29 de fev de 2016

Egídio Raposo

EGÍDIO RAPOSO

13th março, 2012 | Postado por admin
Homenagear Egídio Raposo. Fazer um tributo ao mestre sanfoneiro. É uma missão gratificante, misturando-se alegria e honra. Homenagem justa àquele que teve uma notória trajetória de empenho e de luta pela valorização e divulgação do forró.
(Egídio Raposo) Crédito: acervo da família
Egídio Manoel do Nascimento nasceu no dia 08 de outubro de 1924, no Povoado Macacos, município de São Raimundo Nonato-PI.  O pai Manoel Raposo era sanfoneiro, nos tempos da pé-de-bode (sanfona de 8 baixos). O menino Egídio aprendeu com o pai. Aprendeu de ouvido, como se diz na linguagem musical. O apelido “Raposo” veio de um costume da família de sanfoneiros, de sempre nas festas pedir junto ao cachê uma galinha para comer.
Vamos situar Egídio Raposo nas circunstâncias em que viveu. Era a época da família patriarcal: composta de homens autoritários, mulheres submissas e crianças escabreadas (eram educadas através do medo). Ele foi, sem sombra de dúvidas, o primeiro músico (notadamente sanfoneiro) da região a ter nível de excelência musical. Em especial, a entender de partitura. E tinha pouco estudo. Um autodidata notável. Era o tempo do amadorismo ou empirismo. Compreendendo esse momento da História, bem escreveu Josélia Ribeiro dos Passos:
  - Para fazer música, a única coisa que o indivíduo precisa é estar vivo. Não precisa saber ler, nem adquirir materiais e sequer sair de casa.
Casou-se em 1944 com Dona Teresinha Jesus do Nascimento. Tiveram seis filhos: ZildenitaJoão Bosco (faleceu em 1970), HélioEdsonMaria do Socorro e Nilva. Ele era um homem de poucas palavras. Olhar penetrante. Nas horas vagas adorava jogar baralho com os amigos. Simples cidadão corajoso e bom. Tudo que fez foi por livre exercício de cidadania e espontânea vontade humana.
Neste ano de 2012, memorável e histórico, pelo centenário de nascimento de Luiz Gonzaga, rei do Baião, e pelo centenário de São Raimundo Nonato-PI, faz-se necessário uma visitação à história do mestre sanfoneiro Egídio Raposo. Foi essencialmente dessa iniciativa histórica, com acréscimo prioritário do fator musical como instrumento de justiça social, que se originou o Baião. Compromisso estético e senso psicológico do povo brasileiro, excluído socialmente. Como fundamento de vida sofrida e possibilidade de prosperidade. A música como condição de ser alguém na vida e cantar sua aldeia. Descentralizar o Brasil do eixo Rio-São Paulo, referência aos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os mais desenvolvidos e mais beneficiados pelo processo de industrialização e desenvolvimento nacional.
Nosso grito aqui é para mostrar que o mestre sanfoneiro possui uma grande história. A grande lição dele foi ser humilde. Desse modo, viveu a grandeza da vida. Saiu de uma origem humilde. Ninguém se constrói sozinho. É uma regra básica da vida. E uma grande verdade. O povo do Sertão é solidário. Egídio Raposo, como sertanejo que foi, compreendia que a construção do indivíduo vem da carga genética, do meio social, e do ambiente educacional. Tudo isso se somando ao caráter pessoal, algo bem nosso.
A primeira coisa que percebemos na sua história, é que desde jovem deu um choque de lucidez na sua vida. Passou a encarar a realidade como ela se encontrava. E o melhor, lutou para mudá-la para melhor. Felizmente, ele não aprendeu a ser submisso. Ou então desaprendeu. O fato, é que ainda jovem provocou a desobediência civil, saindo daquela ordem social rotineira ou daquele destino sertanejo já traçado, sem perspectivas para os jovens da região. Criou asas e voou em busca de seus ideais. Rompeu o cárcere do medo e correu riscos. Sofreu emoções. Mas jamais esperou por milagres. A experiência dele nos deixa a certeza de que o pior equívoco é o indivíduo não viver sua própria natureza. O mestre sanfoneiro não cometeu tal equívoco. Gozou plenamente a alegria da vida. Ensinou-nos a sermos nós mesmos.
Jamais aceitou ser dominado por qualquer ordem social que afetasse seu bem-estar, seu prazer na vida; que destruísse aquilo que amava. Sempre reagia. Eis a grande questão! Foi sempre ator da sua própria história. Decidido sempre. E convicto. Nele ninguém viu sinal de frustração. Demonstrava ser realizado espiritualmente. Muitos vivem simplesmente porque estão vivos. Mas uma vida ociosa, sem objetivos e sonhos. Metas e ideais. A vida humana é belíssima, mas brevíssima. Cada ser humano vive num momento da História, num pequeno parêntese do tempo. Tão breve que de um instante para outro deixa de ser uma pessoa, para se tornar uma página da História.
O que fez Egídio Raposo? Construiu amigos (muitos amigos). Dos mais simples aos mestres Luiz Gonzaga e Sivuca. Correspondia da mesma forma, não tinha tratamento diferenciado. Enfrentou obstáculos. Sofreu derrotas. Bateu na porta da vida, e provou que não tinha medo de vivê-la. Percorreu pelo caminho da singeleza, assumindo ser um cidadão desprovido de orgulho. Era um apaixonado pela vida. Da forma mais simples possível. Nunca teve medo de falhar, nem tampouco se preocupava em ter sua imagem social diminuída por ser popular e andar no meio do povo; por ser simples na convivência social. Vivia sua vida, e pronto!
A cultura nada mais é do que o modo de viver de uma sociedade. O menino Egídio cresceu absorvendo a cultura simbólica que se manifestava ao seu redor. A partir daí, criou muita coisa também. Dedicado por completo. Obras e ações de grande relevância musical. E cultural. Fazendo uma viagem pelo tempo, visitando nossa história, iremos encontrar as árvores da música da nossa região. São muitos pioneiros. Desde os tempos de Júlio Dias, na década de 10, passando por Chico Cibely (pai de Tita Veiga), e chegando à geração de Egídio Raposo. Eis os amigos e parceiros do mestre sanfoneiro: João Santos (“Caraolho”)Antônio Alves do Nacimento (“Cupim”) e Hamilton Barreto. Existem muitos outros, quis aqui pegar as referências. Essa garotada foi revolucionária. Foi um movimento musical nos anos 40 e 50. Uma importante campanha.
Creio ter sido esses jovens (pelas pesquisas que tenho), naquele momento da nossa história, quem primeiro construiu a possibilidade de contemplação da cultura local. Tentaram (e conseguiram) reformar a então capenga e importada, em sua quase totalidade, “cultura dos outros”. Passaram a conhecer, compreender, valorizar e promover as tradições, o folclore e a realidade da vida cultural da nossa terra. Foi o começo de uma revolução. Muita coisa se seguiu a isso.
A primeira safra de músicos revolucionários da região, em que se tem notícia, foi essa. Aprendidas as lições, a mensagem e o exemplo foram gradativamente sendo consolidados e seguidos. Tivemos o segundo momento, com o protagonismo da geração de Tita Veiga, filho do mestre Chico Cibely, essa figura emblemática da musicalidade da região, que até hoje é um batalhador. A grande bandeira na atualidade. Deixamos, portanto, de rezar a cartilha cultural dos outros lugares. Descobrimos nossa cultura e estruturamo-la cada vez mais, dentro do nosso imenso espaço de tradições e riquezas culturais.
Isso demonstra que a situação da música popular na região não foi diferente da realidade de outras regiões. A partir de músicos como Egídio Raposo nossa música ganhou dignidade, respeito e notoriedade. Foi um dos pilares desse movimento sufragista. Época em que se inicia esse processo musical emancipacionista. Logo, algumas conquistas foram alcançadas. O mestre sanfoneiro incentivou e produziu grandes músicos e intérpretes. Muitos piauienses, e outros de Estados vizinhos.
Egídio Raposo foi para o Estado de São Paulo, nos anos 40. O grande sonho era comprar uma sanfona boa. O sonho foi realizado. Nesta oportunidade conheceu Luiz Gonzaga, de quem se tornou amigo. Retornou para sua terra. Nos anos 50 foi para Salvador-BA, estudar música. Ingressou na renomada, na época, hoje extinta, “Academia de Acordeom Regina”. Concluiu os estudos em 1955. Aluno de destaque. Foi convidado para ser professor. Convite feito, convite aceito. Recebia sempre a visita do amigo sanfoneiro Sivuca. Toda vez que estava no Brasil (naquela época morava no exterior), o renomado sanfoneiro paraibano ia a Salvador-BA só visitar o sanfoneiro piauiense. Trocavam experiências. Dele as palavras:
- Mestre Egídio é exemplo de humildade e de superação na vida. E excelência na música.
O mestre sanfoneiro fez sucesso na Rádio Excelsius da Bahia, Rádio Sociedade da Bahia, Rádio Globo, dentre outras. Outro fato importante, é que foi ele o principal incentivador do Trio Nordestino. Formado em 1957 por LindúCobrinhaCoroné. Trio baiano, o original. Existiram outros dois, que duraram apenas dois anos. Não tinham a patente para usar o nome, e deixaram de existir. Foram formados no Estado de São Paulo.
Egídio Raposo teve muitos alunos. Um aluno seu: o cantor, músico e compositor Gilberto Gil. Isso mesmo: Gilberto Gil. O mestre sanfoneiro foi seu professor. Há alguns anos o cantor baiano esteve em Teresina-PI, e mandou buscar de avião seu mestre em São Raimundo Nonato-PI. Publicamente apresentou-o como seu primeiro professor de música.
(Egídio Raposo e Gilberto Gil) Crédito: acervo da família

Esteve por uma temporada em Goiânia-GO. Depois foi para Juazeiro do Norte-CE. Fez muito sucesso na região. Sua presença era certa na Rádio Iracema. Nessa época, reecontrou-se com Luiz Gonzaga. O rei do Baião o convidou para ser professor de sanfona em Exu-PE, sua terra natal. Mestre Egídio não aceitou o convite, disse ter outros projetos que impossibilitavam essa causa.
Certa vez escrevi, no livro “Gigantes do Forró: perfis biográficos”, um de meus livros, que:
- O ensino da música, notadamente às crianças, é uma disseminação de cultura e cidadania. A música em si é um instrumento de construção, manutenção e fortalecimento dessa proposta social. A reboque vem a alegria, entretenimento e o desenvolvimento. Preenche também um vazio de fé e esperança nas pessoas. Mexe com nossas emoções, consolida nossos sentimentos e fortalece nossas amizades e paixões. Sou um defensor da música como um instrumento, e uma via, para a cidadania e para o desenvolvimento. É uma arma tanto defensiva quanto ofensiva nas lutas espirituais que sofremos, entre o caminho do mal e o caminho do bem. Ela salva as pessoas do caminho do mal. É uma porta para o caminho do bem.
O fortalecimento de uma determinada identidade se dá, primeiro, pela preservação do seu patrimônio cultural. Seja de forma física (estruturas físicas, monumentos etc.), ou através da memória coletiva. Especifiquemos aqui o quesito forró. O primeiro caso ainda é falho na nossa região. Pouquíssimos monumentos fazem tal preservação da memória forrozeira. Não há sequer um monumento que represente a grandeza da tradição centenária do forró, na nossa região. Em Dom Inocêncio-PI, minha terra natal, a “Terra dos Sanfoneiros”, temos uma luta pesada nesse sentido; construir o “Parque do Forró Sanfoneiro Gilberto Dias”. Essa missão está em andamento, já providenciamos muita coisa nesse sentido. Mas de maneira geral, estamos em dívida com nossa história.
Existe, de forma heróica, um esforço grandioso para preservação da identidade e memória do forró. Destaco a luta dos nossos músicos guerreiros. A história de cada um é relevante. E somando-se forças, temos uma história de peso, no cenário regional (região Nordeste) e no contexto nacional. Cito basicamente três sanfoneiros:
Luís do Paulo, de Dom Inocêncio-PI, considerado um dos maiores sanfoneiros de pé-de-bode (8 baixos) do Brasil. Tocou com Luiz Gonzaga nos anos 40, de quem foi amigo;
Egídio Raposo, professor de sanfona, tendo aluno do nível de Gilberto Gil; e
Gilberto Dias, de Dom Inocêncio-PI, sanfoneiro danado de bom, expressivo e respeitado na nação forrozeira.
(Luís do Paulo, anos 40) Fonte: Adão de Sousa
Nessa empreitada de preservar a tradição forrozeira, existem ainda muitos eventos nos municípios. Festivais de sanfoneiros, onde destaco aqui dois:
- O tradicional Festival de Sanfoneiros de Dom Inocêncio-PI, onde centenas de sanfoneiros se reúnem; e
- O grandioso Festival de Sanfoneiros de São Raimundo Nonato-PI, idealizado no ano passado, capitaneado pelo professor Cineas Santos, figura lendária da nossa cultura, e promovido pela prefeitura municipal. Na gestão do Padre Herculano. Este evento reúne os sanfoneiros da região, surgindo uma grande confraternização e uma amostra do gigantismo do forró regional.
Quero destacar aqui, uma iniciativa importante: O “Toca do Forró”, programa de rádio, na grandona Rádio Serra da Capivara AM (grande difusora de música), idealizado pelo radialista Nilton Negreiros, embaixador dos músicos, e apadrinhado pelo sanfoneiro Gilberto Dias. Sua existência tem feito um trabalho relevante, no sentido de valorizar e divulgar os artistas da região. O encaminhamento é dado. Além desse, outros programas de rádio contemplam a simbologia sertaneja. Destaco aqui, o “Se liga, Sertão”, apresentado também por Nilton Negreiros, na Rádio Serra da Capivara AM. Existe há mais de 20 anos. O programa “Forronejo”, apresentado por Edvaldo Soares, e o programa“Voz Caipira”, apresentado por Bartolomeu Neto, ambos na Rádio Cultura FM. Dão sua contribuição.
Os monumentos que existem são literários. Escritores e historiadores que se orgulham do regionalismo, e contam a história cultural da nossa terra. Também é importante considerar-se que algumas pessoas, grupos ou entidades, foram importantes (e são) nesse processo identitário. Difundindo essa arte secular. De maneira, que essa tradição manteve-se viva na memória e nos costumes do povo. Isso é atemporal.
Destaco aqui, a contribuição musical de Tita Veiga. Um persistente da memória musical da região. Preservando-a por gerações. O mestre tem sido incansável nessa missão. Lutador histórico. Sempre intervém, quando sua interferência se faz necessária. Acho isso positivo. E é sua principal marca. Jamais foge ao debate. Não aceita o papel de subalterno.
Na atualidade, contamos com uma ferramenta importante: a internet. Os portais da região democratizaram a informação, romperam os limites da comunicação, e instituíram a chamada globalização.
Egídio Raposo cantou sua aldeia. Mesmo viajando muito para fora, viajou de verdade foi para dentro. Em vez de valorizar as coisas dos outros, valorizou as nossas coisas. Internalizou a simbologia do Sertão. Não “arredou o pé” dessa causa. Seu compromisso com a música, e a cultura de maneira geral, o fez entregar-se de corpo e alma. Nunca trocou sua responsabilidade social para com sua terra, pela fama ou retorno financeiro agradável. Isso era uma característica humana dele. Preferiu ficar aqui.
Ficando em sua terra, deixou um legado. Oportunizou um grande aprendizado de música, notadamente de sanfona. Talvez se tivesse sido famoso nacionalmente, não teria dado uma contribuição concreta para a musicalidade da região, como deu morando em São Raimundo Nonato-PI. Para mim, isso vale muito mais do que a fama que não quis. O mestre nos ensinou essencialmente a ter interesse pela nossa própria história. Essa sua atitude é o exemplo mais importante da sua história.
Ótima iniciativa. Josélia Ribeiro dos Passos apresenta em 2003 uma monografia relatando a biografia de Egídio Manoel do Nascimento, junto à Universidade Estadual do Piauí-UESPI, para a obtenção do Grau de Licenciatura Plena em História. Confira dois trechos (um sobre os tempos da geração do mestre sanfoneiro, e outro sobre o pouco culto à História):
- Um homem simples que conseguiu marcar a cultura musical de São Raimundo Nonato (Piauí). Nos anos 50 verificamos que aqui a cultura era voltada principalmente para os estudos nos internatos da Ordem Mercedária.
- A sociedade local, e em geral, tende a perder suas tradições com o passar dos tempos, principalmente quando não se tem um projeto em que essas tradições possam ser resgatadas e reconhecidas pelas gerações mais novas, pela vanguarda formadora de opinião.
Já um senhor, virou taxista. Aposentado, passou a desfrutar mais da relação familiar e dos amigos. Sua vitalidade manteve-se intacta, enquanto vida teve. Claro, com alguns abalos. Por exemplo, nos anos 60 o forró sofreu um processo de decadência. Na região e nacionalmente. Refiro-me ao forró pé de serra, composto pelos instrumentos sanfona, triângulo e zabumba. Surgiram os conjuntos musicais. Eram os tempos dos bailes nos clubes. O próprio Luiz Gonzaga chegou a cogitar a possibilidade de parar sua carreira musical. Dominguinhos, sanfoneiro, que andava com ele, confirma esse fato. Foi uma época difícil para o forró.
Egídio Raposo nunca se incomodou ou deixou-se abater quando alguns críticos musicais do eixo Rio-São Paulo diziam que suas músicas (críticos não sabem fazer nada, a não ser criticar a história dos outros), eram regionais. Isso aconteceu também com Luiz GonzagaMarinêsJackson do PandeiroGenival LacerdaTrio Nordestino, dentre outros. O mestre sanfoneiro tinha consciência da missão de um artista ou homem público, que é conviver com muitas intemperanças; conviver, até, com o contraditório. Ser uma bandeira como ele foi mais ainda, pois exige postura de líder. Isso porque, passa a ser defensor de costumes e expressões impregnadas, por sinal, nele próprio.
O mestre sanfoneiro tinha espírito empreendedor. Sempre acreditou na prosperidade da nossa terra. Jamais se deixou aniquilar pela inarredável falta de perspectiva que foi submetida, durante décadas, nossa região. Buscou caminhos e alternativas de superação. Fez da música sua religião. Para ele a música foi um sacerdócio. Era de ensinar com o exemplo. Falava pouco. Sempre respeitador e elegante. Elogiava muito e pouco criticava, agradecia muito e pouco reclamava, vivia suavemente e pouco cobrava dos outros. Vivia na dele, como se diz no cotidiano.
Egídio Raposo nunca teve solidão. Tinha uma esposa companheira, filhos amáveis e cuidadosos com ele, amigos verdadeiros (e muitos amigos), e o carinho do povo. Ele tinha a atenção e o respeito de todos. Filosofando aqui, ele viajou pelas avenidas da vida. E o mais fantástico: nas suas experiências encontrou-se consigo mesmo. Muitos nunca se encontram com seu ser. Ele viveu plenamente o seu ser. Sem ser escravo de ideias fixas. Tinha encanto pela vida.
Uma passagem de sua história. Em 1970, com a morte do seu filho João Bosco, parou de tocar sanfona. Pelo menos publicamente. Nosso esforço é para que o mestre sanfoneiro não seja relegado ao rol dos anônimos e esquecidos pela sociedade atual. Respeitar sua história e tomá-la como referência é uma atitude necessária e correta.
Egídio Raposo faleceu no dia 19 de abril de 2002. De câncer. Como se diz aqui pelas nossas bandas do Sertão: “Ele foi muito nós, e somos muito ele”. Sua personalidade enriquece a história do Piauí, da nossa região. Viveu em forma extremamente simples, mas ao mesmo tempo fascinante e encantadora. Sua memória contempla nossa esperança. Palavras de Tita Veiga, sobre ele:
- Sem Egídio Raposo, São Raimundo Nonato-PI é uma festa com forró pé de serra sem sanfona. Musicalmente, perdemos a grande alma. O mestre.
Não nascem mais, na sociedade de hoje (ou melhor, não se formam) homens da grandeza dele. Jogar luz à sua história é fazer brilhar a nossa própria história. Será sempre apreciado por suas qualidades de mente e de coração. Somos matéria e espírito. Dessa forma, a morte não é o fim. Apenas a ausência da matéria. Espiritualmente, ele vive em cada um de nós. É imortal. Está por toda parte. Está nas apresentações musicais e culturais, nas salas de reboco, nos concertos musicais, na nossa memória, no dia a dia de nossas vidas. Está, principalmente, na nossa “veia”, por onde passa o “sangue” do forró.
Ficou sua história. Seu nome. Seu exemplo de vida. Zeca Damasceno, escritor e historiador autodidata, meu tio-avô, disse certa vez palavras bonitas e importantes sobre Egídio Raposo:
- Impossível esquecê-lo. Egídio Raposo: o professor de sanfona. O líder musical que descobriu o valor cultural da nossa terra. E por ela construiu uma mensagem de valorização. Derrubou ainda a mensagem idiota de uma cultura alienada às imposições de outras regiões ou de uma classe alta elitista. Sob sua influência valorizou-se a cultura popular da região, os costumes do povo humilde. Desbravaram-se as nossas tradições. Reformulou-se a temática de nossa música. Valorizaram-se as fontes da nossa sabedoria popular.
O mestre sanfoneiro será sempre lembrado. Isso porque, grande parte de nossa história musical se confunde com sua história. Fez parte de uma geração que se agigantou diante de uma realidade social cruel. Sua história é resultado de uma imensa luta, de infinitas ações, de inúmeras realizações, do seu heróico trabalho. É a força de tudo isso. Pela sua história e pela pessoa que foi, merece o nosso respeito. Um homem destemido, de inteira ação. Honrou-nos com sua existência. Seu nome está inscrito no panteão da imortalidade.
Para os inumeráveis conterrâneos, a história de Egídio Raposo é orgulho regional e patrimônio cultural. Aqui fica consignada a nossa homenagem ao mestre sanfoneiro, e a alegria incontida de ter podido fazê-la.
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Marcos Oliveira Damasceno, 30 anos, escritor. Autor de 15 livros publicados. Natural de Dom Inocêncio – PI. Doutorado em Filosofia Política. Fundador e proprietário da Produtora Sertão.

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