
lembra muito ainda dele, sempre me procuram, mas o espaço não estou
conseguindo manter. Mas se Deus quiser isso aqui vai voltar a ser o que
era”, disse a viúva. Em 2012, Arlindo dos 8 Baixos ganhou o titulo de
Patrimônio Vivo de Pernambuco.
A Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Cultura, disse que,
por se tratar de um espaço privado, a família precisa apresentar um
projeto da Fundação de Cultura da cidade, com contrapartidas sociais,
para receber apoio. Em relação à placa que dona Odete diz ter sido
colocada este ano, a Secretaria de Turismo e Lazer informa que foi
instalada no primeiro semestre de 2014, através de um projeto de
sinalização turística.
Casa de Selma do Coco tem pintura no muro indicando espaço cultural (Foto: Vitor Tavares / G1)
Briga de família e os sonhos de Selma
Enquanto estava viva, até o último mês de maio, Selma do Coco dizia aos netos que sonhava em ter espaço dedicado ao coco em
Olinda.
Ela, que ajudou a difundir o ritmo pelo Brasil, queria perpetuá-lo
mesmo depois que partisse. A cantora também se tornou Patrimônio Vivo do
estado em 2012.
O problema da família de Selma do Coco está em torno da casa onde ela
morava, no bairro do Amparo, em Olinda. A cantora viveu no local até
seus últimos dias, com um dos seus netos, Alexandre. O
G1
foi ao imóvel, que tem o nome “Espaço Cultural” no muro, mas o neto se
limitou a dizer que não poderia conversar com a reportagem por
orientação de advogados. Informou, entretanto, que gostaria de manter
viva a memória de Selma.
Outro grupo de netos e parentes de Selma, por sua vez, já tem um
projeto na cabeça. Querem um ponto de cultura destinado ao ritmo
pernambucano. “Ela sempre manifestou interesse em fazer algo, mas, por
questão de idade e alguns problemas, preferiu deixar quietinho. A ideia é
difundir o coco de roda, até o Japão, mostrar quem era Selma através do
resgate das cantigas antigas. A gente quer mostrar quem foi Selma:
negra, pobre, vendedora de tapioca e cerveja para manter a
sobrevivência”, disse Jaqueline Leite, nora de Selma do Coco
Viúva aos 33 anos, a cantora só teve três filhos, todos falecidos, mas
criou diversos sobrinhos e netos. Trabalhou com música para manter
todos. De acordo com os parentes, a partir de julho, eles vão tentar
organizar o projeto para tentar verba junto aos governos estadual e
federal. Ainda não há definição sobre a casa onde ela morava, pois a
briga está na Justiça. “Ela engrandeceu não só a família, mas
Pernambuco, levando o coco de roda para mundo”, finalizou Jaqueline.
Em nota, a Prefeitura de Olinda informou que, até o momento, não existe
projeto para preservação da memória de Selma do Coco, mas que realiza
seminários e encontros destinados ao coco na cidade.
Procurada pelo
G1, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) não deu retorno até a publicação desta reportagem.