Na
madrugada deste domingo recebi notícias do bom amigo professor e
sanfoneiro, guardião da cultura de tocar sanfona de 8 baixos. Transcrevo
as notícias de Leo Rugero:
"Hoje,
fechando com chave de ouro minha passagem por Juazeiro do Norte, estive
pessoalmente com Galvão de Juazeiro, cavaleiro sertanejo,
ancestralidade da cultura do sertão nordestino personificada.
O
que motivou nosso encontro foi nossa devoção mútua por este
instrumento, o fole de oito baixos, instrumento matricial na cultura
nordestina, que se encontra em processo de extinção na microrregião do
Cariri cearense. De acordo com Galvão, ele é o mais jovem remanescente
desta tradição sonora, no alto de seus 68 anos.
Galvão de
Juazeiro ficou maravilhado com meu livro, "Com Respeito aos Oito
Baixos". De acordo com suas palavras, foi o livro que ele esperou ser
escrito por uma vida inteira. Maior elogio não poderia ser recebido,
vindo deste profundo conhecedor da história oral nordestina.
Nesta
tarde de fole e prosa, também fui presenteado pela sabedoria de Galvão
de Juazeiro, que conhece em detalhes, nomes de personagens que
constituem a história do fole de oito baixos no sertão nordestino.
Também é um profundo conhecedor da história do fole, revelando dados que
nem mesmo os livros de historiadores europeus como o notório Pierre
Monichon, descreveram, pois tratam de vestígios históricos no processo
migratório e na colonização nordestina que passaram desapercebido por
historiadores e etnógrafos do passado.
Outro ponto de contato que
alimentou nossa conversa, foi a maestria do fole de oito baixos
paraibano, centro irradiador da afinação "transportada"e da soberba
influência da família Calixto como uma dos principais genealogias desta
tradição sonora. Sabendo de minha estreita relação de aprendizado e
pesquisa com Zé Calixto, o mestre Galvão ficou embevecido ao ouvir minha
interpretação de algumas músicas do repertório de Zé Calixto,
observando como o mestre foi cuidadoso na transmissão de detalhes de
técnica, postura, dedihado e articulação. Se meu repertório não se
esgotasse, creio que a audição se prolongaria por horas.Nunca senti
tamanho orgulho por ter um dia encontrado Zé Calixto e, através dele,
ter conhecido a fundamentação técnica do fole paraibano.
Também
conversamos sobre a técnica suprema de Luizinho Calixto, assim como do
talento de Bastinho Calixto e João Calixto. Galvão discorreu sobre os
tempos de Seu João de Deus Calixto e de tempos que nem mesmo Seu Dideus
conheceu, de quando se concebeu a afinação e técnica do estado da
Paraíba, admirada por todos.
Tocou seu fole Koch centenário,
exemplar raro entre os primeiros foles alemães que alcançaram o solo
nordestino. Também se encantou com meu fole Todeschini de 1967 e seus
botões de acrílico, outrora confeccionados por Zé Aragão, sob o desenho e
especificação de Zé Calixto, no início da década de 1970.
Galvão
do Juazeiro mantém um museu no interior do município, que contém, entre
outras coisas, uma das maiores coleções de acordeões diatônicos do
Brasil e, seguramente, do mundo, totalizando 23 foles em diferentes
procedências, épocas e afinações.
Criticou algumas instituições,
petrificadas pelo "apadrinhamento" de resquício colonialista, impedindo,
muitas vezes,que a cultura seja contada e cantada pela perspectiva
nativa e encontre vitalidade para superar as imposições de cunho
midiático.
Também
revelou seu pendor às questões mais sensíveis da cidadania, em seu
trabalho de cuidado com a saúde e o bem estar de animais abandonados no
sertão, onde, desde que as motocicletas e os automóveis substituíram o
papel de condução e tropa,despedidos de suas funções de serventia, foram
soltos, muitas vezes velhos e enfraquecidos, pelas estradas de terra do
sertão.
Enfim, Galvão do Juazeiro é uma daquelas pessoas
iluminadas que clareiam com sua luz por onde passa, trazendo-nos
conforto ao coração e alimentando nossa alma com sua sabedoria e
conhecimento.
Voltando ao Rio de Janeiro, eis que senti meu velho
fole de oito baixos ressignificado, e a história de meu aprendizado e
pesquisa, faz-se novamente refortalecida com a benção deste encontro.
Até logo Galvão do Juazeiro, que os bons ventos permitam que possamos nos encontrar em breve!!! Os oito baixos agradeçem".