27 de jan de 2011

Geraldo Correia - Um baixinho e seus oito baixos - texto escrito por Leo Rugero

Geraldo Correia, nasceu em Natuba, Paraíba, em 1935. Com um ano de idade, sua família se estabeleceu em Campina Grande. Ainda menino, Geraldo começou a sentir fascínio pela pequena caixinha de madeira que pertencia ao irmão mais velho e ficava guardado em cima de um ármário, uma sanfona de oito baixos.
 Quando o seu irmão, Severino Correia, estava ausente, Geraldo pegava furtivamente a sanfoninha e começava a praticar. Até que um dia, seu irmão chegou a casa, e viu o pequeno Geraldo desembaraçadamente com seu instrumento. No dia seguinte, Geraldo Correia ganharia do irmão sua primeira sanfona de oito baixos.
Começou sua atividade profissional tocando nos bailes, comícios e cabarés de Campina Grande.Em 1954, passou para o acordeom de 120 baixos, e deu início a atividade profissional nas rádios. Segundo lembra o próprio Geraldo, "em 1954, passei para o acordeom. Aí eu me peguei com o acordeom, eu labutei na rádio Borborema, que é essa rádio atual que nós temos agora na Paraíba e em Campina Grande, toquei também na rádio Catureté, toquei na rádio Cariri, aí, depois, passou algum tempo, eu viajei para o Recife. Toquei três anos na rádio Tamandaré, no Recife".  
A primeira oportunidade para uma gravação discográfica surgiu em 1964, a convite de seu amigo de infância, Jackson do Pandeiro. Geraldo se dirigiu para o Rio de Janeiro, onde gravou o primeiro LP, pelo selo Polydor. De acordo com a lembrança de Geraldo Correia, "eu cheguei no estúdio na Philips, tava o conjunto pronto. Era Dino no sete cordas, Meira no seis cordas, Boto na bateria, Tinda – irmão do Jackson do Pandeiro, Cícero no zabumba e Genival Lacerda fazendo o chocalho".
Acompanhado por este escrete de ouro, sairia do forno, ainda em 1964, o disco de estréia de Geraldo Correia, "Um baixinho e seus oito baixos".
Poderíamos afirmar que Geraldo Correia é uma figura mítica da sanfona de oito baixos. Arredio, homem de poucas palavras, afastado da atividade profissional mais intensa desde a década de 80, sistemático, poderia bem ser etiquetado como uma espécie de "João Gilberto da sanfona de oito baixos". 
Totalmente avesso à badalações e em contrapartida ao seu isolamento, é um dos sanfoneiros mais influentes na história da sanfona nordestina, não apenas devido a  interpretação técnica e vigorosa, que já suscitou elogios de músicos como Oswaldinho e Dominguinhos, bem como pelo conjunto de sua obra, composto por choros, forrós, valsas, arrasta-pés, baiões e até mesmo merengues, que  fazem parte do repertório de muitos sanfoneiros.









24 de jan de 2011

1973 - Zé Honório - Balaio de Gatos no Forró


Zé Honório é um sanfoneiro que teve intensa e destacada carreira profissional sobretudo nos anos 70, quando gravou discos por um grande selo - CANDEM/RCA, e atuou em forrós importantes do cenário paulistano como o "Forró do Asa Branca", no qual foi premiado como melhor sanfoneiro de 8 baixos por alguns anos consecutivos.
Recentemente, com a revalorização gradual que a sanfona de oito baixos vem recebendo, o trabalho de Zé Honório tem sido redescoberto. Como prova deste fato, o músico tem reaparecido através de canais de vídeos como o Youtube e sites de compartilhamento de arquivos como o Forró em Vinil, seja através de postagens de LPs deste artista, seja através de videos de performances recentes, que mostram que o músico ainda está em plena forma, embora  afastado da atuação profissional mais intensa das décadas anteriores.
Neste disco "Balaio de gatos no forró", lançado em 1973 pela RCA, Zé Honório é acompanhado por  regional formado por violão, cavaquinho e variado naipe percussivo, executando com fluidez e precisão um repertório instrumental com predomínio de forrós. Destaques para o frevo "Brinacando na Rua", o belíssimo choro "Saudades da Minha Terra" e o baião "Peneirando farinha". 




Lado 1:
1.     Balaio de gatos ( Zé Honório – Wagnésio)- forró
2.     Curió (Zé Tatu – Prof. do Ritmo) – forró
3.     Peneirando farinha (Zé Honório – Valdete) – baião
4.     Esquenta forró (Zé Honório – Wagnésio) – forró
5.     Fandango em festa (Zé Honório – Ricieri Facciolli) – forró
6.     Subindo a Carajana (Zé Honório – Renato Leite) - forró

Lado 2:
1.     Brincando na rua (Zé Honório – Marcelo José) – frevo
2.     Caminho do Egito (Zé Honório – D. Teixeira) – forró
3.     Chegadinho (Valdete – Toninho Maciel) - forró
4.     Saudades da minha terra (Zé Honório – Constantino Galhardi) - choro
5.     Terreiro de Jesus (Túlio Ricardo) - forró
6.     Moendo Cana (Zé Honório – Eleno Luz) - coco



18 de jan de 2011

Dona Gracinha da sanfona endiabrada

Fonte: Jornal Zona Sul - entrevista concedida à Roberto Homem


ENTREVISTA: DONA GRACINHA

DONA GRACINHA DA SANFONA ENDIABRADA



Dona Gracinha é piauiense, mas mora em Brasília há vários anos. Discípula de Luiz Gonzaga, ela toca sanfona como uma Jimmy Hendrix sertaneja. Desde os sete anos de idade, Dona Gracinha da Sanfona vem animando arrasta-pés e se apresentando em bares e casas de espetáculo do Piauí, Distrito Federal, Goiás e Maranhão. Ela nunca perdeu o embalo, nem mesmo quando perdeu parte da perna direita - conseqüência de um acidente automobilístico. E olha que Dona Gracinha já nasceu com a visão do olho direito comprometida. Atualmente lidera uma banda que conta com guitarra, zabumba e triângulo.

A entrevista com Dona Gracinha da Sanfona só foi possível graças ao apoio de Júnior Piauí, proprietário do salão de beleza JD Studio, na loja 50 do bloco B da quadra comercial da 315 Norte, em Brasília. Além de ajudar com as perguntas, ele tocou zabumba na apresentação que a sanfoneira fez no intervalo e no final da conversa. É bom destacar que, a exemplo da entrevista anterior com o violonista Glauco Porto, esta também foi transmitida ao vivo no site www.myspace.com/robertohomem . Segundo relatório do site MixMap (http://www.mixmap.com/), 54 computadores acessaram a página em algum momento das cerca de duas horas que durou a transmissão. Várias perguntas dos internautas foram respondidas por Dona Gracinha.

O também piauiense Chiquinho Sales mostrou seu talento no triângulo e na coordenação da sala de bate papo (durante a transmissão ao vivo da entrevista no site do Myspace) e também dando ritmo às perguntas. Um vídeo de Dona Gracinha tocando A vida do viajante (Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil), gravado na noite da entrevista, pode ser acessado nowww.myspace.com/robertohomem . Ela toca sanfona acompanhada por Júnior Piauí (zabumba) e Chiquinho Sales (triângulo). Quem quiser contratar a entrevistada do mês do Zona Sul pode ligar para (61) 3274-3496. (robertohomem@gmail.com)


ZONA SUL – Seu nome é Maria das Graças do que?
GRACINHA – Meu nome é Maria Vieira da Silva.

ZONA SUL – Por que então lhe chamam de Dona Gracinha?
GRACINHA – Foi um erro. Eu nasci no dia de Nossa Senhora de Lourdes. Minha tia errou o nome. Era pra ser Maria das Graças. Só no registro é que é Maria Vieira. Mas todos me conhecem por Gracinha. 

ZONA SUL – Maria Vieira, então, nunca saiu do papel...
GRACINHA – É verdade. Isso mesmo.

ZONA SUL – Onde a senhora nasceu?
GRACINHA – No Piauí.

ZONA SUL – Em qual cidade?
GRACINHA – Em Floriano, na divisa do Piauí com o Maranhão.

ZONA SUL – Faz muito tempo?
GRACINHA – Faz muito tempo. (risos). Estou com 65 anos...

ZONA SUL – (os risos continuam) Nós não íamos perguntar a idade da senhora...
GRACINHA – Agora eu já disse. É que quando me foi perguntado se eu tinha nascido há muito tempo, pensei que era para eu responder dizendo a minha idade. Foi por isso que eu falei.

ZONA SUL – Um internauta está fazendo a seguinte pergunta: a senhora é eleitora do ex-governador e hoje senador piauiense Mão Santa?
GRACINHA – Eu não. Sou só amiga dele.

ZONA SUL – A senhora não vota nele porque seu título de eleitor é de Brasília e ele sempre se candidata no Piauí ou não votaria mesmo que morasse lá?
GRACINHA – Não voto porque não voto mesmo. (risos). Se eu votar eu não vou ganhar nada com isso...

ZONA SUL – Então deixemos a política para lá... Como foi sua infância?
GRACINHA – Foi tocando sanfona.

ZONA SUL – A partir de qual idade?
GRACINHA – A partir dos sete anos.

ZONA SUL – Como uma sanfona chegou às suas mãos pela primeira vez?
GRACINHA – É o seguinte: meu tio era músico. Ele tocava contrabaixo. Assistindo ele tocar, comecei a construir uns pandeirinhos com latas de goiabada, sabe? Eu nunca quis brincar de boneca não. Meu negócio era só botar um revólver do lado e brincar daquilo. Meu negócio era vestir calça de homem, essas coisas. Comecei tocando gaita de boca. Depois passei pra sanfona. Esse meu tio me deu uma sanfona de quatro baixos, bem pequenininha, de brinquedo. Fui aprendendo por ali, tocando...

ZONA SUL – E essa sua primeira sanfona?
GRACINHA - Era da marca Hering, de madeira. Era bem pequenininha. Foi nela que aprendi. Depois passei para uma de oito e agora estou com essa. Antes de eu perder a perna, eu estava me acostumando com um acordeom. Mas era muito pesado. Eu vendi. Tinha comprado no Guará, e vendi.

ZONA SUL – A senhora aprendeu a tocar sanfona sozinha?
GRACINHA – Sozinha... Um cara me deu umas aulas para eu conhecer as tonalidades. Eu aprendi só, mas tinha que conhecer os tons. Fui aprendendo devagarzinho. A primeira música que aprendi a tocar foi Juazeiro, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Aí fui tocando por ali, tocando em festa. Quando aprendi, o pessoal já me chamava para tocar festa.

ZONA SUL – Com qual idade você passou a tocar forró nas festas?
GRACINHA – Quando aprendi, com sete anos, já foi pra tocar festa. Quando cheguei aos 18 anos eu já estava craque.

ZONA SUL – Sua família já liberava você para tocar em festa com apenas sete anos?
GRACINHA – Muitas vezes a tia com quem eu morava não me deixava sair. Eu ia escondida. Pegava um jumento, botava uma cela nele e ía para o bairro de Nossa Senhora da Guia, na minha cidade. Ficava lá e só voltava de noite. Eu tocava mesmo. Minha tia no começo não queria deixar. Eu tocava só com homem na minha banda.

ZONA SUL – Aos 18 anos a senhora ainda morava em Floriano ?
GRACINHA – Sim, em Floriano, mas foi com essa idade que mudei para Brasília. Toquei muito forró por lá. Nesse tempo não tinha carro, a gente andava era de jumento. Botava a sanfona na carga de jacá. Sabe o que é jacá, não é?

ZONA SUL – Não.
GRACINHA – É um cesto de bambu. Nesse tempo, as pessoas que me acompanhavam não tinham zabumba, não tinham nada. Era só um bombo com os pratos e um reco-reco. A gente tocava a noite todinha nesse Piauí velho.

ZONA SUL – E o poeirão cobria...
GRACINHA – Era latada, nesse tempo era latada. Sabe o que é latada? Faz uma latada coberta de palha de carnaúba, aí tem a portaria pra cobrar a cota. Nesse tempo a cota era cinco merréis. O povo dançava até de manhã nessa festa. E eu ganhava dinheiro, viu?

ZONA SUL – A senhora ajudava nas despesas de casa com esse dinheiro que ganhava tocando nas festas?
GRACINHA – Não!!! O dinheiro era pra mim. Eu morava com a minha tia, ela tinha recursos. O dinheiro era só para eu beber cachaça...

ZONA SUL – A senhora começou a beber cachaça com qual idade?
GRACINHA – Na mesma época em que comecei a tocar. Eu inventei uma dor de dente pra tomar conhaque.

ZONA SUL – A primeira bebida foi conhaque...
GRACINHA – Pois é. Aí pronto, não acabou mais. Gostei. (risos)

ZONA SUL – Os internautas estão querendo saber se a senhora já tocou em Campo Maior, no Piauí.
GRACINHA – Não. Toquei em São Domingos, no Maranhão e em São João dos Patos, também no Maranhão, mas em Campo Maior, não.

ZONA SUL – O pessoal que acompanha ao vivo essa entrevista, através do site http://www.myspace.com/robertohomem, quer saber quando a senhora saiu do Piauí e por qual motivo.
GRACINHA – Eu morava com uma tia minha, e ela faleceu. Eu vim pra cá, pra Brasília porque meus irmãos moravam todos aqui. Minha mãe morava aqui também. Éramos 11 irmãos. Uns moram até hoje no Guará, outros moram no Cruzeiro. Moro com minha irmã na Asa Norte. Cheguei a Brasília com 18 anos, aí perdi a perna, em um acidente...

ZONA SUL – Como isso aconteceu?
GRACINHA – Foi quando eu estava atravessando uma pista. E olha que eu não tinha bebido nada! Estava sozinha. Eu tinha ido buscar, na casa de uma amiga minha, umas encomendas do Piauí. Fui atravessar a rua por trás de um ônibus. Quem já viu atravessar detrás de ônibus? Um fusca me pegou. Fui jogada a dois metros da pista. Se eu tivesse batido a cabeça no meio-fio, teria morrido na hora. Mas Deus não quis e eu estou aqui tranqüila, tocando a minha sanfona.

ZONA SUL – Faz quanto tempo que ocorreu esse acidente? A senhora tinha qual idade?
GRACINHA – Quando perdi a perna eu tinha 30 anos.

ZONA SUL – A pessoa que atropelou a senhora respondeu a algum processo? Cumpriu alguma pena? Pagou alguma indenização?
GRACINHA – O cara não tinha dinheiro nem para comprar uma muleta de pau... Tinha não. Ficou por isso mesmo.

ZONA SUL – Ele pelo menos prestou socorro?
GRACINHA – Prestou, mas não tinha dinheiro nenhum. O cara tinha saído para comprar um remédio para o menino, e me atropelou. Só levou para o hospital. O médico errou o gesso. Depois de uns dias o pé começou a ficar vermelho. Eu nunca tinha engessado nada antes. Nas vezes que voltei ao hospital, eu disse a ele que o gesso estava apertado. O médico me mandava tomar um AAS (Ácido acetilsalicílico). E foi indo e o pé ficando vermelho, ficando vermelho. O acidente foi numa terça-feira. No sábado, quando voltei lá, o pé já estava muito ruim. Ele não queria fazer a operação. Meus irmãos se juntaram - cinco mulheres e cinco homens - e disseram que ele ia fazer a operação naquela hora. "Se não a gente lhe mata aqui no hospital", ameaçaram. Aí o médico fez. Foi luta pra me convencerem a deixar cortar a perna. Foi psicólogo, foi tudo. Por fim, me explicaram que se eu não deixasse cortar, eu morria. Aí cortou. Mas estou aqui viva, graças a Deus, tocando sanfona e tomando uma pinga.

ZONA SUL – Tomando uma Pitu de vez em quando...
GRACINHA – Não gosto de Pitu, eu só bebo coisa cara. (risos)

ZONA SUL – Tocar forró no Piauí, em Floriano, é uma coisa normal. Como a senhora foi recebida aqui em Brasília, já que a cidade tem mais cara de rock do que de forró? Foi muito difícil?
GRACINHA – Foi não. Eu comecei a tocar nos barzinhos. Eu morava em Sobradinho, tocava sempre nos bares de lá. Depois comecei a tocar em vários outros lugares.

ZONA SUL – Quer dizer que a senhora não encontrou muita dificuldade para mostrar a sua arte na capital do país...
GRACINHA – Não. No começo, o pessoal só queria que eu tocasse em bar sem ganhar dinheiro. Só em troca da bebida. Mas depois de algum tempo passei a recusar e a responder que se eu quiser beber, eu bebo na minha casa. Eu deixei de fazer isso. Eu fazia, mas agora não faço mais. Atualmente eu toco vez por outra no Café da Rua 8, que fica na 408 Norte, no Feitiço Mineiro e no Balaio. A partir de abril vou tocar no Balaio toda quinta-feira. Sábado passado eu toquei na Chapada dos Veadeiros. Sempre vou aos festivais que acontecem lá.

ZONA SUL – Mais uma pergunta dos internautas: a senhora sabe tocar o Hino Brasileiro na sanfona?
GRACINHA – Tranqüilo.

ZONA SUL – E o hino do América de Natal?
GRACINHA – O hino do América eu não sei não. (risos). Eu sou flamenguista, hein?

ZONA SUL – Outra pergunta feita pelo pessoal que participou ao vivo da entrevista: a senhora, além de tocar, também canta?
GRACINHA – Não. Só instrumental.

ZONA SUL – Quais as influências que a senhora recebeu na música? O que a senhora ouvia quando era pequena?
GRACINHA – Luiz Gonzaga, o rei do baião. Eu o vi pequenininho na casa de um amigo meu. O nome do homem era Arudá. Morava pertinho de casa. Eu era pequenininha. Não lembro direito.

ZONA SUL – Segundo Chiquinho Sales, Luiz Gonzaga se apresentou muito no Piauí patrocinado pelas bicicletas Monark.
GRACINHA – Pois é. Eu lembro dele tocando por lá na década de 70. Comecei tocando as músicas dele, mas eu hoje toco tango, toco bolero, toco valsa... Tudo o que você quiser.

ZONA SUL – Quer dizer que seu repertório não é só forró.
GRACINHA – É não. Toco tango, pagode, tudo o que a pessoa pedir.

ZONA SUL – Qual foi a apresentação da senhora que reuniu o maior público?
GRACINHA – Foi um show no Café da Rua Oito, em 2001. Inclusive a apresentação foi filmada pela TV Globo. Já apareci várias vezes na Globo.

ZONA SUL – A senhora já gravou algum CD?
GRACINHA – Não. Eu estou arrumando um. Tenho só um CD de divulgação. Eu gravei no Café da Rua Oito, mas é só para divulgação. Eu até esqueci de trazer pra mostrar. A gente vai gravar um DVD em breve.

ZONA SUL – Desde que a senhora saiu do Piauí sempre morou em Brasília ou residiu em outros lugares? Esta é mais uma pergunta feita pelos internautas.
GRACINHA – Sempre morei aqui mesmo, desde que deixei o Piauí. Cheguei em Brasília no dia 18 de janeiro de 1970. Meus irmãos já moravam aqui há muito tempo.

ZONA SUL – Além do Piauí, Goiás, Distrito Federal e do Maranhão a senhora já se apresentou em outros estados?
GRACINHA – Em Goiás, além de ter feito show na Chapada dos Veadeiros, eu toquei também em Valparaíso.

ZONA SUL – A senhora volta sempre ao Piauí?
GRACINHA – Cheguei de lá agora. Há pouco tempo.

ZONA SUL – Quando a senhora vai ao Piauí sempre é contratada para se apresenta por lá?
GRACINHA – Não. A sanfona caiu demais no Piauí. O negócio lá é banda não sei do que, banda não sei do que lá. Acabaram os sanfoneiros. Sanfoneiro lá passa fome. Um cara me disse que foi tocar lá - tocou contratado pela prefeitura - passou seis meses pra receber 500 contos. Meu vizinho disse isso, meu amigo.

ZONA SUL – A senhora já tocou com Gilberto Dias, de São Raimundo Nonato?
GRACINHA – Não. Toquei com Zeca Baleiro.

ZONA SUL – Foi em um evento do Centro Cultural Banco do Brasil?
GRACINHA – Sim. Foi em outubro.

ZONA SUL – Estão perguntando na sala de bate papo se a senhora se apresentou com Dominguinhos.
GRACINHA – Não. Só conversei com ele no Clube do Choro.

ZONA SUL – Quais os sanfoneiros que a senhora admira?
GRACINHA – Bom mesmo são o Dominguinhos, Luiz Gonzaga e Sivuca.

ZONA SUL – A senhora também compõe?
GRACINHA – Não, eu só executo. Eu estou até inventando algumas músicas, mas não estão prontas. Eu tenho ainda que ensaiar.

ZONA SUL – Essa vontade de compor surgiu recentemente ou é coisa mais antiga?
GRACINHA – Eu toco com uma banda que tem guitarra, zabumba e triângulo e a gente inventou de querer gravar um CD. A gente está esperando o dinheiro do Ministério da Cultura. Inclusive a gente já tocou quatro shows de graça pra ver se esse dinheiro sai.

ZONA SUL – Como o dinheiro não saiu, esses shows estão sendo de graça mesmo... (risos)
GRACINHA – Outro dia chamaram para o quinto show. Eu respondi: já chega, chega de show.

ZONA SUL – A senhora falou sobre o assunto com o ministro Gilberto Gil?
GRACINHA – Não. É difícil conversar com esse homem.

ZONA SUL – Os internautas perguntam se Gilberto Gil toca de graça também...
GRACINHA – Só se for pra Lula. Eu, de graça, nem relógio.

ZONA SUL – A senhora tem planos para o futuro? O que a senhora gostaria que acontecesse?
GRACINHA – Queria que as coisas melhorassem mais. Saúde, que não tem...

ZONA SUL – A senhora está com algum problema de saúde?
GRACINHA – Não!!! Eu queria que tivesse mais saúde para o pessoal que está precisando. Mas, falando sobre o que eu queria que acontecesse pra mim, eu queria gravar um CD e um DVD. Queria fazer sucesso.

ZONA SUL – Além de Zeca Baleiro, a senhora tocou com mais algum artista conhecido?
GRACINHA – Toquei com o Trio Pequizeiro, lá na Chapada dos Veadeiros. Toquei com o Trio Cajazeiras, aqui em Brasília. Também com o Trio Asa Branca. Inclusive, outro dia fui tocar com 13 sanfoneiros, em Ceilândia. Eu, a única mulher, ganhei o primeiro lugar. Moço, eles não tocam nada. É só aquele foliado, mas não sai nada. Sanfoneiro é aquele que explica a música, que quando está tocando sabe qual é a música. Eu tocava com a sanfona na cabeça, nas costas e não tinha bebido nada. O povo gostou demais.

ZONA SUL – O problema que a senhora teve na perna dificultou para tocar sanfona?
GRACINHA – Não!!! A sanfona não se toca com a perna, é com os braços... Ôxe! (risos)

ZONA SUL – Mas a sanfona, um bicho pesado desses...
GRACINHA – Mas essa aqui é pequenininha. (risos). Desculpe a brincadeira.

ZONA SUL – Que é isso! Um internauta de Brasília quer saber se a senhora vai tocar esse ano na festa dos piauienses que sempre ocorre no Nação Piauí.
GRACINHA – Se me chamarem, eu vou. Toquei o ano passado. Tinha muito piauiense lá e eu dei um show. Tinha muita gente. Eita Piauí doido!

ZONA SUL – O número de piauienses que mora em Brasília é muito grande. No Distrito Federal, os piauienses só perdem para os goianos e os mineiros.
GRACINHA – É isso mesmo.

ZONA SUL – O problema na vista direita que a senhora tem também foi por causa do acidente?
GRACINHA – Não. Eu já nasci assim. Só enxergo com o olho esquerdo. O problema foi de nascença.

ZONA SUL – Quando a senhora veio morar em Brasília, seus irmãos faziam o que por aqui?
GRACINHA – Meus irmãos construíram Brasília. Uns trabalharam como marceneiros, outros como pedreiros... Os primeiros que vieram foram trazendo os outros para morar aqui.
ZONA SUL – Algum dos seus irmãos toca?
GRACINHA – Nenhum deles sabe tocar nada. Só eu.

ZONA SUL – Outra pergunta dos internautas: a senhora conhece o compositor piauiense Clodo Ferreira? Parece que vocês são vizinhos de quadra.
GRACINHA – Já o vi, mas não o conheço pessoalmente. Sei quem ele é, sei que ele é músico e compositor. Sei quem é. Ele mora no bloco pertinho do meu.

ZONA SUL – Prosseguindo com as perguntas feitas pela internet: a senhora já comeu carne de sol de Caicó?
GRACINHA – Não. Mas se essa pessoa que fez a pergunta quiser mandar pelo menos uns dois quilos dessa carne de sol, eu como. No ato!

ZONA SUL – Nesse instante ouve uma pausa na entrevista para Dona Gracinha tocar algumas músicas. Durante a apresentação, ela fez malabarismos com a sanfona, tocando inclusive com o instrumento na cabeça. A entrevista foi retomada com um comentário do internauta Sérgio Luís, que assistia direto de Natal: "eu já vi muito músico tocar de ouvido, mas de cabeça não".
GRACINHA – (muitos risos) Isso é apenas uma brincadeira. É palhaçada.

ZONA SUL – Outro internauta de Natal, Ronaldo, aconselhou a senhora a não tocar muito com a sanfona na cabeça para não tirar a tinta dos cabelos.
GRACINHA – (risos) Não tem perigo, não sai não. A cor é natural. Ou então só se eu pintei os cabelos de branco. Isso aqui é branco mesmo, não sai não.

ZONA SUL – Essa sua sanfona é de quantos baixos?
GRACINHA – De vinte e quatro baixos.

ZONA SUL – A senhora também toca sanfona de oito baixos?
GRACINHA – Toco. Toco tudo. Só sanfona com palheta (teclado) que eu não sou bem prática, não sou boa no acordeom.

ZONA SUL – Além de gaita e sanfona, a senhora toca mais algum instrumento?
GRACINHA – Não. Bato pandeiro, só.

ZONA SUL – A sua sanfona é piauiense também?
GRACINHA – Não, eu a comprei aqui mesmo em Brasília, há pouco tempo. Mas ela é do Rio Grande do Sul.

ZONA SUL – Com essa história de tocar com a sanfona na cabeça a senhora nunca foi chamada de "a Jimmy Hendrix da sanfona"?
GRACINHA – Não. O povo me chama mesmo é de Dona Gracinha da Sanfona. Outro dia toquei com a sanfona nas costas e fiz molequeira na Chapada dos Veadeiros. Mas foi só pra brincar. Um cara que toca comigo diz que eu tenho a sanfona envenenada.

ZONA SUL – A senhora falou que começou a beber muito cedo. A bebida já atrapalhou algum show seu?
GRACINHA – Não. Só bebo depois do show. Antigamente, no Piauí, eu bebia muito. Mas agora eu só bebo depois que termino de tocar a última música. Agora eu estou séria, tenho uma banda de forró. Estou levando bem a sério esse negócio de tocar.

ZONA SUL – A senhora é casada?
GRACINHA – Não! Ave Maria! Minha profissão era só tocar. Nunca quis casar e tomar conta de menino não. Tá doido! Menino dá trabalho.

ZONA SUL – Algum familiar seu ainda mora no Piauí?
GRACINHA – Tenho por lá alguns primos por parte de minha mãe.

ZONA SUL – A senhora já voltou ao Piauí apenas para fazer shows?
GRACINHA – Não. Lá não rola mais não. Lá sanfoneiro caiu, como eu já disse. O povo lá não quer saber. Mas, apesar disso tudo, eu vou fazer um show em Teresina, em agosto. Já está tudo acertado.

ZONA SUL – A senhora fez uma gravação no Feitiço Mineiro para ser lançada em DVD?
GRACINHA – A gravação não era do DVD. Era para divulgar esse DVD que vai sair sim. O esquema é com a UnB (Universidade de Brasília).

ZONA SUL – Quando a senhora se apresentou com Zeca Baleiro teve oportunidade de conversar com ele?
GRACINHA – Conversei com ele sim. Ele é gente boa. Disseram a ele que eu era sanfoneira. Ele não conhecia o meu trabalho. Fui convidada para tocar, com a minha banda. Eu também não conhecia o trabalho de Zeca Baleiro, não.

ZONA SUL – A senhora conhece a internet? Faz algum tipo de divulgação através dela?
GRACINHA – Lá em casa tem. Mas eu não sou muito ligada não.

ZONA SUL – É verdade que a senhora ia tocar com Frank Aguiar na Embrapa?
GRACINHA – Pois é. Mas não deu. Tinha uns políticos lá falando, demorou muito e o Frank Aguiar não esperou. A gente ia tocar mesmo. Os políticos começaram a falar do Piauí, não sei o que, não sei o que mais lá e ele não esperou.

ZONA SUL – Durante alguma apresentação da senhora chegou a acontecer briga?
GRACINHA – Ave Maria! Tinha briga que o pessoal derrubava o candeeiro, e era aquela luta. Eu fui tocar em uma festa, no povoado de Tingui, no Maranhão. Fui com a minha tia e o meu primo. Comecei a apresentação. Quando eu tava tocando "O candeeiro se apagou" inventaram uma briga. Minha tia e meu primo me levaram para dentro de um quarto. Ficou a noite toda nessa lengalenga. Quando parava a briga, eu voltava a tocar. Mas quando começava “O candeeiro se apagou”, a confusão se armava de novo. Um perguntava para outro: “quem é o bom aqui, pois eu sou é homem”. E o pau quebrava. Só sei que ganhei o dinheiro quase sem tocar. Começava a confusão, me guardavam dentro de um quarto. Foi a noite todinha nesse trem. Outra vez - nessa época eu ainda tinha duas pernas - fui tocar em uma festa e tive que fugir de uma briga. Pulei uma cerca de arame com a sanfona nas costas fazendo fom fom fom! Eu enxergo pouco, mas quando bebo uma, enxergo tudo!

ZONA SUL – A senhora conhece Natal?
GRACINHA – Não. Só de nome. Mas nunca estive nessa cidade. Um filho do meu primo mora lá. Mas eu nunca fui.

ZONA SUL – E sobre os Meirinhos do Forró a senhora já ouviu falar?
GRACINHA – Já ouvi falar. Mas nunca os vi tocar pessoalmente. Gostaria de conhecer mais o trabalho deles.

ZONA SUL – Zê Britto, que está acompanhando a entrevista pela internet aqui em Brasília, quer saber se a senhora topa tocar em apresentações de mamulengo.
GRACINHA – Claro que sim. Eu até já toquei com um mamulengueiro, o Paulo de Tarso, aqui em Sobradinho. Já toquei com ele. Toquei também com Marcela, que mexe com palhaçada. No Boi do Seu Teodoro eu não toquei ainda não. Toquei no Parque da Cidade e no Park Shopping, em apresentações de teatro.

ZONA SUL – Os internautas estão cobrando que a senhora faça uma página na internet para divulgar o seu trabalho.
GRACINHA – A gente faz. Vamos ver isso.

ZONA SUL – A senhora já concedeu muitas entrevistas?
GRACINHA – Algumas. Já falei na Globo, para divulgar alguns shows. No Correio Brasiliense eu também dei uma entrevista muito boa.

ZONA SUL – A senhora se arrepende por ter feito ou deixado de fazer algo na sua vida?
GRACINHA - Não. De jeito nenhum. Eu não roubei nem matei ninguém. Só alegrei muita gente e estou alegrando até hoje. O que importa é que estou feliz.

ZONA SUL – Deixe uma mensagem para o povo de Natal. Lá tem algumas ótimas casas de forró, como o Zás Trás. Quem sabe alguém de lá não se interessa por contratar alguns shows da senhora?
GRACINHA – É? Muito obrigado a todos pela atenção. Se quiserem me levar praí é só chamar Dona Gracinha da Sanfona. Meu telefone para contato é (61) 3274-3496. E calma que o Brasil é nosso!!!

Jornal Zona Sul: ENTREVISTA: DONA GRACINHA

Jornal Zona Sul: ENTREVISTA: DONA GRACINHA: "DONA GRACINHA DA SANFONA ENDIABRADA Dona Gracinha é piauiense, mas mora em Brasília há vários anos. Discípula de Luiz Gonzaga, ela toca sa..."

13 de jan de 2011

Didinho dos Oito Baixos Solo


Forró arretado com Didinho dos oito baixos, alair(zabumba) e Deilson (triângulo). Video postado originalmente no youtube
http://www.youtube.com/watch?v=6dRNc4g_7y4

7 de jan de 2011

Fotos do Encontro de Sanfoneiros de São Paulo

Colaboração de Everaldo Santana.


Fotos do 7o Encontro de Sanfoneiros, ocorrido no dia 11 de Dezembro de 2010, em São Paulo. O evento foi promovido por Lene dos 8 baixos, tendo sido realizado no "Bar do Lene", em Jardim São Vicente, lbairro do município de Embu das Artes.

         Tranquilo dos 8 Baixos,Everaldo Santana,Tico dos 8 Baixos e Dudu dos 8 Baixos




Tico dos 8 Baixos,Dudu dos 8 Baixos e Adão Sanfoneiro

Zé Honório e Everaldo Santana

Tranquilo dos 8 Baixos

Tico dos 8 Baixos

Sival dos 8 Baixos

 Lene dos 8 Baixos

calango

Visitando o excelente site Jangada Brasil 

me deparei com esta matéria anônima que data de 1977. Sim, já se passaram mais de três décadas, e o texto anunciava a possível absorção do Calango pelos meios de comunicação de massa. De fato, houve esta tentativa por parte da indústria fonográfica, sendo relativamente comum a inclusão de calangos no repertório fonográfico, a exemplo de Martinho da Vila com o "Calango Vascaíno". Porém, passado o tempo, Calango, para a maioria das pessoas, continua sendo o nome do lagarto ainda abundante no estado do Rio de Janeiro. O gênero permaneceu circunscrito a esfera das músicas de tradição oral, não conquistando sua inclusão enquanto segmento da música popular "engarrafada". No repertório do Calango fluminense, a sanfona de oito baixos desempenha um papel primordial, não somente como instrumento acompanhador dos desafios - já que o Calango é primordialmente, um gênero pautado pelo desafio de "calangueiros", mas também como instrumento solista. Portanto, é possível detectar um repertório instrumental de Calango, como já mostramos aqui neste blog através do saudoso sanfoneiro petropolitano João Torquato.
No entanto, resta aqui a pergunta: - Por que o Calango não foi absorvido pela cultura "de massa"?E, caso isso tivesse ocorrido, quais teriam sido os benefícios dos calangueiros?


Calango










http://www.jangadabrasil.com.br/revista/junho125/fe12506.asp

Calango está em vias de ser absorvido pela massificação




  Em Raposo, distrito de Itaperuna, os hotéis oferecem todas as noites, bailes de calango, canto e dança típicos do centro-norte fluminense e de Minas Gerais. No caso de Raposo, o calango "deu a volta por cima" e está, inclusive, ganhando força e importância como som e ritmo, pois os veranistas, provenientes de vários pontos do país – Raposo é estância hidromineral – dançam e pedem bis. De modo geral, entretanto, essa manifestação do folclore fluminense está em vias de ser absorvida pela cultura de "massa". Escasseiam os bons sanfoneiros, sem o apoio, o calango não é tão quente e as inovações introduzidas no trabalho agrícola, dispersando o homem do campo desencorajam os cantadores. Estas e outras informações sobre calango estão no primeiro dos "Folhetos", editados pela Sociedade Amigos do Museu de Artes e Tradições Populares. A coleção destina-se a divulgar a arte popular fluminense, motivando o interesse e incentivando estudos e pesquisas sobre os temas abordados, segundo Vera de Vives, coordenadora dos "Folhetos" e diretora-adjunta do MATP, orgão da Femurj.

Valor da informação
A literatura especializada é praticamente muda, a respeito do calango. O Dicionário do folclore brasileiro, de Câmara Cascudo (Edições de Ouro, 1954, v.1, p.352) é o único de oito de compêndios consultados que registra informações sobre o calango. A ausência de estudos sobre ele é que, aliás, sublinha o valor do depoimento de Silvio Paixão, jornalista natural de Itaperuna, autor do texto do "Folheto", que vivenciou os bailes de calango e aplaudiu, em seu município de origem calangueiros famosos.
O calango é provavelmente originário da África, acreditando-se que os escravos o introduziram no Brasil como canto de trabalho e canto de folgar. Afora os Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, segundo Câmara Cascudo, existe calango no nordeste brasileiro, mas apenas cantado. O refrão entoado pelo improvisador, é repetido pelo coro, com acompanhamento de palmas. No Rio de Janeiro, além de música de dança, o calango é desafio, também chamado de "lera" em alguns municípios. O instrumental, nos bailes é formado, além da sanfona de oito baixos, por instrumentos de percussão, violão e cavaquinho. Nos desafios os contendores podem inclusive de prescindir de instrumentos o que acontece com freqüência, se o canto se liga ao trabalho.
Mas o local preferido para os desafios são as portas de vendas da roça, quando, ao fim do dia, parceiros e compadres se encontram, para beber cachaça e conversar. De repente, o verso se solta, um cantador espicaçando o outro. E a resposta costuma vir pronta e ferina, e então tudo e todos na localidade podem servir de tema aos desafiantes. Eles não apenas cantam, também dançam, rodopiando, e os assistentes participam da refrega, com vaias, aplausos, intervenções e comentários de apoio ou repúdio.
Já no calango-de-baile costuma-se iniciar o canto com versos tradicionais, decorados, que cedem lugar ao desafio improvisado quando o baile esquenta e se anima. Por isso mesmo, é comum encontrar um desafio dentro do baile. O mestre calangueiro toca sua sanfona sentado, mas gingando o corpo, como se sentado dançasse, e a seu lado surge um desafiante, repentista, que intercala na música versos provocantes. Calangueiro nenhum recusa o desafio, que só cessa pelo cansaço.

Vocabulário e métrica do calango
Os animais são uma constante, nos versos dos calangueiros. Câmara Cascudo fala em "gesta de animais", e o depoimento de Silvio Paixão confirma a assertiva: em possível ligação com as origens africanas – e a personificação de forças, virtudes e defeitos, em animais, faz parte das tradições e do folclore africano – o calangueiro não só se refere aos animais domésticos e selvagens, aves e bichos de pêlo, como enaltece sua importância. Deles se serve também para construir comparações laudatórias ou sarcásticas com que atinge o contendor.
Outros temas também usuais no calango são as pessoas dos próprios cantadores, que tanto se enaltecem e cantam suas próprias façanhas quanto agridem verbalmente os contendores.
A rima é normalmente pobre, ecoando geralmente em vogais, mas ainda assim muito versatilidade se exige dos calangueiros. Observamos em Duas Barras que o desafiado é obrigado a iniciar seu canto pela repetição do refrão introduzido pelo contendor. Quem inicia o desafio pode também "chamar" o desafiado a uma "linha", isto é, impor-lhe uma rima expressamente. Se o cantador diz, por exemplo: "estou lhe chamando na linha do sabiá", o desafiado terá que armar suas respostas com finais de versos apoiadas na vogal A, aberta.
Quanto ao ritmo, é quaternário, e o calangueiro o respeita, onde improvisa, adapta, é no que respeita a rima. No auge do entusiasmo, pode até fugir da "chamada" a determinada "linha".
A dança, no calango-de-baile, traz pares enlaçados muito juntos, que bailam balanceando o corpo. Há quem diga que o calango é um samba rural, o que nos parece correto, quanto ao calango-de-baile. Quanto ao calango-desafio, é misterioso, estranho e surpreendente o rodopio a que se entregam os contendores quando no calor da refrega esperam que o adversário termine de cantar para lhe dirigir resposta. O rodar insistente que muitas vezes leva o cantador a firmar-se em um pé só, se parece bastante aos volteios rituais dos feiticeiros africanos, e seria um elemento a mais a ligar o calango às origens negras.

Calango e mito
Daí também porque a palavra calango seja, no norte-fluminense, de acordo com Silvio Paixão, indicativa de saci-pererê, o negrinho de uma perna só, assoviador melodioso e exímio saltador. E, de acordo com o mesmo autor talvez por isso o calango qualifique também o "homem de melhor briga, melhor no trabalho, melhor de dança em tudo, e também misteriosamente invencível, dotado de qualidade singulares e inexplicáveis para vencer sempre".
É inegavelmente forte o conteúdo mágico da palavra calango, cujo significado abrange ainda o capeta. Conta Silvio Paixão que "a expressão mais forte desse sentido adquiriu forma física na década de 1950 em Itaperuna e arredores". Chamava-se Calango um famoso arrombador, assaltante de vendas que também se introduzia no quarto de mocinhas e senhoras, abrindo portas trancadas, cheias de fechaduras e até cadeias. "Os pais invocavam seu nome para assustar os filhos, e no chamamento estava presente o duplo significado, o do bandido e o do diabo com quem seguramente se aparentava, e de cujos poderes misteriosos seguramente participava".
E prossegue Silvio Paixão:
A conotação meio diabólica e misteriosa da palavra poderia explicar também porque os camaleões se chamam calango em quase todo o estado do Rio de Janeiro. O camaleão muda de cor, é arisco e veloz nas suas corridas sob o mato e sobre as pedras, não teme os calores fortes. É um lagarto grande, semelhante a um pequeno dragão. O povo o acredita muito venenoso. Vence o adversário com um dom só seu, o do mimetismo que parece mágica, assumindo a cor da pedra ou do galho onde se detém".
Do prestígio do calango é testemunho também a reverência que cerca os calangueiros mais famosos. São convidados para alegrar bailes, e sua ocasional ausência é lamentada. Silvio Paixão cita, em O calango norte-fluminense, o mestre Tião, calangueiro de Itaperuna, que introduziu a dança nos bailes dos hotéis. É sanfoneiro e três rapazes de sua família o acompanham com instrumentos de percussão. Afirma a quem o queira ouvir que o calango é o melhor ritmo que existe, e que por seu gosto, todos os bailes do mundo incluiriam seu balanço.

Geografia do calango
A partir de Cachoeiras de Macacu, pode-se encontrar bons calangueiros no Estado do Rio de Janeiro. Em Duas Barras, concentram-se muitos deles. O norte e nordeste do estado são porém particularmente ricos, no que respeita o número de cantadores. Miracema, Itaperuna, Bom Jesus, Natividade, Porciúncula, Laje do Muriaé, são terras de excelentes improvisadores. Além disso, ali os bailes de calango são ainda acontecimento freqüente, constituindo-se, no interior dos municípios, na única ocasião de lazer e convívio social de suas populações. Daí a importância que apesar do avanço da cultura de massa o canto do calango ainda tem em nosso Estado.

("Calango está em vias de ser absorvido pela massificação". O Fluminense. Niterói, 27 de fevereiro de 1977)

2 de jan de 2011

Lene dos 8 Baixos - No 7º Encontro de Sanfoneiros

Dudu dos 8 Baixos - No 7º Encontro de Sanfoneiros

Zé Honório - No 7º Encontro de Sanfoneiros

Zé Henrique dos 8 Baixos - No 7º Encontro de Sanfoneiros

Sival dos 8 Baixos - No 7º Encontro de Sanfoneiros

Tico dos 8 Baixos - No 7º Encontro de Sanfoneiros

Tico dos 8 Baixos - No 7º Encontro de Sanfoneiros

Manoel Honório dos 8 Baixos - No 7º Encontro de Sanfoneiros

Encontro de Sanfoneiros de São Paulo

Recebemos um e-mail do amigo Everaldo Santana, sobre o Encontro de Sanfoneiros realizado no Bar do Lene, localizado no Jardim São Vicente, bairro de Embu das Artes - SP. O evento, em sua sétima edição, reuniu  significativos representantes da arte da sanfona de oito baixos.
Ao lado do Rio de Janeiro, São Paulo foi um importante centro econômico de deslocamento de populações nordestinas. Neste contexto, em meados da década de 1950, como bem esclarece o musicólogo José Ramos Tinhorão, "na esteira da eufórica construção da nova capital e da corrida imobiliária paralela a explosão industrial na região centro-sul, os forrós constituíram um curioso exemplo de acomodação de interesses e expectativas culturais". Entre os forrós mais importantes surgidos neste contexto, podemos citar o "Forró do Xavier" em Botafogo,Rio de Janeiro, e o "Forró do Pedro" na Vila Carioca, em São Paulo.Sendo este último, de propriedade de Pedro Sertanejo. 
Em decorrência do contínuo processo de deslocamento de trabalhadores nordestinos aos grandes centros, houve uma verdadeira proliferação destes forrós na decada de 1960 e o consequente surgimento de um segmento fonográfico. Entre as atrações promovidas nestes forrós, estavam os solistas de sanfona de 8 baixos. Alguns deles, conseguiram contratos de exclusividade com gravadoras multinacionais, como foi o caso de Gerson Filho, Abdias e Zé Calixto. 
Com o surgimento de novas tendências mercadológicas, a música instrumental de sanfona de 8 baixos foi perdendo sua representatividade, mas de modo algum, deixou de existir enquanto fenômeno cultural. São Paulo, como nos demontra Everaldo Santana através, ainda conserva um importante movimento de sanfoneiros de 8 baixos nordestinos ou de origem nordestina, que continuam a se reunir, através de suas próprias forças, para compartilharem e consequentemente, estimularem suas artes. 
Esperamos estar presentes ao próximo Encontro de Sanfoneiros promovido pro Lene dos 8 baixos. Daqui do Rio de Janeiro, meus votos de um Feliz Ano Novo, de muita saúde e prosperidade ao fole de 8 baixos em São Paulo e em todo o Brasil!
Leo Rugero

Abaixo, transcrevo a carta de nosso amigo, Everaldo Santana.


Leo,
Visitei o seu Blog “Sanfonas de 8 Baixos” e gostei, parabéns pelo trabalho.

No dia 11 de Dezembro de 2010 aconteceu o 7º Encontro de Sanfoneiros, Evento promovido pelo Lene dos 8 Baixos. Este encontro aconteceu no Bar do Lene no Jardim São Vicente – Embu das Artes. Estiveram presentes vários Sanfoneiros e Percussionistas.
Sanfoneiros:
Zé Henrique dos 8 Baixos - Zé Honório dos 8 Baixos – Manuel Honório dos 8 Baixos (irmão de Zé Honório) – Tranqüilo dos 8 Baixos – Dudu dos 8 Baixos – Sival dos 8 Baixos – Téo dos 8 Baixos – Estevam dos 8 Baixos – Manoel Azóio dos 8 Baixos e Manoel do Acordeom.
Percussionistas:
Boi do Zabumba – Zinho do Zabumba – Aurino dos 8 Baixos e Airton dos 8 Baixos (filho de Zé Henrique)

Eu estive presente junto com o Adão Sanfoneiro, que você já conhece e gravamos muitos Vídeos e tiramos várias fotos. Eu enviei para o Yotube um vídeo de cada safoneiro. Já que você também está divulgando a Sanfona de 8 Baixos, estou lhe enviando os Links dos Vídeos.

Manoel Honório
http://www.youtube.com/watch?v=ro2ktzzc61c        - 7º Encontro de Sanfoneiros

Manoel do Acordeom
http://www.youtube.com/watch?v=T6o30YFeiis       - 7º Encontro de Sanfoneiros

Tico dos 8 Baixos
http://www.youtube.com/watch?v=cjmN9Re1ZBg    - 7º Encontro de Sanfoneiros

Sival dos 8 Baixos
http://www.youtube.com/watch?v=z74PKcMs8Zo   - 7º Encontro de Sanfoneiros

Zé Henrique dos 8 Baixos
http://www.youtube.com/watch?v=L_6OP7Pk-o8    - 7º Encontro de Sanfoneiros

Zé Honório
http://www.youtube.com/watch?v=XXGYc3ePFNs   - 7º Encontro de Sanfoneiros

Dudu dos 8 Baixos
http://www.youtube.com/watch?v=xv-4588Wd_M      - 7º Encontro de Sanfoneiros

Lene dos 8 Baixos
http://www.youtube.com/watch?v=833sNXbLQLk     - 7º Encontro de Sanfoneiros

1 de jan de 2011

Robertinho dos 8 baixos

Robertinho dos 8 Baixos é talento, simpatia e realização

Sanfoneiro que integra a Orquestra Sanfônica de Aracaju é filho dos grandes forrozeiros Clemilda e Gerson Filho



Sanfoneiro tem 53 anos, 35 deles dedicados ao fole (Fotos: Alejandro Zambrana)

Robertinho lembra com carinho das viagens que fez com a Orquestra Sanfônica

Por Gilmara Costa
Homem de poucas palavras, voz rouca, fala simples e tão rápida quanto o seu pensamento e os seus dedos sobre a sanfona. Este é Roberto Ferreira da Silva, o Robertinho dos 8 Baixos, filho dos grandes forrozeiros Clemilda e Gerson Filho, que faz parte da geração de sanfoneiros sergipanos que atualmente esquentam os festejos juninos em Sergipe e além fronteiras.
Aos 53 anos de idade, 35 deles dedicados ao fole, Robertinho, também funcionário público, divide o seu tempo entre as atividades no Governo do Estado e a vida artística. Nas duas funções, o sanfoneiro mantém a alegria do menino apaixonado por música que ganhou seu primeiro instrumento, aliada à experiência do instrumentista que domina com excelência a sanfona de oito baixos, tocada por poucos.
Tal balaio de simpatia, talento e gosto pelo que faz pode ser conferido na performance de Robertinho durante as apresentações da Orquestra Sanfônica de Aracaju (ORSA), quando o soar de 26 sanfonas cantam e encantam multidões. "É uma alegria imensa fazer parte da Orquestra. Sou feliz no que faço e gosto de estar perto do público. Assim, após duas canções, vou para o meio do povo, toco e danço com eles, sem largar o fole nem perder a afinação. Onde nos apresentamos, o pessoal nos recebe muito bem e aplaudem o nosso trabalho", afirma orgulhoso.
Integrante da ORSA desde o início, em 2007, Robertinho não esconde a satisfação de fazer parte dela, e revela com um largo sorriso os lugares por onde já passou levando o som de Sergipe e espalhando sua alegria. "Já conheci muito lugar nesse Brasil com minha mãe, mas a Orquestra tem me possibilitado revisitar as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Juazeiro da Bahia, onde participamos de um grande encontro de sanfoneiros no ano passado. E tudo indica que voltaremos lá novamente este ano. Um lugar que me marcou bastante foi Brasília. Lá as pessoas nos receberam de forma tão carinhosa que me encantou", conta o safoneiro.
Sem maiores pretensões na carreira artística, Robertinho afirma estar realizado na sua vida profissional e que não tem planos de gravar CD nem outros projetos, a não ser o de continuar a tocar a sua sanfona de 8 de baixos e ensinar a arte à nova geração de sanfoneiros. "Graças a Deus estou satisfeito. Minha tarefa está bem cumprida. É um imenso prazer tocar na Orquestra. Tem coisa melhor do que 26 músicos ganhando dinheiro o ano todo e divulgando a o nosso trabalho?", diz realizado.
"Vale destacar que temos quatro sanfoneiros, inclusive eu, que ensinam pessoas carentes na Escola Valdice Teles e quatro desses alunos já estão na Orquestra. Esse é o nosso intuito, colocar cada vez mais gente na Orquestra. E é dessa forma que ficamos felizes, porque fazemos aquilo que gostamos de verdade", resume Robertinho.
Forró Caju 2010
Na abertura do Forró Caju 2010, no dia 18 de junho, o balaio de simpatia e animação de Robertinho dos 8 baixos poderá ser conferido em dois momentos. Primeiramente, ele se apresenta ao lado da sua mãe Clemilda, no palco Luiz Gonzaga. "Ela esteve um pouco doente, mas jamais perderia essa grande festa. Há 50 anos fazendo esse evento, ele jamais deixaria de participar este ano", afirma o sanfoneiro.
Logo em seguida, sem arredar o pé do palco Luiz Gonzaga, Robertinho se apresenta com a Orquestra Sanfônica de Aracaju, que promete esquentar a primeira noite do Forró Caju. "Será, com certeza, mais uma linda festa, com muito forró e animação", acrescenta.
Marinete 
E este ano, os festejos juninos têm um gostinho a mais para Robertinho dos 8 baixos. Isso porque ele comemora uma década de agitação na Marinete do Forró, que leva turistas e aracajuanos num tour pelos principais pontos turísticos da cidade ao som do autêntico forró pé-de-serra. "É um momento bacana e fazer parte disso há 10 é uma grande alegria. Com já disse, sou muito feliz e realizado pelo trabalho que faço", arremata Robertinho.