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7 de set. de 2016

Encontro de Gerações de Tocadores de Sanfona de 8 baixos e Interculturalidades

O mês de setembro foi coroado no Rio de Janeiro com dois eventos significativos que trouxeram à baila a prática da sanfona de oito baixos, graças ao empenho de Mirele Guedes e Guilherme Mará, a frente do Núcleo de Expressão e Divulgação da Sanfona de Oito Baixos no Brasil.
No dia 04 de setembro, ocorreu o Encontro de Gerações de Tocadores de 8 baixos, no Parque das Ruínas em Santa Teresa, reunindo Zé Calixto, seus discípulos Guilherme Mará e Léo Rugero e Chico Paes de Assaré. Além da presença dos sanfoneiros, o evento contou com a participação especial de Beto Lemos(Rabeca), Geraldo Junior(voz), Rodrigo Ramalho(triângulo), Marcelo Mimoso(voz), Chris Mourão(percussão) e o mestre Durval Pereira no zabumba.
No dia 05, houve o evento "Sanfonada", inserido dentro do projeto Interculturalidades, promovido pela UFF. Numa mesa-redonda e apresentação muito especial, além dos sanfoneiros citados anteriormente, houve a presença estelar de Renato Borguetti, ícone da gaita-ponto e um dos baluartes da renovação do acordeon diatônico no Séc.XX. O acompanhamento ficou ao encargo de excelente regional formado por Valter 7 cordas (violão), Carlinhos Calixto(cavaquinho), Beto Marrom(pandeiro), Giló(triângulo) e Durval Pereira(zabumba). Numa apresentação inspirada, conseguiu-se levantar a plateia, sobretudo quando Guilherme Mará tocou a quadrilha "Polquinha da Dona Josefa Martins", arrancando aplausos entusiasmados. Outro momento de ápice foi Borguetti interpretando "Felicidade"de Lupcínio Rodrigues, contracantada por Zé Calixto e entoada por toda a platéia. Além disso, Zé Calixto e sua célebre interpretação de "Escadaria" e Borguetti com a arrebatadora interpretação de "Milonga para as Missões"deram o tom da noite, com um auditório repleto e entusiasmado. 
Que esta caravana possa percorrer os palcos deste Brasil afora, esse é o nosso maior desejo, em prol da valorização e do redimensionamento do fole de oito baixos no Brasil.






17 de fev. de 2015

Mais um desabafo...

Até quando seremos esta linda e trágica Belíndia, dos extremos contrastes socioeconômicos?
Hoje, soube que um emérito sanfoneiro cearense,de noventa anos de idade, Chico Paes - condecorado com o título de "mestre da cultura", foi obrigado a vender seu único fole de oito baixos por necessidades econômicas!
Dói no coração fazer parte de um país que negligencia sua cultura de tal maneira, não amparando artistas significativos que circulam à margem da mídia e permitindo que os mesmos veículos midiáticos se tornem, cada vez mais, a última palavra em relação à produção cultural, atribuindo valor de mercado ao que simplesmente desejam atribuir.
Se no Ceará de hoje, o mercado fonográfico é controlado majoritariamente pelo "forró de plástico" - também conhecido por "fuleiragem", isto se deve ao simples fato de que meia dúzia de mega empresários controlam a programação radiofônica das emissoras de rádio e televisão por todo o estado, ignorando tudo aquilo que não seja o tesouro sonoro que é produzido e veiculado por suas empresas.
Como explicar a questão das concessões radiofônicas? Não seria também o caso de uma séria investigação?
Cada vez mais, concordo com as palavras de Maurício Einhorn, que foram divulgadas por Antonio Carlos Jobim: "A saída do músico brasileiro é o aeroporto".

14 de abr. de 2011

Chico Paes se prepara para gravar o segundo CD

Diário do Nordeste http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=690774

Tocador de sanfona mantém tradição

Publicado em 13 de novembro de 2009 
Antônio Vicelmo
Chico Paes tem 85 anos e se prepara para gravar seu segundo CD 
ANTÔNIO VICELMO



Crato. Um velho tocador de pé-de-bode, que foi amigo e parceiro de Patativa, se torna famoso aos 84 anos. Vai gravar o seu segundo CD. É a história de um amante apaixonado que se reencontra com o seu velho amor, a harmônica de oito baixos.


Estão chegando ao fim os últimos tocadores de "pé-de-bode", ou harmônica de oito baixos, do Cariri. Um dos remanescentes dessa casta de nordestinos que fez da música e da agricultura um meio de sobrevivência, é Francisco Paes de Castro, conhecido por Chico Paes, que nasceu no dia 23 de outubro de 1925, na zona rural de Assaré. Ele tem uma história de vida parecida com a do seu conterrâneo, Patativa do Assaré. Ambos animaram juntos as festas sertanejas. "Patativa, geralmente, saía no meio da cantoria e eu terminava recebendo o dinheiro", lembra o tocador.


Ao lado dos irmãos, que também tocavam e cantavam, Chico Paes percorreu o Interior do Ceará, fazendas, vilas e povoados, para tocar em festas de casamento, batizado, renovação e padroeiros. Numa delas, enfrentou uma grande chuva. O jeito foi emparelhar os dois burros que serviam de montaria e cobri-los como uma lona para proteger o "pé-de-bode" colocando-o debaixo dos animais.


Ao contrário de Patativa, que cantava por amor à poesia, Chico Paes fazia da arte musical uma fonte de renda. Hoje, com 84 anos, cinco casamentos e filhos que ele não sabe a conta, o velho tocador colhe os frutos de uma vida dedicada à música e à agricultura. Com o plantio de uma roça de arroz, comprou uma sanfona. Com o instrumento, adquiriu um pedaço de terra.


O professor Gilmar de Carvalho escreveu que "a música para Chico Paes, mais do que um meio de vida, foi uma forma de expressar o mundo e de se elevar a Deus, no meio do forró mais brabo, com cachaça, homem valente, mulher bonita, ciúmes, rixas, alegria até se pegar o sol com a mão, ter que se jogar água para abafar a poeira do chão". Chico lembra que, "matava" o sono, tomando cerveja na boca da garrafa.


Aos oito anos, Chico aproveitava quando o pai ia para a roça para mexer na harmônica: "eu tinha medo dele brigar". Um dia seu João, já desconfiado, abriu a porteira bem devagar, e flagrou o menino "bulindo" na harmônica. Ao invés da surra esperada, veio a palavra de estímulo: "meu filho, pode tocar, não precisa ter medo de mim não".


Daí pra frente foi uma mão na roda. Notabilizou-se como o maior tocador de fole do sertão dos Inhamuns. Mas somente agora foi descoberto pelo Laboratório de Estudos da Oralidade da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade Estadual do Ceará (Uece), que gravou um CD com 15 músicas, a maioria da autoria de Chico Paes. Tem composições, que vão da marcha à valsa. Uma delas, "De Fortaleza a Messejana", foi composta na volta a cidade de Assaré. O baião "Selma" faz o forró pegar fogo, mas a preferida é "Dedo Amarrado". Já estão prontas as músicas do próximo CD, que ele não sabe quando será gravado.