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9 de jul. de 2011

Sanfoneiros fictícios - Zé Mamede - Forró do Rato Molhado vol.2

Dando prosseguimento a série de postagens sobre sanfoneiros fictícios, hoje reservamos lugar a outro nome de fantasia que foi utilizado por produtores em gravações de diferentes sanfoneiros: Zé Mamede.
O primeiro disco de Zé Mamede que conheci foi o "Forró do Rato Molhado", lançado pela Copacabana em 1981. Lembro ter mostrado este disco ao Zé Calixto, que identificou a sanfona da capa, e afirmou que se tratava de um disco de Adolfinho. Decerto, há várias músicas do saudoso sanfoneiro paraibano neste disco. Para Zé Calixto, Mamede nunca existiu, tendo sido apenas um dos tantos nomes criados pelos produtores fonográficos. 



Em agosto de 2009, tive a oportunidade de entrevistar  Geraldo Correia. Na ocasião, o músico paraibano afirmou que também havia gravado  com o pseudônimo de Zé Mamede.
Recentemente, foi postado no Forró em Vinil, um disco chamado "Arrasta-pé no sertão". Na verdade, é uma reedição de "Forró sem briga vol. 1" do Baianinho da Sanfona, que, por sua vez, provavelmente é um pseudônimo do Gerson Filho.

Everaldo Santana, em sua garimpagem musical, descobriu esta outra raridade: "Forró do Rato Molhado vol.2". O verdadeiro intérprete deste disco é uma incógnita. Porém, há uma pista que pode nos ajudar a descobrir quem é o verdadeiro sanfoneiro. Há três musicas de Luis Sergio, que foi um sanfoneiro pernambucano, natural de Garanhuns. Ele viveu no Rio de Janeiro, onde atuou nos forrós das décadas de 1970 e 80. A única história que conheço a seu respeito, é a de que ele trabalhava com o sogro, que tinha uma loja de secos e molhados em Garanhuns. Pelo que se sabe, a família não queria que ele se tornasse um músico profissional. Vindo ao Rio de Janeiro, assumiu sua vocação e se profissionalizou como sanfoneiro. Porém, ainda que fosse um bom instrumentista, não conquistou contratos fonográficos vantajosos, e,mesmo que tenha gravado vários discos, seu nome aparecia de forma discreta nos créditos de contracapa ou no selo dos discos e sua identidade visual nunca foi revelada ao público, a exemplo do que se pode constatar nas capas dos Lps "Forró Gostoso é assim", "Na fazenda do Coroné" e "Forró do Zé do Baile".

"Forró do Rato Molhado vol.2" com Zé Mamede e sua gente esquentada foi lançado em 1982 pela Beverly. No repertório, adaptações de sucessos da música nordestina como "Eu só quero um xodó" de Dominguinhos e Anastácia, "Baião da Serra Grande" do gaitista Fred Williams e "Chora Viola" da dupla Venâncio e Corumba.Um disco vigoroso, e a sanfona em alguns momentos parece um acordeom de 120 baixos devido a sonoridade encorpada. 
Agradecemos a Everaldo Santana por compartilhar conosco este item de seu acervo






8 de jul. de 2011

Sanfoneiros fictícios: Baianinho da Sanfona

Texto: Leo Rugero

Colaboração de Everaldo Santana









No dia 27 de abril, postamos o disco "Sucessos de Luiz Gonzaga com Raimundo Mauricio e sua sanfona de 8 baixos". Conforme testemunho de Zé Calixto, Raimundo Maurício jamais existiu, tendo sido apenas um nome fictício criado pela gravadora. Assim como Zé Ranulfo de Serra Talhada, nome de fantasia que encobre a identificação do verdadeiro intérprete, Zé Henrique.
Uma das razões que as gravadoras utilizavam nomes fictícios se deve ao tipo de contrato que se estabelecia com o sanfoneiro, que recebia o cachê, ficando a gravadora isenta de retribuir os direitos conexos de venda de discos. Porém, nem sempre, isso ocorria por este motivo. As vezes, o mesmo sanfoneiro aparecia em gravações de dois selos fonográficos distintos. No entanto, tendo contrato de exclusividade com um determinado selo, não poderia aparecer em um disco de outra companhia. Foi o caso de Gerson Filho, que acompanhou a esposa, a cantora Clemilda, no disco "Forró sem briga", editado pela Discobrás, em 1965. Na ocasião, Gerson Filho mantinha contrato de exclusividade com a gravadora RCA-Victor, o que lhe impediria de ter seu nome publicado no disco da esposa. Deste modo, a solução foi criar um nome fictício: Betinho, nome de um sanfoneiro que provavelmente não existiu...
O problema é que muitos destes nomes ganharam vida própria, tornando-se "lendas" vivas da sanfona. É o caso de "Baianinho da Sanfona". Quando comecei a me interessar pela sanfona de 8 baixos da região Nordeste, perguntava a vários sanfoneiros se acaso conheciam o Baianinho da Sanfona. Ninguém sabia responder se ele havia mesmo existido.
Hoje, com a colaboração do colecionador Everaldo Santana, publicamos o disco "Forró sem briga vol.2" de 1978, editado pela gravadora Copacabana, e atribuído a Baianinho da Sanfona. Segundo Everaldo, "quem toca é o Gerson Filho, pois é quse impossível alguém imitá-lo tão bem". De fato, é perceptível o estilo do sanfoneiro alagoano neste belíssimo álbum, onde quase todos os gêneros do forró são contemplados. Forró, quadrilha, baião, xaxado, xote e mazurca. Até o samba matuto não ficou de fora. Temas inspirados, embora pouco conhecidos, e a sanfona é acompanhada por um regional de primeira, do qual destaca-se  o excelente violão de sete cordas, que, além das baixarias, divide-se com a sanfona no solo de alguns temas. Aparentemente, a afinação utilizada pelo sanfoneiro é a natural em dó e fá, que era utilizada por Gerson Filho nesta época, o que aponta para a hipótese de que Baianinho da Sanfona seja o nome do sanfoneiro alagoano. Porém, resta a dúvida...o que vocês acham?


http://www.4shared.com/file/0hGUWC7b/1978_-_Baianinho_da_Sanfona_-_.html

21 de abr. de 2011

Zé Ranulfo de Serra Talhada por Leo Rugero

aviso importante: Prezados amigos, ao compartilhar as informações contidas neste site, sobretudo no que se refere às matérias assinadas, por favor, adicionem as referências: título, autor e a fonte, que é o nome do site: www.sanfonade8baixos.com
Tenho encontrado citações e referências extraídas deste blog, omitindo completamente a autoria e a origem. Até programa de rádio on-line já citou textos publicados e assinados pelo autor do blog. Não vamos esquecer que a Internet é uma rede, e para que esta rede funcione adequadamente, é necessário o trabalho colaborativo de todos nós. Eu mesmo, frequentemente compartilho alguma matéria, e sempre publico o nome do autor e a fonte de onde foi tirado... 
Mas, deixo de lado meu desabafo, e vamos ao disco desta semana, que é a parte mais saborosa desta prosa.

Não é difícil encontrar na discografia de sanfona de oito baixos, o "nome de fantasia". Normalmente, isso ocorria como parte do contrato: em troca de um bom cachê, o instrumentista concedia sua parte de arrecadação. Deste modo, a gravadora ou produtor fonográfico se isentava de repassar a parte que caberia ao solista. Como isso foi um expediente comum na produção fonográfica, sobretudo nas décadas de 1970 e 1980, não são raros nem isolados os casos deste tipo.Como este "Zé Ranulfo de Serra Talhada". Se existe ou existiu um sanfoneiro com este nome, não sabemos. Neste caso é apenas o nome de fantasia para o sanfoneiro Zé Henrique dos oito baixos. Natural de Pirá, Bahia, e radicado em São Paulo, Zé Henrique gravou este disco no Rio de Janeiro, pela gravadora Somil, com produção de William Luna.


Um detalhe comum às capas destes discos de sanfoneiros inexistentes, é a ausância de uma fotografia que identifique o sanfoneiro, Neste caso, o chapéu de couro dependurado na árvore, é um símbolo que substituiu a imagem do músico. O maior problema nestes fonogramas é a dificuldade em identificar o verdadeiro músico por trás do pseudônimo. A maior parte do público vai achar que se trata de um disco de Zé Ranulfo, no entanto, não é...
Foram muitos estes nomes de fantasia. Baianinho da Sanfona, Zé Mamede, Tunico e seus pirados, Betinho, Elsa Maria - "a princesinha dos oito baixos", e por aí vai! 
Musicalmente, este trabalho reflete uma tendência na geração de sanfoneiros que surge por volta de meados da década de 1970, que é a regravação de músicas do repertório de sanfona de oito baixos, que se tornam êxitos fonográficos ou radiofônicos, tornando-se parte do "repertório obrigatório" do instrumento. É o caso de "Quadrilha brasileira" de Gerson Filho, "Enxugue o rato" de Luis Moreno e "Roseira do Norte" de Pedro Sertanejo e Zé Gonzaga. Os xotes "Panela Velha" e "Mate o véio", se tornaram muito difundidos na programacão radiofônica, recebem aqui adaptações instrumentais. E também há espaço para o trabalho autoral de Zé Henrique, em "Forró no Zé Lagoa" e "Canto do galo".
Instrumentista seguro, demonstra  técnica e agilidade em seus trabalhos de estúdio. O acompanhamento é realizado por um regional, formado por violão de sete cordas, um pouco usual banjo no lugar do cavaquinho e a massa sonora percussiva de agogô, triângulo e zabumba.
Zé Henrique, ainda que de forma discreta, manteve seu trabalho como solista, tendo, inclusive, gravado um CD em 2008. Em São Paulo, é conhecido como afinador de sanfonas, tendo realizado o "transporte", isto é, a afinação nordestina, para outros sanfoneiros destacados como Zé Honório e Tranquilo dos oito baixos.
Leo Rugero