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23 de jan. de 2012

Feira de São Cristovão - O Bazar Musical do Zé do Gato - texto de Leo Rugero

A Feira de São Cristovão surgiu na década de 1940, como um dos frutos da intensa migração nordestina na Região Sudeste. O campo de  São Cristovão, bairro localizado na zona central do Rio de Janeiro, era o ponto final dos ônibus que transportavam os migrantes nordestinos, em busca de melhores condições de vida. Como descreve um dos fundadores da feira, o cordelista e cantador Azulão, 

Depois de dez, doze dias
numa viagem sofrida
o Campo de São Cristovão 
era o ponto de descida
onde cada nordestino 
procurava seu destino 
em busca da nova vida

Portanto, foi neste cenário que a feira se consolidou por volta de meados dos anos 40. Uma feira nordestina, onde não apenas se vendiam os produtos típicos da região Nordeste, mas também, um lugar para as trocas materiais e imateriais. Um espaço para o alicerçamento de amizades, para a edificação de negócios, para  a manutenção do espaço simbólico da cultura. 
Aos poucos, a Feira se tornou menos nômade, se sedentarizou, adaptou-se ao formato contemporáneo dos shopping-centers, tornando-se "Centro Luiz Gonzaga de tradições nordestinas": as barracas se tornaram lojas; o som acústico de trios nordestinos e repentistas adquiriu microfones e amplificadores; adquiriu novas influências, entre o pé de serra e o eletrônico, como se fosse uma representação de um Nordeste que se industrializa e se digitaliza. Porém, por trás das transitoriedades, conserva como fio condutor o palco das trocas simbólicas, e continua sendo entendida como a "Feira".
A Feira de São Cristovão era apenas um ponto turístico para mim até novembro de 2007, quando iniciei minha pesquisa sobre a sanfona de oito baixos na região Nordeste. A partir de então, o lugar começou a adquirir novos significados, conforme se descortinavam, meandros de sutilezas. A Feira também é o lugar das narrativas pessoais, histórias que norteiam o percurso dos migrantes, como  Nilton Amaral, o Zé do Gato, que chegou ao Rio de Janeiro no início dos anos 1970. Sua idéia inicial era trabalhar em construção, ajuntar algum dinheiro, comprar uma sanfona e voltar para sua cidade natal, Garanhuns, que embora identificada com a seresta, tem revelado ao mundo muitos sanfoneiros, a exemplo de Dominguinhos. Acontece que Zé do Gato acabou ficando. Seu irmão, o Zé da Onça, já estava estabelecido no Rio de Janeiro e foi um dos fundadores da Feira de São Cristovão. Então, Zé do Gato enamorou-se com uma jovem carioca, casou-se e começou a labuta de pai de família, sanfoneiro e artesão. Entre seus filhos, o sanfoneiro Maçarico é uma figura de destaque na cena do forró, tendo sido um menino prodígio no acordeom.
Domingo passado, estive na feira, em especial, no Bazar Musical do Zé do Gato, ponto de encontro de sanfoneiros, artesãos, vendedores e compradores de sanfonas, compositores e apreciadores da arte do fole, dos oito aos cento e vinte baixos. Foi um dia especial, em que conheci Adão Ferreira, compositor de cerca de 180 músicas gravadas em disco; Sussú, zabumbeiro de Marinês e Abdias por trinta e seis anos; Assis Filho, o "Dida", sobrinho de Abdias dos 8 baixos, excelente cantor e percussionista que acompanhou o tio em muitas gravações e apresentações; E não foi só isso. Por lá passaram artesãos como Jasiel, do Morro da Pedreira. O sanfoneiro Valdir Callegario, capixaba de Castelo, que sempre visita a Feira quando está de passagem pelo Rio de Janeiro. Também foi bom rever amigos como o Enock Lima, com quem sempre aprendo um pouco da história do forró, ouvindo suas histórias contadas em mil detalhes. Depois, saímos dali, eu, Enock e Assis, caminhando pelas vielas da feira, parando aqui e ali, esbarrando com outras figuras proeminentes da música nordestina como Mazinho do Pandeiro e Chico Mota; conversando com o Deda do Gás, ex-cunhado e motorista do saudoso mestre Abdias dos 8 baixos, enfim, conhecendo a feira nos seus pormenores.
Depois, a volta para casa, e a lembrança saudosa de uma tarde ensolarada e tecida de muitos aprendizados, relatos vindos de histórias contadas e ouvidas.


Abaixo, algumas fotografias que foram tiradas na ocasião.


Enock Lima e Adão Ferreira

Pereira, Zé do Gato, Adão Ferreira e Enock

Enock Lima 
Pereira, Zé do Gato, Leo Rugero e Adão Ferreira

Sussú, Assis Farias, Leo Rugero e Adão Ferreira

Sussú, Assis Farias, Adão Ferreira e Enock Lima

                                                             Assis Farias, Enock Lima e Chico Mota

30 de ago. de 2011

Enock Lima

Enock Lima - Memória viva do Forró  por Leo Rugero

O mundo artístico da sanfona de oito baixos não é composto apenas por sanfoneiros. Claro que eles são as  estrelas! No entanto, estão inseridos em uma ampla rede composta por percussionistas, técnicos de estúdio, proprietários de forrós, jornalistas, produtores e até mesmo pesquisadores, como é o meu caso. Entre estas pessoas, algumas se destacam devido a representatividade que desempenham ou desempenharam neste ambiente. É o caso do pernambucano Enock Lima. 
Difícil definir a atuação de Enock. Fundamentalmente, ele é um zabumbeiro, embora também toque de forma apreciável outros instrumentos de percussão. Porém, sua atividade no mundo do forró se estende a outros domínios. 
Nascido em Recife, no dia 16 de dezembro de 1948, como diz o próprio Enck, "Nasci no Barro e fui criado no Totó", se referindo ao bairro onde passou a infância.
O envolvimento de Enock com a música começa no âmbito familiar. Seus pais, José Ferreira Lima (1897 - 1986) e Josefa Maria Lima eram amigos pessoais de Luiz Gonzaga. Enock se recorda de quando ainda era  menino, e o Rei do Baião aparecia para passar a tarde com seus pais. Embora seu pai fosse extremamente religioso, abria uma exceção na companhia de Gonzaga, e assim que o Rei do Baião chegava, pedia para o menino Enock atravessar a rua e ir até a venda da esquina comprar duas cervejas para Gonzagão. Como lembra Enock, "ele era de casa e nós nem sabiamos da importância dele". A amizade entre seu pai e Gonzagão foi selada por uma parceria, a marcha "Vou pra roça", que talvez tenha ficado um pouco eclipsada por ser o lado A do disco de 78 rotações, que trazia no lado B, nada mais nada menos do que "Asa Branca".
 Alguns anos mais tarde, o jovem Enock  ficava, segundo suas próprias palavras, "bisbilhotando" os sanfoneiros de oito baixos, sobretudo no bairro de Jaboatão dos Guararapes e Vitória de Santo Antão. Esta aproximação acontece no início de sua adolescência: "Eu era garoto, tinha os meus treze, quatorze anos".
Sua primeira oportunidade profissional acontece por volta desta época, através de J. Austragésilo, que admite o jovem  na Rádio Clube de Recife, para trabalhar no cargo de sonoplasta. Foi nesta emissora que Enock conheceu Martins do Pandeiro e Martins da Sanfona (mais tarde conhecido artisticamente como Tony Martins). Enock se tornaria o "regra três" do conjunto "Os Cabras do Baião". Para quem não sabe, chamava-se "regra três" ao músico substituto que eventualmente assumia o lugar de algum músico efetivo que, por algum motivo, não podia se apresentar. Nesta mesma época, Enock conheceu um jovem e talentoso sanfoneiro por nome de Heleno, que se tornaria muito conhecido através do nome artístico de "Truvinca", dado por Zé Calixto.
Em seguida,  começa a trabalhar no grupo "Pereirinha e seus capangas". Dissolvido o grupo, Enock acompanha o fluxo migratório para o Sudeste, fixando-se no Rio de Janeiro por volta de 1965. 
No Rio, surge a oportunidade de trabalhar com Luiz Gonzaga como "divulgador particular", substituindo José Sabino, que havia se afastado do cargo. Deste modo, Enock assume este emprego na RCA-Victor.  Segundo Enock, na época ainda não havia sido institucionalizado o jabá, pecúnia desembolsada pelas gravadoras e/ ou produtores para as emissoras de rádio. No entanto, o estreito contato entre Enock e Gonzaga, fez com que o trabalho de divulgador abarcasse outros domínios. Enock se tornaria uma espécie de "faz-tudo" do Rei do Baião: "secretário, atendedor de telefone, carregador de estojo de acordeom, motorista". 
Através de Gonzaga, Enock conheceu Severino Januário, com quem tocou e gravou na decada de 1970.
Depois de 12 anos, Enock foi despedido por Helena, esposa de Gonzaga, devido a um envolvimento com uma empregada doméstica da casa. A história que hoje é lembrada com certo humor por Enock, custou-lhe o trabalho ao lado do rei do baião. Arroubos da juventude...
Outro passo importante no percurso de Enock foi o trabalho ao lado do lendário sanfoneiro paraibano Abdias. Ao lado deste grande músico, Enock permaneceu até 1991, quando Abdias foi vítima de um enfarte. As lembranças com o "mago da sanfona" são marcantes, revelando uma grande amizade entre os dois músicos. "É um maestro com uma batuta na mão do estilo nordestino". Enock também chama a atenção para a inventividade de Abdias, que se reflete não apenas nas músicas como nas capas dos discos.
Também trabalhou como ritmista em orquestras de baile e  cantores populares. Neste tempo, fez de tudo um pouco, até letras de jingles para políticos.
De alguns anos para cá, se dividiu entre muitas atividades, entre as quais, o programa "FoleViola", que rompe as auroras pela rádio MEC, apresentado por Adelzon Alves, do qual Enock é colaborador e ex-assistente.

Continua transitando pelo mundo do forró entre Rio de Janeiro e Recife. Quem o conhece, sabe que ele é um excelente contador de histórias, memória viva do forró, sobretudo no que tange a sanfona de oito baixos. E também guarda, além das recordações, muitas músicas inéditas, como um forró composto em homenagem ao sanfoneiro Truvinca.



Enoque, seu filho Jerry e Abdias. Foto tirada na casa de Enock, em 1987 (Arquivo pessoal de Enock Lima)


Enock e Leo Rugero em Recife, 2009 - Acervo Pessoal de Leo Rugero


17 de mar. de 2011

" Foles em luto"

Como escreveu nesta manhã o músico Samuel Araújo, " os foles estão em luto". Na madrugada do dia 15 de março, partiu de nosso convívio, a cantora, compositora e sanfoneira Chiquinha Gonzaga.
Chiquinha, vítima de um atropelamento ocorrido em 2009, sofria de complicações agravadas por um tombo ocorrido no ano passado, o que teria lhe conduzido à um quadro de hifrocefalia. Há cerca de alguns meses convalescia em sua residência, em Santa Cruz da Serra,  distrito do município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Ontem, ainda havia dúvidas se o velório e enterro ocorreriam no Rio de Janeiro ou se o corpo seria trasladado para Recife. Nesta manhã, recebi o telefonema de Enoque Lima, músico e amigo da família Gonzaga, confirmando que o corpo seria velado em Caxias, Rio de Janeiro.
Desci imediatamente a Serra de Petrópolis, e me encontrei com Enoque por volta de 10:30 hs na entrada do distrito de Santa Cruz da Serra. De lá, seguimos para a casa de Ana Lídia, sobrinha de Chiquinha Gonzaga, onde se concentraram familiares, vizinhos e amigos. Às 13h, um ônibus conduziu as pessoas ao velório,  realizado no Cemitério do Anil, em Duque de Caxias.
Abaixo, algumas imagens do enterro de Francisca Januário dos Santos (1927 - 2011)

Enock Lima e Serrinha

Moraes

Sergio Gonzaga, filho de Chiquinha

27 de out. de 2009

Anselmo Alves e Leda Dias

Leda Dias, Leo Rugero, Marcelo de Feira Nova e Anselmo Alves



Ontem à noite, ainda sob o impacto da perda de meu pai, voltei do cemitério do Caju, setor de cremação, e, ao chegar em casa, resolvemos vivenciar esta "triste partida", com porções generosas de pasteizinhos "Baurú"- do tipo que ele gostava - regados com cerveja Skol, que era uma de suas marcas prediletas. Lembramos então, eu e Cláudia, de rever três vídeos que eu havia recebido de Anselmo Alves, no dia 14 de Agosto, último dia de minha estada em Recife. Ei-los: Arlindo dos 8 baixos - o mestre do Beberibe, Luiz Gonzaga - A luz dos sertões e Especial Luiz Gonzaga 95 anos. Antes de comentar a respeito dos filmes, devo prestar meu agradecimento e homenagem ao jornalista Anselmo Alves e à historiadora Leda Dias, pelo incansável trabalho de dedicação à memória da sanfona de 8 baixos, esta rica tradição da música nordestina, que jamais, em seu percurso histórico, galgou o devido apoio institucional e, quiçá, midiático. E a árdua tarefa desempenhada por estes dois "mandarins miraculosos" não concerne somente à conservação, mas sobretudo o estímulo à renovação desta arte, através de projetos como o curso de sanfona de 8 baixos ministrado por Luizinho Calixto no Memorial Luiz Gonzaga, além da produção de shows, vídeos e mais do que tudo, um "carisma", que tem sido o sustentáculo do forró instrumental em Recife, que atualmente talvez seja o principal pólo irradiador desta magnífica prática musical.



Luiz Gonzaga sempre será o ícone de afirmação do homem nordestino. Todos os personagens do sertão pairam nas letras de suas parcerias com Humberto Teixeira, Zé Dantas, Onildo Almeida...mas também se presenciam na própria atmosfera produzida pelo efeito instrumental das melodias que trouxe consigo, cultivando-as e depurando-as, criando uma nova instância na música popular brasileira - o baião, e, posteriormente, o forró. Tanto o especial 95 anos como Luiz Gonzaga - a saga dos sertões, conseguem, com esmero, radiografar Luiz Gonzaga, no âmago, mostrando este "matulão" gonzagueano que reflete em sua vasta produção, e por ela é refletido.Estão presentes neste "matulão", as ladainhas em latim, os aboios de vaqueiros, a dança guerreira do cangaço, a canção de exílio diante do êxodo da seca, enfim, o cerne do que constituiria a "alma nordestina". Também há um caráter historicista nos dois filmes, pontuando as atividades musicais de Luiz Gonzaga com o entorno sócio-politico, de tal modo que se estende sua influência a partir da afirmação profissional de seu trabalho. Indispensáveis, estes dois curta-metragens, a todos aqueles que o admiram. Imagens de arquivo se misturam à depoimentos e participações de sanfoneiros ilustres. E, melhor de tudo, com direito à canjas dos mesmos. A sanfona de 8 baixos, que pontua a tradição musical da família Gonzaga - o pai Januário e seus filhos, Luiz, José, Severino e Chiquinha, matrizas fundantes desta tradição musical, é lembrada pela participação especial de mestres vivos, mantenedores e renovadores deste importante vértice: Zé Calixto, Luizinho Calixto, Truvinca e Arlindo.


Aliás, Arlindo dos 8 baixos - o mestre do Beberibe, marca o reconhecimento de Arlindo como um dos ícones da sanfona de 8 baixos. Diante da ausência de uma videografia dedicada à sanfona de 8 baixos, este filme constitui um oásis. A trajetória de Arlindo é narrada, através do próprio, numa viagem de retorno à suas raízes na zona da mata sul pernambucana, até chegar ao "forró do Arlindo", que já é uma atração turística de Recife. No filme, há passagens surpreendentes, como a paixão de Arlindo pelo cinema e consequentemente, pelas canções que pontuam os clássicos do cinema americano, como Over the rainbow. E novamente, somos conduzidas à onipresença de Gonzaga, quando se descreve como o Rei do Baião apadrinhou a carreira artística de Arlindo e criou a alcunha "o mestre do Beberibe" que serviu de título ao primeiro álbum gravado por Arlindo em um grande selo fonográfico. Um filme que merece ser exibido mais vezes em nossas cinematecas...


Mais uma vez, meus agradecimentos sinceros aos novos amigos Anselmo Alves e Leda Dias, pelas belas imagens e sons com os quais me presentearam.