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12 de fev. de 2012

Dos 8 aos 120 baixos, de Januário a Luiz Gonzaga – Algumas impressões sobre a sanfona na região Nordeste Leo Rugero


Olá amigos,

segue abaixo a versão integral do artigo publicado parcialmente na revista da Unidos da Tijuca. As notas se encontram no final do texto.

Saudações sanfoneiras,

Leo Rugero




Dos 8 aos 120 baixos, de Januário a Luiz Gonzaga – Algumas impressões sobre a sanfona na região Nordeste            
Leo Rugero

No dia 23 de maio de 1829, construtor de órgãos austríaco Cyrill Demian registrava a patente de seu novo invento, um instrumento musical que seria batizado como “acordeom”. A novidade despertaria o interesse de outros construtores de instrumentos, suscitando o surgimento de novos modelos e formatos. Aos poucos, a invenção se espalharia por toda Europa e conseqüentemente para as respectivas colônias.
A partir da segunda metade do séc. XIX, o acordeom começa a ser amplamente difundido no Brasil, processo que se intensifica através da maciça migração italiana na região Sul. Em meio à leva de imigrantes, estavam instrumentistas e construtores de acordeom, que a essa altura, já havia se tornado uma verdadeira febre na Europa.
Entretanto, ainda não sabemos detalhadamente como o acordeom se espalhou no Nordeste brasileiro. Provavelmente, isso teria ocorrido ao longo do Séc.XIX, pelas mãos de mascates, tropeiros, caixeiros-viajantes. Na virada do Séc. XX, o instrumento começa a adquirir relevo nas práticas musicais desta região, com a rápida assimilação de um modelo específico de acordeom diatônico, que passou a ser regionalmente conhecido como fole de oito baixos ou sanfona de oito baixos. Para o musicólogo paraibano Baptista Siqueira, a sanfona teria gradualmente substituído a viola de arame[1] no contexto dos bailes rurais[2]. Como as sanfonas eram pequenas, leves, facilmente transportáveis, e ainda poderiam conservar a afinação por um período longo de tempo, o instrumento teria sido facilmente adaptado à vida nômade de tropeiros e cangaceiros ou mesmo entre vaqueiros e boiadeiros a serviço dos latifúndios, de forma análoga ao que teria ocorrido na região cisplatina[3]. Destes instrumentos poderia se extrair um som de forte intensidade, capaz de ser ouvido a distância, sendo ideal para os bailes “nas salas das choupanas, em danças animadas, nas vivendas dos pés de serra”[4].
Na região Nordeste, este tipo de acordeom recebeu uma afinação peculiar, um repertório específico e um estilo característico. Devido à presença intrínseca em festividades, difundiu-se entre as populações da zona rural e de periferia urbana, constituindo o imprescindível papel do ”sanfoneiro” em atividades sociais como casamentos, batizados, festas do ciclo junino, sobretudo no contexto de instrumento animador dos bailes (forrós). O repertório tradicional foi sendo construído através da apropriação e adaptação de danças européias que haviam sido aclimatadas aos sertões, tais como valsa, scottish(xote),  polca e quadrilha. Também seriam incorporadas danças de provável origem autóctone como o baião e o xaxado que, mais tarde, viriam a ser adaptadas por Luiz Gonzaga ao contexto fonográfico de sua época. A consolidação de um mercado fonográfico para a produção de música de origem nordestina se solidificaria com a consagração de Luiz Gonzaga no Rio de Janeiro nas décadas de 1940 e 50[5], possibilitando que o estilo nordestino da sanfona obtivesse reconhecimento e conquistasse um segmento significativo no mercado fonográfico destinado a música nordestina.
A venturosa carreira fonográfica de Gonzaga se inicia no dia 14 de março de 1941, quando realiza suas primeiras gravações como solista de acordeom nos estúdios da RCA-Victor, no Rio de Janeiro. A primeira música que gravou foi  “Vira e Mexe”, um solo instrumental que despertaria o interesse de público e crítica, não apenas devido a brejeirice e vivacidade do intérprete. bem como ao domínio técnico e o estilo inovador trazido pelo solista.
O que havia de tão diferenciado no estilo de Luiz Gonzaga? Para responder a isso é necessário regressarmos ao passado, em direção à Serra do Araripe, mais precisamente na Fazenda Caiçara, terras outrora pertencentes ao coronel Gauder Maximiliano Alencar de Araripe, o Barão de Exu[6]. Foi bem ali, pleno sertão de Pernambuco, que em 13 de dezembro de 1912, dia de São Luiz Gonzaga, viria ao mundo o primogênito do casal Januário José dos Santos e Ana Batista de Jesus. Ainda pequeno, o menino Luiz Gonzaga começaria a se interessar pelos sons extraídos da sanfona de oito baixos pelos dedos ágeis de seu pai, respeitado tocador e afinador de sanfonas da região. Logo, não demoraria muito para que o rebento seguisse os passos do pai Januário. Em 1920, por intermédio do Coronel Manuel Aires de Alencar, o menino Gonzaga adquire seu primeiro instrumento, uma sanfona de oito baixos Koch, marca Veado[7]. Vieram então os primeiros bailes e o filho de Januário foi adquirindo prestígio e despertando admiração entre os arredores da Serra do Araripe.
 Assim, Luiz Gonzaga foi crescendo, com seu forte temperamento artístico moldado pela tradição músico - poética dos sertões: os aboios dos vaqueiros, os desafios dos cantadores, as ladainhas das cantadeiras, a música das bandas de pífanos e sobretudo, o som da sanfona de oito baixos do velho Januário, tal como um crisol, refletindo todas as influências circundantes. E foi esta bagagem que Luiz Gonzaga levou consigo em seu “matulão”, desde quando arribou o pé de casa, ainda com “dezoito anos incompletos”[8]. Algum tempo depois, na década de 1930, Luiz Gonzaga viria a conhecer  o acordeom de cento e vinte baixos com teclado de piano para a mão direita, modelo então muito em voga na região Sudeste. Prontamente adquire um exemplar do instrumento e através de um colega do Exército, o mineiro Domingos Ambrósio, aprende a tocá-lo.
Portanto, o estilo inconfundível delineado por Luiz Gonzaga se desenvolve a partir do equilíbrio entre a prática musical da sanfona de oito baixos da região Nordeste e a incorporação do acordeom de cento e vinte baixos, tão presente nos centros urbanos da região Sudeste, mas ainda desconhecido no sertão nordestino. A partir de 1949, a definitiva consagração de Luiz Gonzaga com “O baião” tornaria o acordeom de teclado e cento e vinte baixos, um instrumento muito difundido no sertão nordestino.
Com o xote[9] “Respeita Januário” de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, a prática nordestina da sanfona recebe aquela que parece ser sua mais convincente perspectiva histórica. Esta música descreve uma visita de Luiz Gonzaga ao seu berço natal, o município de Exu, no alto sertão pernambucano, depois de sua consagração profissional no Sudeste, onde já havia recebido o título honorífico de “Rei do Baião”[10]. Luiz Gonzaga trazia em sua bagagem, um moderno acordeom de teclado e cento e vinte baixos, que, aquela altura, nas regiões interioranas, ainda consistia em uma “novidade”. Do mesmo modo, trazia a influência midiática de cantor, compositor e acordeonista de sucesso fonográfico e radiofônico. Porém, a certo momento da narrativa, surge um personagem, o vaqueiro conhecido como “Velho Jacó”, que adverte o rei do baião, dizendo: “Luiz, respeite os oito baixos do seu pai”.

Quando eu cheguei lá no sertão, eu quis mangar de Januário com meu fole prateado. Só de baixo cento e vinte, botão preto miudinho feito nego impariado. Mas, antes de fazer bonito, de passagem por Granito, foram logo me dizendo: de Itaboca à Rancharia, de Salgueiro à Bodocó, Januário é o maior! E foi aí que me falou meio zangado o “veio” Jacó: - Luiz, respeito os oito baixos, Luiz, respeito os oito baixos, Luiz, tu pode ser mais famoso, mas seu pai é mais tinhoso e com ele ninguém vai, Luiz. Luiz, respeite os oito baixos do seu pai!

Sendo o fole de oito baixos um instrumento que antecede historicamente o acordeom de cento e vinte baixos em quase um século, as construções simbólicas em torno das representações destes dois instrumentos na cultura nordestina foram edificadas ao redor  das relações entre pai e filho, moderno e tradicional, urbano e agrário, a migração nordestina para os grandes centros urbanos e a permanência do homem no campo.
Sob o impacto alvissareiro de “Respeita Januário”, um número  significativo de instrumentistas representativos da música instrumental praticada no fole de oito baixos nos bailes rurais, iniciam carreira fonográficas relativamente estáveis, a partir das gravações pioneiras do alagoano Gerson Filho, no Rio de Janeiro, em 1953. A produção de discos fonográficos torna-se, portanto, o eixo principal desta prática no contexto profissional, constituindo um verdadeiro “cordel sonoro” que acarretaria mudanças significativas nesta tradição musical permeada por uma permanente e incessante interlocução entre seus praticantes.
Passado mais de meio século, a sanfona de oito baixos e o acordeom de cento e vinte baixos continuam sendo os dois instrumentos solistas fundamentais na música nordestina destinada aos bailes, ou, melhor dizendo, “forrós”. O repertório tradicional continua sendo transmitido oralmente, de pai para filho e os inumeráveis êxitos fonográficos de Luiz Gonzaga continuam a vigorar, se intensificando sobretudo no período junino. Como dizia Luiz Gonzaga, “o fole de oito baixos é o pai do acordeom de cento e vinte baixos”. Portanto, o fole de oito baixos que era tocado por Januário “na beira do riacho[11]” e a sanfona de cento e vinte baixos, introduzida na música nordestina pelo filho Luiz Gonzaga, representam o conflito entre duas gerações nas práticas musicais que envolvem os bailes populares nordestinos, a tradição inventada e reinventada no fio do tempo.


Verbetes:

A sanfona de oito baixos é um tipo de acordeom diatônico, originado do modelo suíço, desenvolvido pelos construtores vienenses Drollinger e Hermann em 1836. Este instrumento é composto por uma, duas ou três fileiras de botões dispostos diagonalmente para a mão direita, e oito botões (notas graves - baixos e acordes de acompanhamento) para a mão esquerda. A principal característica dos acordeões diatônicos é a “bi-sonoridade”, ou seja, de acordo com a abertura ou fechamento do fole, cada botão ou tecla produz sons diferentes. Deste modo, o movimento do fole está diretamente relacionado à execução das melodias. Na região Nordeste é conhecido como fole de oito baixos, harmônica ou pé-de-bode, entre outras denominações. Muitos sanfoneiros de oito baixos adquiriram prestígio e reconhecimento, tais como Gerson Filho, Pedro Sertanejo, Zé Calixto, Abdias, Geraldo Correia, Arlindo dos 8 baixos, Luizinho Calixto e Heleno dos 8 baixos.

O acordeom de cento e vinte baixos pertence ao ramo dos acordeões cromáticos, que, ao contrario dos acordeões diatônicos, produzem a mesma nota para cada botão ou tecla, tanto no sentido de abertura quanto de fechamento do fole. O modelo mais difundido deste instrumento se caracteriza pelo teclado para a mão direita. Começou a ser amplamente divulgado a partir do inicio do século XX, sobretudo nos Estados Unidos, com o êxito fonográfico dos irmãos ítalo-americanos Guido e Pietro Deiro. No Brasil, o instrumento tornou-se uma verdadeira febre nas décadas de 1940 e 50, tendo sido amplamente divulgado por acordeonistas como Antenógenes Silva, Mario Mascarenhas e Alencar Terra. A facilidade digital proporcionada pelo teclado da mão direita e as possibilidades harmônicas dos baixos e acordes da mão esquerda, fizeram com que este instrumento fosse adotado por parte majoritária dos sanfoneiros profissionais. No nordeste, onde o instrumento é mais conhecido simplesmente como sanfona, tem surgido uma quantidade expressiva de representantes significativos, tais como Dominguinhos, Sivuca, Oswaldinho do Acordeom e Camarão.

Trio Nordestino - Luiz Gonzaga desenvolveu de forma alquímica, uma combinação sonora peculiar, que, devido ao êxito comercial do baião, se disseminou e popularizou, tornando – se uma formação “tradicional”. Segundo o depoimento de sanfoneiros como Dominguinhos e Zé Calixto, foi através de Luiz Gonzaga, que a formação de “trio nordestino” se propagou, e com a circulação massiva do repertório do baião, tornou-se preponderante em relação a outros conjuntos instrumentais. Basicamente, o trio nordestino é constituído de sanfona, triângulo e zabumba. De acordo com Zé Calixto, “o triângulo veio a ser mais explorado, depois que surgiu o baião. Pois o baião se identificou com o zabumba e o triângulo”. O próprio Luiz Gonzaga costumava assumir a invenção do “trio nordestino”, explicando como havia chegado a esta instrumentação.
Eu vinha cantando sozinho, mas eu precisava de um ritmo, porque a música nordestina precisava de ‘couro’ - couro que eu digo é couro de cachorro ou de bode, negócio pra bater, que aqui no Rio de Janeiro se usa couro de gato. Então primeiramente eu usei o zabumba baseado nas bandas de couro lá do sertão que a gente chama de ‘esquenta muié’. Mas, a zabumba só, eu fiquei assim com “asa quebrada”, até descobrir um instrumento bastante vibrante, agudo, pra brigar com a zabumba. Até que vi, no Recife, passar um menino vendendo cavaco chinês[i] (...) tocando o “tinguilim”. Aí, ele fazia aquilo com uma certa cadência. Aí eu disse: - Pronto! Achei o marido da zabumba.

Desde então, o trio nordestino se tornou a formação principal dos conjuntos de forró: sanfona, zabumba e triângulo.

Zabumba. Tambor circular, constituído de duas membranas, uma superior, tocada com baqueta felpuda, conhecida como “marreta”, e outra, inferior, tocado por baqueta fina conhecida como “bacalhau”. Deste modo, possui a conjugação timbrística do acento grave (superior/marreta) e da resposta aguda (inferior/bacalhau).

Triângulo. Instrumento idiofone, pequena armação triangular de alumínio tangida com um pequeno bastão. Antigamente, eram feitos com ferragem, daí o nome de “ferrinhos” em Portugal. Antes de Luiz Gonzaga, este instrumento era conhecido pelo nome de Tinguilim.









[1] Viola de arame: Um dos nomes atribuídos à viola, cordofone de cinco pares de cordas dedilhadas, muito difundido durante o período de colonização do Brasil.
[2] Siqueira, Batista. A origem do termo samba. Rio de Janeiro, Ibrasa, 1977.
[3] Lessa, Barbosa & Cortes, Paixão. Danças e Andanças  da tradição gaúcha. Porto Alegre, Editora Garatuja, 1975.
[4] Siqueira, Batista. op.cit.
[5] Araújo, Samuel. “Brazil: Forró, music for maids and taxi drivers e Asa Branca: Accordion Forró from Brazil”. Revista de Música Latinoamericana. v. 12, n.1, p. 97 – 99, 1991.
[6] Segundo a história oral, o nome da localidade se deve à presença dos Índios Ansú, antigos habitantes da região.
[7] A Koch Company foi uma fábrica alemã que produziu entre 1903 e 1929, quando veio a ser absorvida pela Hohner. Provavelmente estes instrumentos eram importados pela Marca Veado, conhecida fábrica de cigarros da época.
[8] Referência ao texto narrado por Gonzaga em “Respeita Januário” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira).  A gravação original de “Respeita Januário” data de 13 de abril de 1950, pela gravadora RCA Victor, Rio de Janeiro.
[9] Corruptela de scottish, dança de origem européia.
[10] A gravação original de “Respeita Januário” data de 13 de abril de 1950, pela gravadora RCA Victor, Rio de Janeiro.
[11] Referência ao refrão do xote “Januário vai tocar”, de autoria do próprio Januário: “Ai, ai, sanfona de oito baixos do tempo que eu tocava na beira do riacho, ai, ai, sanfona de oito baixos, a cidade te acha ruim mas eu não acho”.








6 de fev. de 2012

Luiz Gonzaga, o Rei do Sertão - samba-enredo da Unidos da Tijuca 2012

Sábado passado, dia 04 de fevereiro, ocorreu o famoso "Bacalhau do Pavão", evento promovido anualmente pelo Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos da Tijuca. Na edição deste ano, ocorrida no salão de eventos do Hotel Windsor da Barra, foi lançada a edição anual da revista "Tijuca", editada pela Escola. Dirigida por Bruno Tenório, a edição deste ano foi dedicada a Luiz Gonzaga, tema do samba-enredo da Unidos da Tijuca em 2012, em comemoração ao centenário do rei do baião. 
Esta revista é distribuida gratuitamente em diversos locais da cidade do Rio de Janeiro. Nesta edição, tive a oportunidade de colaborar com um artigo sobre a influência da sanfona de oito baixos e do acordeom de cento e vinte baixos na música nordestina. Os dois instrumentos são representados de forma simbólica por Januário e Luiz Gonzaga, pai e filho, dos 8 aos 120 baixos.
Abaixo, segue a capa da revista e o artigo, além de algumas fotos do evento.
Para baixar este artigo, clique aqui
Para acessar este texto na íntegra, clique aqui








                               
                                                       Bruno Tenório e Leo Rugero

Januário e suas sanfonas de oito baixos (parte I) - por Leo Rugero

Muito se tem especulado a respeito das sanfonas de Januário, porém pouco se sabe sobre o destino destes instrumentos. No entanto, algumas destas sanfonas foram presenteadas por Januário a seus filhos, que, por sua vez, passaram-nas adiante. Ao menos três histórias de sanfonas de Januário foram registradas durante minha pesquisa de campo e permitem-nos constatar a legitimidade destes exemplares que foram adquiridos, adaptados e afinados  pelo velho Januário.

Hering Beija-Flor 1928.  Alfred Hering foi um migrante alemão radicado em Blumenau, onde não apenas fixou-se com sua família, como fundou uma importante fábrica de instrumentos musicais, a Hering. A influência desta empresa no mercado de sanfonas de oito baixos foi superada apenas pela Todeschini em termos de popularidade e qualidade de seus instrumentos.
De acordo com Zé Gonzaga, Januário teria adquirido esta sanfona em 1928 (ver foto). Atualmente, o instrumento está em posse de Joquinha Gonzaga, filho de Muniz, sobrinho de Gonzaga e Neto de Januário. O instrumento foi transportado, isto é, adaptado ao sistema nordestino por Januário e ainda está valendo o quanto pesa. Prova disso é a gravação de Joquinha da música "No Ronco dos oito baixos".

Honer, c.1920 (?). Atualmente este instrumento faz parte do espólio de José Nobre, diretor e curador do Museu Fonográfico Luiz Gonzaga, localizado em Campina Grande. No Museu, há um texto explicativo sobre a história deste instrumento, que abaixo transcrevo.

“Esta harmônica, conhecido fole pé-de-bode, pertenceu a Januário José dos Santos, lavrador, sanfoneiro, consertador de fole, pai de Luiz Gonzaga. O Rei do Baião presenteou este fole a Arlindo dos 8 baixos, um dos melhores afinadores de sanfona da região Nordeste, no Recife, a quem o cantador do sertão confiava seus instrumentos. Assim Luiz Gonzaga expressou-se a Arlindo dos 8 baixos: - Estou lhe dando esta harmônica, que antes de ser minha foi do meu pai Januário. Na minha adolescência eu tocava com ela, ajudando o velho”.  



Hering/Honer. Este instrumento foi presenteado por Januário à sua filha, Francisca. É uma sanfona de 8 baixos modelo acordeom da Hering.  Provavelmente, o letreiro da Hohner foi colocado em substituição ao letreiro original. Existe, inclusive, uma foto jornalística de meados da década de 1950, em que aparece Januário passando esta sanfona para Chiquinha. De cor avermelhada, essa oito baixos acompanhou Francisca no decorrer de sua carreira e aparece em capa de discos e performances da cantora em que ela se acompanhava com o instrumento. Falecida em 2011, provavelmente a sanfona ficou aos cuidados dos herdeiros de Chiquinha Gonzaga.



Portanto, podemos concluir que estes exemplares foram de fato afinados e customizados por Januário, tendo sido empunhados por seus herdeiros. Com certeza, Januário teve outros instrumentos, cuja história ainda está em vias de ser contada. Quem souber algo sobre sanfonas que tenham pertencido ao velho Januário, por favor, entre em contato conosco, para ajudar-nos a escrever detalhadamente as histórias das sanfonas de Januário.

7 de ago. de 2011

Januário, seus filhos e sua sanfona de oito baixos - O Balaio De Veremundo

Enviado por tikacrazy em 06/08/2011
"Uma música memorável para o forró, seu Januário tocando com seu filho Luiz Gonzaga.
Nas recordações de infância de Luiz Gonzaga, seu pai aparece como um sanfoneiro respeitado das redondezas (Exu / PE). De forma mítica, Januário é apontado como o pioneiro da sanfona nordestina."

Maravilha de postagem, só faltou, mais uma vez, colocar referência ao autor da frase que aponta Januário como figura mítica. A frase acima foi extraído da entrevista concedida à Carolina Santos, publicada no Diário de Pernambuco no dia 26 de junho de 2011

Letra:
O Coroné Veremundo
Dança ruim mais invento
Uma dança que o Salgueiro
Cum seu nome batizou
O Balaio de Veremundo
Tem as minhas de autor

Pra você dançá balaio
Tem que ficá balançando
Jogando o corpo pra trás
Cuma quem vai se deitando
Depois imbicá pra frente
E ficá gineteando

O balaio de Veremundo
São dois ramo num só gáio
Duas "arma" num só corpo
Duas cartas no baráio
Quem fala em Veremundo
Tem que falá no balaio

No balaio, o Veremundo
Tem cincoenta ano de ensaio
Vai fazê bôda e ôro
De casado e do balaio
Só pra ver o home dançá
Ôi, nesta festa eu não fáio

Pra essa festa vão os Danta
Os Gonzaga e os Carváio
Alencar num vai fartá
Vai Rumão, e vai Sampaio
Pra dar viva a Veremundo
O inventor desse balaio

28 de jun. de 2011

Januário e sua sanfona de oito baixos - texto de Leo Rugero




Pouco sabemos a respeito de Seu Januário, pai de Luiz Gonzaga e “vovô do baião”. José Januário dos Santos nasceu em Floresta, sertão de Pernambuco, no dia 25 de setembro de 1888, ano da Abolição da Escravatura. Alguns dizem que Januário não teria nascido em Floresta, mas em algum outro município dos arredores. Também não se sabe, ao certo, em que ano Januário chegou à Fazenda Araripe, nas terras pertences ao Coronel Manuel Aires de Alencar, filho de Gauder Maximiliano Alencar de Araripe, o Barão de Exu. Pelo que conta a história oral, esta palavra homônima do orixá africano, é uma corruptela de Ansú (?), grupo indígena que habitava a Serra do Araripe. Daí o nome daquele latifúndio pertencente ao Barão ter sido posteriormente batizado de Exu.
Januário trabalhava como agricultor e na confecção de couro. Não se sabe como Januário teria aprendido a tocar e afinar sanfona de oito baixos. Teria sido sozinho, isolado no sertão pernambucano? Alguns dizem que ele teria conhecido um mascate judeu na Chapada do Araripe.
Nas recordações de infância de Luiz Gonzaga, seu pai aparece como um sanfoneiro respeitado das redondezas. De forma mítica, Januário é apontado como o pioneiro da sanfona nordestina. Com certeza, haviam outros sanfoneiros, com seus solos de sanfona que talvez tenham sido levados para sempre no vento que sopra nas catingas, a espera de que alguma fotografia ou lembrança familiar seja encontrada para que a história possa ser reescrita. Se sabemos algo mais sobre Januário, isso se deve à Luiz Gonzaga. Graças às letras e narrativas de Gonzaga, conhecemos tão bem certos personagens e detalhes daquela região que muito provavelmente estariam esquecidos, ou, ao menos, escondidos por trás da espessa mato do cerrado.
A atuação profissional de Januário no contexto fonográfico foi errática, tendo ocorrido em 1955, na gravadora RCA-Victor, quando gravou dois discos de 78 rotações, acompanhado de sua prole. No selo dos discos, o velho sanfoneiro era apresentado como “Januário, seus filhos e sua sanfona de oito baixos”. Nestas gravações, podemos ouvir a “sanfona abençoada”, tal como se refere Luiz Gonzaga no xote “Januário vai tocar”. A letra autobiográfica, discursa sobre o papel social do sanfoneiro nos bailes interioranos e reforça a relação deste instrumento com o passado rural e as populações menos favorecidas economicamente: “a cidade te acha ruim, mas eu não acho".

Ai, ai, sanfona de oito baixos,
Do tempo que eu tocava na beira do riacho.
Ai, ai, sanfona de oito baixos,
A cidade te acha ruim, mas eu não acho

Lá na Taboca, no Baixio, lá no Granito,
Quando um cabra dá o grito: - Januário vai tocar!
Acaba feira, acaba jogo, acaba tudo,
Zé Carvalho Carrancudo tira a cota pra dançar.

Outra música gravada por Januário é o solo instrumental “Calango do Irineu”, que pode nos revelar um pouco da técnica e do estilo pessoal de Januário. Neste baião, está presente a 7a menor da escala maior, tão característica da música trazida por Luiz Gonzaga. Também estão as 3as paralelas e consecutivas, segundo o maestro Guerra-Peixe, uma reminiscência do gymel, uma técnica de harmonização medieval surgida na Inglaterra tão presente na música brasileira. Acima de tudo, nesta música encontramos aquele “tempero” que torna peculiar o estilo nordestino de tocar sanfona, que é facilmente perceptível ao primeiro toque, embora difícil de ser descrito em palavras.
Alguns anos antes, em 1950, Januário seria apresentado ao grande público, através do disco e do rádio, por seu filho, Luiz Gonzaga e o parceiro Humberto Teixeira, com o xote “Respeita Januário”. Numa narrativa metalingüística, Gonzaga descreve seu deslocamento de Exu, foragido de uma briga, da qual foi ameaçado de morte, e a longa epopéia que culmina com o retorno ao berço natal, já consagrado como Rei do Baião no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Escrito com tinturas épicas de uma saga nordestina, o relato de Gonzaga tornou-se maior e mais real do que a história literal, onde personagens ganham vida em diálogos que teriam sido inventados, mas que acabaram tomando vida própria e se eternizando de forma mítica na imaginação popular. Muito provavelmente, pela primeira vez, na história da canção popular urbana, se versava sobre a sanfona de oito baixos e o papel social do sanfoneiro no sertão nordestino. Outro aspecto salientado pela letra desta canção é a relação de constante recusa e desafio entre pai e filho que permeia a transmissão da herança cultural, que não é ensinada, mas é aprendida.
No ano de 1952, Luiz Gonzaga reuniu seu pai e seus irmãos, formando o conjunto “Os Sete Gonzagas”, que realizou apresentações inesquecíveis nas rádios Tupi, Tamoio e Nacional. Por sorte, estas gravações foram registradas em áudio, e podemos ouvir as performance de Januário ao vivo.
No entanto, Januário poderia ser aquele personagem da letra de Gilberto Gil para a melodia “Lamento Sertanejo” de Dominguinhos. Avesso à cidade grande, “por ser de lá do sertão, lá do roçado, lá do interior do mato, da catinga e do roçado”. Januário não se adaptou ao sitio dos Gonzaga em Santa Cruz da Serra, no Rio de Janeiro. Preferiu voltar a Serra do Araripe, entre a catinga e o roçado, na lavoura, tocando sanfona de oito baixos na beira do riacho.
No entanto, a despeito de sua atuação profissional em música ter sido tão breve e fugaz, sua herança foi transmitida através dos filhos; Luiz Gonzaga, Zé Gonzaga, Severino Januário e Chiquinha Gonzaga. Através deles, a música do velho Januário foi ressignificada ao contexto fonográfico, se entranhando na alma nordestina, como se fizesse parte da paisagem sertaneja, traduzindo em contornos melódicos a poética do sertão.





Januário veio a falecer aos 90 anos, em 11 de junho de 1978, em Exu. Salve Januário, pai de Luiz Gonzaga e pioneiro da sanfona de oito baixos na região Nordeste.

27 de jun. de 2011

Januário - texto de Leo Rugero

Entre os dias 07 e 11 de junho, tive oportunidade de conhecer Exu, cidade natal de Luiz Gonzaga, por intermédio do programa Globo Repórter.O convite foi realizado em decorrência de minha pesquisa sobre a prática nordestina da sanfona de oito baixos. Viajei ao lado da excelente equipe formada pelo repórter José Raimundo, o produtor Jorge Ghiaroni, o cinegrafista Jota Junior e o assistente Toni Abreu. Embora tenha sido breve, foi uma viagem intensa, de muitos aprendizados.
No dia 08, visitamos o Parque Asa Branca. Outrora um sitio pertencente à Luiz Gonzaga, o parque abriga a Casa de Gonzagão, que foi a última moradia de Luiz Gonzaga; o Museu do Gonzagão, que coleciona instrumentos musicais, fotografias raras, partituras e objetos pessoais que pertenceram ao Rei do Baião; o Mausoléu do Gonzagão, onde se guarda o tumulo de Luiz Gonzaga; e, por fim, a Casa de Januário.
Como não poderia deixar de ser, escrevi um pequeno diário de campo e julguei relevante postar o trecho abaixo, por dois aspectos: primeiramente, por se tratar de uma reflexão sobre o momento da entrevista que foi selecionado para a edição final do programa. Em segundo lugar, pelo fato de corresponder a Casa de Januário, figura mítica que ocupa o posto de patrono da sanfona de oito baixos na região nordeste.
A Casa de Januário tem algo de mágico. Esta casa carrega um apelo irresistível, talvez por conter um elemento pitoresco: é decorada como uma casa, e não como um museu. Deste modo, há um tom acolhedor no ambiente onde a sugestão é que Januário ainda estivesse presente naquele lugar. A varandinha, com duas cadeiras. O quarto, com a cama, o cajado e o quadro com os filhos. Seu Januario e Dona Santana nas fotografias em porta-retratos. O oratório no centro da sala. Um antigo gramofone e um rádio de pilha sobre a mesa perto da janela. Uma sanfona antiga. O forno à lenha da cozinha...
 Me imaginei tomando um cafezinho e trocando dois dedos de prosa com o velho Januário. E foi nesta casa, em meio a este ambiente, que ocorreu aquele que foi o registro escolhido pelos editores do programa: o pesquisador, visivelmente emocionado, ao deparar-se com uma antiga sanfona que teria sido montada por Januário. Para alguns, este instrumento jamais teria pertencido ao “vovô do baião”, o que só vim a saber depois das filmagens. Mas como sabê-lo? Januário era artesão e afinador, e é natural imaginar que ele mantinha vários instrumentos, muitos dos quais jamais tenha utilizado profissionalmente. No marketing do museu, esta sanfona é mostrada como um instrumento construído por Januário, o que pode não condizer com a verdade. É uma sanfona de provável origem alemã ou francesa, que deve ter sido construída ainda no séc. XIX. No entanto, Januário pode ter reaproveitado partes de instrumentos para remontá-la, o que é muito comum entre os artesãos que trabalham com sanfonas antigas do Nordeste. Em minha coleção particular, possuo ao menos três sanfonas que já perderam sua identidade original, de tal modo que foram modificadas, tanto em seus componentes internos como em seu aspecto externo. Na matéria, o instrumento foi apresentado como uma das mais antigas sanfonas do Brasil, o que é justo, porém, teria sido realmente montada por Januário? Teria este instrumento chegado ao sertão na época de sua construção? Mais uma vez, a verdade literal cede à licença poética, e aquele velho instrumento responde aos anseios de uma resposta à origem, ao marco-zero, ao que há de mais ancestral na cultura. E a razão cede à fantasia do momento. E o pior: a imagem do pesquisador emocionado que confirma a antiguidade do instrumento e é levado pela “folclorização” a acreditar que ali está um fóssil do passado da sanfona nordestina. 
Há um aspecto da musicologia que pode afeiçoar-se ao trabalho arqueológico das escavações do passado. E nossas conclusões fenecem ao tempo, tal como fenecem os fósseis. Foi esta a imagem escolhida para a edição final do programa. Talvez, por apresentar uma particularidade: não dizer nada e ao mesmo tempo dizer tudo. E reforçar a natureza mítica de um discurso avesso ao rigor teórico acadêmico, que encontra ressonância no poder do mito contido simbolicamente nas imagens. No caso, a sanfona de Januário, um mito fundador da prática nordestina da sanfona de oito baixos. O pesquisador, cabisbaixo, cede a fugacidade momentânea e incorre no possível erro de deixar-se levar pelo vento do momento, concordando com o valor atribuído ao objeto, e de tudo aquilo que sabe, acaba revelando ao público aquilo que não sabe, sua santa ignorância, irmanando-se com o espectador comum que está descobrindo aquele assunto assim como o pesquisador e o apresentador naquele dado instante. Agora é tarde, e a história é reescrita a mercê de sua própria sorte, através da arte daqueles que a escrevem.


Foto: Leo Rugero

Foto: Jota Jr